Na antevisão do conclave, o 7MARGENS publica uma curta série de textos sobre aspetos fundamentais do pontificado de Francisco e de antevisão do que podem ser temas decisivos do próximo. Mais do que qualquer rótulo com que o queiram carimbar, o próximo Papa ficará conhecido pelo destino que der aos caminhos abertos pelo seu predecessor. E, como se perceberá ao ler estes textos, o ministério do sucessor de Francisco não se apresenta fácil. Sucede a um Papa que foi buscar à tradição e à fé a coragem para “não deixar pedra sobre pedra”.
Quem faz a guerra esquece a humanidade
(Papa Francisco)
Não se pode amar de armas em punho
(Paulo VI, Discurso nas Nações Unidas, 4 de outubro de 1965)
Há quem reduza, por força da agenda mediática, o papel de Francisco na construção da paz à guerra da Ucrânia e ao conflito israelo-palestino, ignorando o que foi a sua ação nesse campo. Entre os muitos e diversos textos sobre o tema, talvez as suas mensagens para o Dia Mundial da Paz nos digam muito do que foi o seu pontificado na luta contra a guerra e a construção da paz no seu sentido mais lato.
Se é verdade que acompanhava de muito perto a comunidade cristã em Gaza com telefonemas diários, também no que toca à Ucrânia foram várias as vezes que a ela se referiu demonstrando grande preocupação com o sofrimento do povo ucraniano, apelando ao perdão e à reconciliação e defendendo a paz e a negociação. Gerou grande controvérsia quando pediu à Ucrânia para ter a coragem de negociar a paz, mas não se pode ignorar as várias viagens do esmoleiro do papa, o cardeal Konrad Krajewski, à Ucrânia, a última das quais no início de abril passado (estava o Papa em convalescença) para entregar quatro ambulâncias doadas pelo Vaticano. Krajewski esteve na Ucrânia em diversas ocasiões para entregar material diverso e em dezembro de 2022 passou o Natal em Kyiv com a comunidade dominicana e voluntários que apoiavam as populações. E que dizer da comovente amizade de Francisco com Denys Koliada, jovem ucraniano protestante?!
Sobre o direito de defesa da Ucrânia, e ao contrário do que alguns lhe apontam, nunca ele disse que não o poderia fazer, embora reconheça que não é esse o caminho: “A hipótese da legítima defesa resta sempre aberta. É uma hipótese contemplada mesmo na Teologia Moral, mas como último recurso. Último recurso: com as armas. A legítima defesa há de ser feita com a diplomacia, com as mediações. Último recurso: a legítima defesa com as armas. Mas destaco: último recurso! “[1]

Cardeal Konrad Krajewski reza ao lado de uma fossa comum em Borodjanka, Ucrânia. Foto © Vatican Media.
Francisco lutou pela paz até ao seu último momento e relembrou-nos os conflitos atuais que assolam o mundo. Na sua mensagem Urbi et Orbi de 20 de Abril último, lida pelo bispo Diego Ravelli, Francisco escreveu: “Gostaria que voltássemos a ter esperança de que a paz é possível!” E lembrou os vários conflitos ou situações de grande instabilidade: Palestina, Israel, comunidade cristã de Gaza, Líbano e Síria, Iémen, Ucrânia, Arménia e Azerbaijão, Balcãs Ocidentais, República Democrática do Congo, Sudão e Sudão do Sul, Sahel, Corno de África, região dos Grandes Lagos e Myanmar. E concluía a sua mensagem apelando a “Que o princípio da humanidade nunca deixe de ser o eixo do nosso agir quotidiano. (…) E, neste ano jubilar, que a Páscoa seja também uma ocasião propícia para libertar os prisioneiros de guerra e os presos políticos.”
A luta contra a guerra e a construção da paz sempre fizeram parte do Magistério da Igreja e a Paulo VI se deve, em 1 de janeiro de 1968, a institucionalização do Dia Mundial da Paz (DMP). Se é verdade que o Papa Francisco deu continuidade ao magistério da Igreja Católica no que à paz concerne, ele fê-lo de uma forma não só insistente, mas aproximando-se das vítimas, tornando-se a sua voz e procurando fazer pontes, indo ao encontro do outro. Essa foi uma das suas características que se evidencia nas viagens e visitas, algumas de profundo sentido simbólico, que fez ao longo do seu pontificado.
