O bom Papa Leão XIV publicou a 15 de maio de 2026 a carta Magnifica Humanitas, onde reflete sobre como nos proteger na era da IA, “as coisas novas” do século XXI. Pede que não deixemos a tecnologia roubar-nos o coração nem a capacidade de distinguir entre o bem e o mal. A IA deve estar ao serviço do humano e não ao contrário. Para mim, tendo o meu filho Francisco defendido neste mês de maio uma tese de engenharia informática sobre Quantum Kernel Machines, sei um pouco do que se passa. O importante é continuar a ser humano, o que nem sabemos ainda completamente o que é.
Há palavras que parecem saídas de romances e que, de repente, entram no vocabulário quotidiano como se sempre lá tivessem estado. “Transhumanismo” é uma delas. A ideia é simples de resumir: usar a ciência e a tecnologia para ultrapassar as limitações e fragilidades humanas. Viver mais tempo, pensar mais depressa, corrigir doenças, melhorar capacidades físicas e mentais, lidar com a morte. O problema começa quando alguém pergunta o que é, afinal, “o humano” que se pretende ultrapassar.
O debate nasceu há muitos decénios, séculos, milénios mesmo. Muito antes dos computadores, das redes neuronais e da inteligência artificial, já existia o velho sonho de transformar a condição humana. Os alquimistas procuravam o elixir da longa vida. Os mitos antigos falavam de Prometeu que roubara o fogo aos deuses. No poema de Gilgamesh, um herói atravessa o mundo em busca da imortalidade. O Renascimento proclamou que o homem podia moldar-se a si próprio. Para Giovanni Pico della Mirandola, o ser humano não estava preso a uma forma definitiva e podia elevar-se ou degradar-se conforme as suas escolhas.
Em certo sentido, toda a civilização é transumana. A escrita ampliou a memória. As embarcações alargaram o horizonte. Os óculos corrigiram a visão. As vacinas aumentaram a esperança média de vida. Os implantes melhoram o nosso estado físico. O telefone, a rádio, estenderam a voz humana para lá da distância. A internet tornou quase instantâneo o acesso ao conhecimento. A fronteira entre corpo, técnica e ambiente nunca foi estável.
No século XX, porém, esta ambição ganhou velocidade. Julian Huxley utilizou o termo “transhumanismo” para descrever uma humanidade capaz de se transcender a si mesma através da ciência. Outros imaginaram sociedades futuras onde a genética aperfeiçoaria o corpo e a mente, onde os computadores imitariam a inteligência e onde a tecnologia substituiria as fragilidades da existência biológica.
A partir da década de 1960, com o crescimento da informática, surgiram previsões mais ousadas. Alguns começaram a falar de “singularidade”: um momento em que as máquinas ultrapassariam a inteligência humana e iniciariam um processo autónomo de aperfeiçoamento. O matemático I. J. Good imaginou uma “explosão de inteligência”. Ray Kurzweil anunciou que os computadores poderiam exceder as capacidades humanas em 2030. Outros deliram com a possibilidade de descarregar a consciência para sistemas digitais, como se a mente pudesse ser copiada para um disco rígido.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas científica e entra no território da imaginação. Porque uma coisa é reconhecer o poder extraordinário das tecnologias contemporâneas e outra, muito diferente, é reduzir a experiência humana a informação transferível, cujos riscos nos foram expostos no Seminário Lonergan em 2017 pelo amigo e televangelista Luís Vidigal, da APDSI.
Alan Turing, figura decisiva da computação moderna, tinha uma visão mais prudente do que muitos dos seus herdeiros ideológicos. Quando propôs o famoso “teste de Turing”, não estava a afirmar que as máquinas pensam como os humanos. Estava antes a mostrar como as fronteiras entre inteligência, linguagem e simulação são muito mais ambíguas do que julgamos. O próprio Turing considerava demasiado vaga a pergunta “podem as máquinas pensar?” Talvez tenha percebido cedo aquilo que os transumanistas não admitem: que o pensamento humano é muito diferente de cálculo.
A literatura percebe as coisas muito antes dos laboratórios. Basta recordar Frankenstein, de Mary Shelley, Roboti, de Karel Čapek – que o encenador Júlio Martin levou à cena neste Maio no TUT – Teatro Académico da Lisboa – Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell. Todas estas obras apresentam sociedades tecnicamente avançadas, e inquietantes. Não criticam apenas as máquinas; interrogam a forma como o poder, a eficiência e o controlo podem esvaziar a liberdade e a generosidades humana.
Os benefícios das novas tecnologias – medicina regenerativa, a nanotecnologia e a inteligência artificial – são extraordinários. Hoje é possível diagnosticar doenças com uma precisão inimaginável há poucas décadas. Próteses sofisticadas devolvem movimentos. Sistemas inteligentes auxiliam cirurgias e investigação científica. Ignorar estas conquistas seria absurdo. Ninguém quer repetir o processo de Galileu
Mas o entusiasmo tecnológico tende a esquecer uma evidência que o papa Leão XIV vem advertir: os seres humanos não vivem apenas de desempenho. Uma sociedade não se mede apenas pela velocidade dos processadores nem pela quantidade de dados disponíveis. Vive também de vínculos, memória, responsabilidade e cuidado, generosidade, a que os Evangelhos chamam amor ao próximo. As grandes questões do futuro não são técnicas. A pergunta decisiva não é se conseguiremos produzir máquinas mais inteligentes, mas se continuaremos capazes de compreender o que não pode ser reduzido a algoritmo: amor, consciência moral, promessa, amizade, a experiência da perda e do abandono.
A história da técnica mostra que cada invenção resolve dificuldades antigas e cria dificuldades novas. O automóvel trouxe mobilidade mas poluição. A internet democratizou informação e multiplicou a desinformação. A IA aumenta capacidades mas introduz riscos de as pessoas deixarem de pensar por si, de os algoritmos discriminarem pessoas (em empréstimos, empregos e de a mentira e a desinformação espalharem-se facilmente).
O humano nunca foi uma essência fixa nem um programa fechado. Somos instáveis, contraditórios, criativos e vulneráveis. Mas é precisamente essa vulnerabilidade que torna possíveis a ética, a arte, a política e a compaixão.
No fundo, o debate sobre o transumanismo revela menos sobre as máquinas do que sobre os nossos próprios desejos. O sonho de ultrapassar os limites acompanha-nos desde os mitos antigos. O medo de perder a humanidade acompanha-nos desde a invenção das primeiras ferramentas. E por isso futuro não dependa apenas de produzir tecnologias mais poderosas, mas de aprender a viver humanamente no meio delas.
Referências:
- Aldous Huxley, Brave New World (1932).
- Alan Turing, “Computing Machinery and Intelligence” (1950).
- Ray Kurzweil, The Age of Spiritual Machines (1999).
- Nick Bostrom, Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies (2014).
- Pedro Domingos, A Revolução do Algoritmo Mestre (2015)
- Max Tegmark, Life 3.0 (2019).
- Mendo Henriques “Transhumanism’, a category mistake” (2024)
Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.
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