Há conceitos, palavras e ideias que ficarão para sempre na nossa memória e marcarão certamente o futuro. Alguns exemplos: “economia que mata”, “cultura do descarte”, “economia de Francisco”, “ecologia integral”, “globalização da indiferença”, “casa comum”, “guerra mundial aos pedaços”, “ética do cuidado”, “ética da fraternidade” … transversais a muitos dos seus escritos.
Dos vários textos do Papa Francisco as encíclicas Fratelli Tutti (3 outubro 2020) e Laudato Si’ (24 maio 2015) são porventura dois textos fundamentais e estruturantes, para crentes e não crentes, que marcam a forma de pensar a relação com os outros, irmãos e irmãs da mesma família, e a relação com a terra que habitamos, a nossa “Casa Comum”. [Ver 7MARGENS]
Mas Francisco não foi apenas o Papa da palavra, mas também o pontífice da doçura desafiante dos gestos simbólicos. Quem não se recorda, por exemplo, da sua visita a Lampedusa, da sua solidão no meio da Praça de S. Pedro aquando da pandemia ou da cerimónia do lava-pés na prisão feminina de Rebibbia em Roma (29/03/2024)?
Uma matriz importante no pensamento e ação de Francisco é que ele se sentia e se via como um peregrino. Não alguém que falava do alto de um púlpito, mas alguém que caminhava com todas as pessoas, que se fazia companheiro de estrada, que tomava para si as dores dos que sofrem. Referia-se aos problemas do mundo numa linguagem simples, clara e direta, uma linguagem que todos entendem. Dava nome às coisas sem se importar com o que os seus detratores pudessem pensar, mas fazia-o de forma humilde, sem qualquer pretensão, tornando-se próximo de quem sofre, próximo de todos, fossem ou não crentes. A sua mensagem centrava-se nas vítimas. Nas vítimas da guerra, do poder e da violência, da iniquidade, da ganância, da destruição do planeta…
Talvez por isso se tenham levantado tantas vozes contra essa forma de olhar o mundo e, sobretudo, o seu olhar misericordioso sobre as vítimas deste mundo. Quando alguém dá voz às vítimas ou torna as suas feridas visíveis aos olhos de todos, isso incomoda as consciências sobretudo de quem as preferia no anonimato porque elas são reflexo do poder e da violência que impedem a paz, esse “(…) direito humano fundamental, pressuposto necessário para o exercício de todos os outros direitos”.(DMP 2014)
No seu livro Contra a Guerra. A Coragem de Construir a Paz [2] , o Papa Francisco dá-nos uma definição de paz que sintetiza muito do que foi o seu pontificado: “Paz quer dizer perdão que, fruto da conversão e da oração, nasce de dentro e, em nome de Deus, torna possível curar as feridas do passado. Paz significa acolhimento, disponibilidade para o diálogo, superação dos bloqueios, que não são estratégias de segurança, mas pontes sobre o vazio. Paz quer dizer colaboração, intercâmbio vivo e concreto com o outro, que constitui um dom, e não um problema, um irmão com quem tentar construir um mundo melhor. Paz significa educação: uma chamada a aprender todos os dias a arte difícil da comunhão, a adquirir a cultura do encontro, purificando a consciência de qualquer tentação de violência e endurecimento, contrárias ao nome de Deus e à dignidade do ser humano”.
Fraternidade, fundamento e caminho para a paz

O Papa Francisco com o xeque Ahmed el-Tayeb, em fevereiro, depois da assinatura do documento sobre a fraternidade humana.
A Fraternidade, fundamento e caminho para a paz foi o tema da sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz, 1 de janeiro de 2014, após a sua eleição em 13 de março de 2013. Nessa primeira mensagem, Francisco aborda vários temas que se tornarão recorrentes ao longo dos doze anos do seu pontificado: tráfico de seres humanos, migrantes, conflitos armados, conflitos no campo económico e financeiro, desigualdades, pobreza e injustiça, mentalidade do “descartável” que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, aqueles que são considerados “inúteis”. Talvez que na sua primeira mensagem Francisco quisesse clarificar qual o rumo do seu pontificado. “Com efeito, no coração de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que contém uma aspiração irreprimível de fraternidade, impelindo à comunhão com os outros, em quem não encontramos inimigos ou concorrentes, mas irmãos que devemos acolher e abraçar.” [3] Esta sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz terá sido porventura uma espécie de introito à Fratelli Tutti que será publicada seis anos mais tarde.
Recordando-nos o episódio bíblico de Caim e Abel, Francisco confronta-nos com a fragilidade humana: “A narração de Caim e Abel ensina que a humanidade traz inscrita em si mesma uma vocação à fraternidade, mas também a possibilidade dramática da sua traição”, ou seja, “o assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejeição radical da vocação a ser irmãos.” (DMP 2014).
Ao citar a Populorum Progressio de Paulo VI, “o desenvolvimento integral dos povos é o novo nome da paz”, Francisco quis recordar-nos o verdadeiro significado da paz . Ou, citando João Paulo II, a paz “é um bem indivisível: ou é bem de todos, ou não é de ninguém.” Ou, como disse Francisco “ninguém se salva sozinho”.
Obstáculos à fraternidade
A globalização da indiferença é um dos maiores obstáculos à fraternidade. Nesse combate quotidiano contra a indiferença teremos de caminhar para uma globalização da fraternidade, uma ética da fraternidade e da solidariedade. Mas, para que tal aconteça, é necessário que aprendamos a observar, a ouvir e a escutar o outro, conhecê-lo, fazermo-nos próximos e depois agir.
“A globalização da indiferença, que hoje pesa sobre a vida de tantas irmãs e irmãos, requer de todos nós que nos façamos artífices duma globalização da solidariedade e da fraternidade que possa devolver-lhes a esperança…” (DMP, 2015)
O Papa Francisco deixa-nos uma grande lição ao dizer-nos que a construção da paz só será possível se olharmos o outro de frente e tomarmos consciência do mal que lhe impusemos, já que todos nós nos devemos sentir responsáveis. Não será possível enquanto nos colocarmos no centro e o outro continuar a fazer parte das nossas periferias. “Sem tomarmos consciência das consequências dos nossos actos para o presente e para as gerações futuras” (DMP 2021) dificilmente alcançaremos a paz.
À lógica do medo há que contrapor a ética da responsabilidade que promova o diálogo e a aproximação ao outro. A paz e a fraternidade não assentam numa lógica de medo, mas numa lógica de encontro e de diálogo.
“(…) a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio de forças e do medo. Manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade. (…) O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. (…) Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança.” (DMP 2019)
Cultura orientada para o lucro e o hedonismo. “Uma cultura orientada para o lucro e o hedonismo conduz à indiferença e, muitas vezes, acaba por justificar ações e políticas que acabam por constituir ameaças à paz”. (DMP, 2016)
Pese embora a globalização da indiferença, Francisco não esquece os gestos daqueles e daquelas que no quotidiano, silenciosamente, lutam contra essa indiferença. E lembra-nos que “Devemos contribuir para o bem comum, de modo muito particular para a paz, não apenas na medida das nossas capacidades, mas também da função que desempenhamos na sociedade” (DMP, 2016)
Caminhos para a construção de uma paz duradoura

Vincent van Gogh (1853–1890), O Bom Samaritano.
A paz é muito mais do que a ausência de guerra, ela “deve ser edificada sobre a justiça, o desenvolvimento socioeconómico, a liberdade, o respeito pelos direitos humanos fundamentais, a participação de todos nos assuntos públicos e a construção da confiança entre os povos” [4]
Há que desenvolver uma cultura de solidariedade e misericórdia para que possamos vencer a indiferença. Todos nós somos artífices da globalização da fraternidade e da solidariedade, todos nós somos chamados a construir a paz.
Diálogo entre gerações. Como Francisco já havia defendido na Fratelli Tutti “ (…) entre a indiferença egoísta e o protesto violento há uma opção sempre possível: o diálogo entre as gerações” (DMP 2022).
“(…) a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras.” (DMP 2019)
Educação e cultura do cuidado. A construção da paz e a promoção da cultura do cuidado “requer” um processo educativo. A cultura do cuidado começa no seio da família, por isso “a família precisa de ser colocada em condições de poder cumprir esta tarefa vital e indispensável.” (DMP 2021)
Também a escola e a universidade, bem como os sujeitos da comunicação social e, de modo muito particular, as religiões são responsáveis por criar um “Sistema de valores fundado no reconhecimento da dignidade de cada pessoa, de cada comunidade linguística, étnica e religiosa, de cada povo e dos direitos fundamentais que dela derivam. A educação constitui um dos pilares de sociedades mais justas e solidárias” (DMP, 2016).
“As religiões podem desempenhar um papel insubstituível na transmissão aos fiéis e à sociedade dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferenças, do acolhimento e do cuidado dos irmãos mais frágeis.” (DMP 2016)
Para que tal desígnio se cumpra, defendeu o Papa Francisco, exigiria que se caminhasse para um Pacto Educativo Global.
O trabalho é um “fator indispensável para construir e preservar a paz.” O trabalho é não apenas o lugar onde cada pessoa expressa os seus dotes e criatividade, mas também o compromisso, o esforço e a colaboração com outros. “Nesta perspetiva acentuadamente social, o trabalho é o lugar onde aprendemos a dar a nossa contribuição para um mundo mais habitável e belo.” (…)” O trabalho é a base para a construção da justiça e da solidariedade numa comunidade.” (DMP 2022).
Na sua mensagem de 2022 (Diálogo entre gerações, educação e trabalho: instrumentos para construir uma paz duradoura), Francisco lembrou o impacto que a crise da covid-19 teve na economia informal “que muitas vezes envolve os trabalhadores migrantes. Muitos deles – como se não existissem – não são reconhecidos pelas leis nacionais” e vivem em condições muito precárias e completamente desprotegidos.
Aliás, já na sua mensagem de 2016 havia feito um apelo aos decisores políticos: “Quanto aos migrantes, quero dirigir um convite a repensar as legislações sobre as migrações, de modo que sejam animadas pela vontade de dar hospitalidade, no respeito pelos recíprocos deveres e responsabilidades, e possam facilitar a integração dos migrantes” (DMP 2016)
A cultura do cuidado como percurso de paz. Durante a pandemia, e em situações de desespero, aprendemos a cuidar uns dos outros. Ora, a prática dessa cultura do cuidado deveria ser uma prática quotidiana. Só desenvolvendo uma cultura do cuidado será possível erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito. Desenvolvendo uma cultura do cuidado desenvolvemos simultaneamente uma atitude de esperança, porque acreditamos e sabemos que um outro futuro é possível.
“O cuidado autêntico da nossa própria vida e das nossas relações com a natureza é inseparável da fraternidade, da justiça e da fidelidade aos outros.” (DMP, 2021)
“(…) a promoção da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da criação” constitui uma espécie de “gramática” do cuidado que nos indica qual o caminho a seguir.
Também o cuidado com o outro deve estar presente na resolução dos conflitos. Os conflitos não se resolvem através das armas onde a lei do mais forte impera e nem esse é o caminho para uma paz duradoura. É preciso ter a coragem, a ousadia e a criatividade para assentarmos a construção da paz numa não-violência ativa e numa cultura do cuidado.
Citando Madre Teresa de Calcutá (Prémio Nobel da Paz em 1979), Francisco dizia que “A não violência não é rendição, negligência ou passividade, mas antes ir ao encontro das vítimas com generosidade e dedicação, tocando e vendando cada corpo ferido, curando cada vida dilacerada”.[5]
“(…) a não violência para os cristãos não é um mero comportamento tático, mas um modo de ser da pessoa, uma atitude de quem está tão convicto do amor de Deus e do seu poder que não tem medo de enfrentar o mal somente com as armas do amor e da verdade. O amor ao inimigo constitui o núcleo da «revolução cristã».” (Bento XVI, Angelus, 18 fevereiro 2007, citado na mensagem DMP 2017)
Após o final dos conflitos existem feridas abertas que demorarão o seu tempo a cicatrizar e que, muitas vezes impedem o encontro e um verdadeiro diálogo. “Em muitas partes do mundo, fazem falta percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas, há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro” (DMP 2016)
A paz é também uma luta pela dignidade humana
“Não haverá paz sem partilha e acolhimento, sem uma justiça que assegure equidade e promoção para todos, a começar pelos mais frágeis. Não haverá paz sem povos que estendam a mão a outros povos. Não haverá paz enquanto se olhar os outros como um «eles», e não como um «nós»”, escreveu o Papa Francisco no livro já citado (Contra a Guerra. A Coragem de Construir a Paz).

Migrantes resgatados no Mediterrâneo pelo navio da ONG Open Arms, em junho 2023. Foto © Open Arms
A paz é uma tarefa de todos, nomeadamente dos crentes, porque ser-lhes-á perguntado: “onde está o teu irmão?” Como escreveu Francisco na Bula do Jubileu Extraordinário da Misericórdia (11 abril 2015): “Onde houver cristãos, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia”.
A paz é também gratidão pelo património que nos foi confiado e que recebemos daqueles que nos antecederam. “A paz baseia-se no respeito por toda a pessoa, independentemente da sua história, no respeito pelo direito e o bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida das gerações passadas” (DMP, 2019).
No pós-pandemia, e na sua mensagem de 2023 sob o lema Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir da covid-19 para traçar sendas de paz, Francisco chamou-nos a atenção para o facto de a pandemia ter posto a descoberto contradições e desigualdades gritantes das nossas sociedades e, mais uma vez, lembrou os trabalhadores não regularizados em muitas partes do mundo. A pandemia mostrou-nos as inumeráveis fragilidades deste nosso mundo.
Escreveu Francisco: “(…) a maior lição que a covid-19 nos deixa em herança é a consciência de que todos precisamos uns dos outros, que o nosso maior tesouro, ainda que o mais frágil, é a fraternidade humana, fundada na filiação divina comum, e que ninguém pode salvar-se sozinho.”
Importa colocar no centro a palavra “juntos”, porque é “juntos, na fraternidade e solidariedade, que construímos a paz, garantimos a justiça, superamos os acontecimentos mais dolorosos.”
Devemos “repensar-nos à luz do bem comum, com um sentido comunitário, como um «nós» aberto à fraternidade universal.”
Atento aos sinais dos tempos, a Inteligência Artificial (IA) foi também uma das suas preocupações ao ponto de lhe dedicar a mensagem de 2024 ( Inteligência artificial e paz). Mas que relação existirá entre este novo “deus” da tecnologia e a paz? É verdade que a ciência e a tecnologia nos proporcionam um maior bem-estar e nos trazem soluções para alguns dos nossos problemas, mas também é verdade que por vezes nos colocam perante desafios cujo desfecho nem sempre intuímos. A IA “permite exercer um controle – até agora inédito – sobre a realidade, coloca nas mãos do homem um vasto leque de possibilidades, algumas das quais podem constituir um risco para a sobrevivência humana e um perigo para a casa comum” (Laudato Si’)

“Quais serão as consequências das novas tecnologias digitais?” Foto © Gerd Altmann / Pixabay
Há que ter consciência de que as inovações tecnológicas se inserem na realidade e que os seus efeitos não são neutros. Sendo verdade que a grande “quantidade de dados analisados pela IA não é, por si só, garantia de imparcialidade”, existe sempre o risco de distorção “replicando as injustiças e os preconceitos dos ambientes onde têm origem.”
“Não se deve permitir que os algoritmos determinem o modo como entendemos os direitos humanos, ponham de lado os valores essenciais da compaixão, da misericórdia e do perdão, ou eliminem a possibilidade de um indivíduo mudar e deixar para trás o passado”.
Todos nós já percebemos que a forma como se faz a guerra também vai mudando, nomeadamente com a introdução de sistemas de controlo remoto. Que implicações terá na nossa perceção dos conflitos armados?
“A possibilidade de efetuar operações militares através de sistemas de controle remoto levou a uma perceção menor da devastação por eles causada e da responsabilidade da sua utilização, contribuindo para uma abordagem ainda mais fria e destacada da imensa tragédia da guerra. A pesquisa sobre as tecnologias emergentes no setor dos chamados «sistemas de armas letais autónomas», incluindo a utilização bélica de inteligência artificial, é um grave motivo de preocupação ética.”
Nesta área resta-nos ainda um logo caminho a percorrer no sentido do desenvolvimento ético dos algoritmos, ou do aprofundamento da algor-ética como lhe chamou Francisco.
Na sua última mensagem sob o lema Perdoa-nos as nossas ofensas, concede-nos a tua paz, marcada pelo jubileu da Esperança, Francisco desafia-nos a escutar o “desesperado grito de ajuda” [6] e convida-nos a “unir-nos à voz que denuncia tantas situações de exploração da terra e de opressão do próximo” (João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millenio adveniente, 10 novembro 1994). Todos nós somos, de alguma forma, responsáveis “pela devastação a que a nossa casa comum está sujeita, a começar pelas ações que, mesmo indiretamente, alimentam os conflitos que assolam a humanidade.
O jubileu convida-nos a empreender algumas mudanças para enfrentar a atual condições de injustiça e de desigualdade. “O sistema internacional se não for alimentado por uma lógica de solidariedade e interdependência, gera injustiças que, exacerbadas pela corrupção, aprisionam os países pobres”.
Francisco afirma que a dívida externa se tornou um instrumento de controlo que conduz à exploração dos recursos dos países mais pobres para satisfazer as necessidades dos países ricos. Assim, Francisco retoma o apelo lançado por João Paulo II aquando do Jubileu do ano 2000 para que se pense numa “consistente redução, se não mesmo no perdão total da dívida internacional, que pesa sobre o destino de muitas nações.”
Na defesa da cultura da vida, Francisco pede a eliminação da “pena de morte em todas as nações. Em realidade, esta punição, além de comprometer a inviolabilidade da vida, aniquila toda a esperança humana de perdão e de renovação.”
Francisco propõe-nos um outro desafio neste ano jubilar da esperança, que já vinha da Fratelli tutti: criação de um fundo mundial que “elimine definitivamente a fome e facilite a realização de atividades educativas nos países mais pobres que promovam o desenvolvimento sustentável, lutando contra as alterações climáticas”. Este fundo seria alimentado por uma percentagem fixa do dinheiro gasto em armamento.
“Quando existe em circulação uma quantidade tão grande de armamento será sempre mais fácil encontrar novos pretextos para iniciar as hostilidades”. (DMP 2014), o que significa que sem um desarmamento efetivo correr-se-á sempre o risco de novos conflitos.
Francisco lembra-nos como a hipocrisia dos países desenvolvidos, fabricantes de armamento, é um obstáculo à paz e como atitudes simples, mas corajosas, podem fazer a diferença.
“Há pouco tempo, aconteceu uma coisa bela, por um lado, mas feia por outro. A coisa feia – mas devo dizê-la – é a hipocrisia «armamentista»: países cristãos (pelo menos, de cultura cristã), países europeus (diz-se a «Europa culta»), que falam de paz e vivem das armas. A isto, chama-se hipocrisia; é uma palavra evangélica: Jesus di-la muitas vezes no capítulo 23 de Mateus. É preciso acabar com esta hipocrisia. Que uma nação tenha a coragem de dizer: «Não posso falar de paz, porque a minha economia ganha muito com o fabrico de armas». Sem insultar nem enlamear aquele país, mas falemos como irmãos (a fraternidade humana): Paremos, amigos! Paremos, porque é uma coisa má. A coisa bela: a um porto – agora não me lembro bem qual – chegou um navio carregado de armas que deviam ser transferidas para um navio maior com destino ao Iémen (sabemos o que está a acontecer no Iémen). E os trabalhadores do porto disseram «não». Foram corajosos! E o navio voltou para casa. É um caso, mas ensina como nos devemos comportar nestas coisas. Hoje, a paz é muito frágil, muito frágil, mas não devemos desanimar. E, com as armas, favorecemos tal fragilidade.” [Conferência de Imprensa durante o voo de regresso a Roma após visita à Tailândia e Japão (26 novembro 219]
Como bem lembrou na sua mensagem de 2020 (A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica), a paz é um caminho de esperança que exige diálogo, reconciliação e conversão ecológica. No processo de diálogo e de reconciliação é importante que não se perca a memória, apesar das feridas, para que não se corra o risco de repetição. Mas a memória é também um diálogo entre gerações no sentido da procura de um novo futuro.
“Não podemos permitir que se perca a memória do que aconteceu, aquela memória que é garantia e estímulo para construir um futuro mais justo e fraterno”.

Papa Francisco com sobreviventes de Hiroshima. Foto: Direitos reservados/Religion Digital
No encontro com os sobreviventes do desastre de Fukushima e das bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki, aquando da sua viagem à Tailândia e ao Japão (19 a 26 novembro de 2019):
“No nosso tempo, há a tentação de fazer do progresso tecnológico a medida do progresso humano. Este «paradigma tecnocrático» de progresso e desenvolvimento molda a vida das pessoas e o funcionamento da sociedade, levando frequentemente a um reducionismo que afeta todas as áreas da nossa sociedade (cf. Laudato si’, 101-114). Por isso, em momentos como este, é importante fazer uma pausa, parar e refletir sobre quem somos e – talvez de forma mais crítica – quem queremos ser. Que espécie de mundo, que tipo de legado queremos deixar a quantos vierem depois de nós? A sabedoria e a experiência dos idosos, juntamente com o empenho e o entusiasmo dos jovens, podem ajudar a plasmar uma visão diferente, uma visão que ajude a olhar com grande respeito o dom da vida e a solidariedade com os nossos irmãos e irmãs na única, multiétnica e multicultural família humana.”
E aos jornalistas que o acompanharam, confessava: “Hiroxima foi uma verdadeira catequese humana sobre a crueldade. A crueldade. Não pude ver o museu de Hiroxima – pois o tempo disponível que tive (foi um dia terrível de inverno!) dava justamente para o encontro – mas dizem que o museu é terrível, terrível: cartas dos Chefes de Estado, dos generais que explicavam como se podia fazer um desastre maior. Para mim, foi uma experiência muito mais comovente que a de Nagasáqui. Em Nagasáqui, foi a experiência do martírio: vi de relance o museu do martírio; mas a experiência de Hiroxima foi muito comovente. E lá reiterei que o uso das armas nucleares é imoral – isto deve estar no Catecismo da Igreja Católica – e não apenas o uso, mas também a posse, pois [por causa da posse] um incidente ou a loucura de qualquer governante, a loucura duma pessoa pode destruir a humanidade. Pensemos no dito de Einstein: «A IV Guerra Mundial será combatida com paus e pedras».” [7]
Todos somos artesãos da paz e construtores de futuro
“A paz é uma conversão do coração e da alma sendo fácil reconhecer três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária: a paz consigo mesmo, a paz com o outro, a paz com a criação” (DMP 2019). Isto exige não apenas uma conversão interior, mas também a ousadia do encontro e o respeito por aquela que é a nossa “Casa Comum”.
“Cabe-nos a nós, a humanidade de hoje e, principalmente, os crentes das diferentes religiões, transformar os instrumentos do ódio em instrumentos de paz. Cabe-nos a nós instar fortemente os responsáveis das nações para que a proliferação crescente de armas ceda o lugar à distribuição de alimentos para todos. Cabe-nos a nós calar as acusações recíprocas, para dar voz ao grito dos oprimidos e descartados do planeta: muitos estão privados de pão, remédios, instrução, direitos e dignidade.” (Contra a Guerra. A Coragem de Construir a Paz)
O Papa Francisco, na sua luta pela paz, também não esqueceu a necessidade de adaptar as organizações internacionais aos tempos que hoje vivemos.
“As Organizações Internacionais não conseguem, as Nações Unidas não conseguem; fazem tantas coisas, tantas mediações… Tudo digno de louvor. Há países – como a Noruega, por exemplo – sempre dispostos a mediar, a procurar uma saída para evitar as guerras. Isto está a ser feito, e deixa-me feliz. Mas é pouco, deve-se fazer ainda mais. Pensa tu – sem ofensa – no Conselho de Segurança da ONU: há um problema que envolve armas e todos estão de acordo em resolver aquele problema para evitar um incidente bélico; todos votam sim, mas há um com direito de veto que vota não e… nada feito. Alguém disse (não sou capaz de julgar se seja bom ou não; é uma opinião que ouvi) que as Nações Unidas deveriam talvez dar um passo mais, renunciando no Conselho de Segurança ao direito de veto dalgumas nações. Não sou técnico nisto, mas senti-o como uma possibilidade. Não sei que dizer, mas seria bom que todos tivessem o mesmo direito.” [8]
Todos nós somos chamados a ser construtores da Paz e a sermos considerados pela promessa de futuro que transportamos na vivência quotidiana do perdão.
Agora que os cardeais se reúnem em conclave para a escolha do novo papa, todos anseiam, crentes e não crentes, que o legado de Francisco não seja esquecido, mas que sobretudo tenha continuidade. Cada pessoa é única e, por isso mesmo, sabemos que não teremos um novo “Francisco”. Mas alimenta-nos a esperança de que seja alguém capaz de olhar para o mundo e de caminhar ao lado de todas as pessoas, sobretudo dos que estão na margem, na penumbra. Pedro Abrunhosa foi feliz numa frase que disse quando esteve no Vaticano no encontro do Papa com os artistas: “sem a pretensão de nos levar até Deus, sentimos que ele trouxe Deus até nós”. Talvez seja isso que se espera do novo papa, que humildemente traga Deus para o meio de todas as pessoas e nos faça sentir a sua presença. Afinal, como escreveu Francisco, “O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz” (DMP, 2014).
Mensagens do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz
58º Dia Mundial da Paz 2025 – Perdoa-nos as nossas ofensas, concede-nos a tua paz 57º Dia Mundial da Paz 2024 – Inteligência artificial e paz 56º Dia Mundial da Paz 2023 – Ninguém pode salvar-se sozinho. Juntos, recomecemos a partir de Covid-19 para traçar sendas de paz 55º Dia Mundial da Paz 2022 – Diálogo entre gerações, educação e trabalho: instrumentos para construir uma paz duradoura 54º Dia Mundial da Paz 2021 – A cultura do cuidado como percurso da paz 53º Dia Mundial da Paz 2020 – A paz como caminho de esperança: diálogo, reconciliação e conversão ecológica 52º Dia Mundial da Paz 2019 – A boa política está ao serviço da paz 51º Dia Mundial da Paz 2018 – Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz 50º Dia Mundial da Paz 2017: “A não-violência: estilo de uma política para a paz” 49º Dia Mundial da Paz 2016: Vence a indiferença e conquista a paz 48ª Dia Mundial da Paz 2015: Já não escravos, mas irmãos 47º Dia Mundial da Paz 2014: Fraternidade, fundamento e caminho para a paz
[1] Conferência de Imprensa do Santo Padre durante o voo de regresso a Roma (26 novembro 2019)
[2] Contra a Guerra. A Coragem de Construir a Paz. Edições D. Quixote
[3] Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2014: “Fraternidade, Fundamento e caminho para a Paz”
[4] Contra a Guerra. A Coragem de Construir a Paz. Edições D. Quixote
[5] Mensagem do Dia Mundial da Paz de 2017, sobre “A não-violência: estilo de uma política para a paz”.
[6] Bula de proclamação do Jubileu Ordinário do ano de 2025 (9 maio 2024)
[7] Conferência de Imprensa do Santo Padre durante o voo de regresso a Roma (26 novembro 2019)
[8] Conferência de Imprensa do Santo Padre durante o voo de regresso a Roma (26 novembro 2019)










