
“Dentro dos autocarros não se devia poder falar ao telefone, pelo menos acima de tantos decibéis. Aquilo parece que ecoa e a gente é obrigada a saber da vida dos outros, assim, sem escolha.”
O meu, era o lugar 39, sentei-me. É sempre melhor ir do lado da janela. As janelas são objetos muito interessantes. O motorista arrancou com o autocarro quase cheio.
Na poltrona de trás um Guineense falava ao telemóvel, em crioulo. Gosto de ouvir falar crioulo, conheço algumas palavras de vários dialetos e gosto de imaginar que falo bem. Dentro da cabeça eu ia repetindo as frases que o ouvia dizer e fazia de conta, mas só dentro da imaginação mesmo, que falava crioulo fluentemente.
Ao seu lado, uma mulher também falava ao telefone, mas esta era algarvia, esses conheço eu bem, os da minha laia. Agigantava as vogais e dizia moçe e que jête. Fiquei a conhecer um bocado da vida dela.
Dentro dos autocarros não se devia poder falar ao telefone, pelo menos acima de tantos decibéis. Aquilo parece que ecoa e a gente é obrigada a saber da vida dos outros, assim, sem escolha.
Ainda se ela falasse em crioulo, agora em algarvio. Em crioulo ainda dava para brincar às imitações. Em algarvio só servia mesmo para coscuvilhice involuntária.
Para mais, eu estava era interessada no programa de rádio que estava a passar. Assim que entrei na viatura percebi que o rádio estava sintonizado na Antena 2 e pensei, Ah, desta vez sim, viajar sem massacrar os tímpanos nem os neurónios com as estações do costume a papaguear vulgaridades radiofónicas, músicas orelhudas e publicidade infinita. Assim, sim, sr. Motorista; assim, sim.
Dali a pouco começou o programa Quinta Essência, do João Almeida, e o convidado era o Arlindo Manuel Caldeira, o tema era a Escravatura. Teria uma horinha de prazer naquela viagem. Mas não.
O guineense continuava a crioular e eu já estava cansada – e até tinha desistido – das imitações. A algarvia tinha desligado com a irmã mas agora via uma telenovela com o som alto e sem fones. Eu quis pedir ao motorista para aumentar o volume do rádio mas não tive coragem. Cresceu-me mais ainda a raiva aos telemóveis. A raiva cresce-nos por tão pouco. Ouvia, ao longe e sem decifrar as palavras, o timbre dos radialistas mas era impossível seguir a conversa atentamente.
À minha frente, no lugar 32, uma brasileira atende uma chamada, Oi, amigo!… Oh, cum caraças, disse eu para dentro. Jurei-me, mas juro mesmo que me jurei, não é exagero, que da próxima vez em que eu precisasse de andar de autocarro ia a uma drogaria qualquer comprar uns tampões – daqueles mesmo das obras, gigantes, e os melhores do mercado – para não ouvir absolutamente nada a não ser os próprios pensamentos. Sim, porque eu não uso fones, aliás, eu nem sequer uso smartphone. O meu telefone de teclas até apanha rádio, é verdade, mas a antena é muito má. Uns tampões, estava decidida. Uns tampões amarelos, daqueles das obras.
A moça da frente dizia ao amigo que não tinha um puto, não se esqueçam que era brasileira, um puto é nada, cheta, estava tesa de só poder beber água da torneira em casas de banho públicas. Chorou um pouco. Estava com dores numa perna que se notava muito inchada. Ia viajar do Algarve ao Minho porque a sua filha estava lá com uma amiga. Conseguiu um quarto para si e para a menina, e um trabalho. Eu fiquei a saber que ela ia chegar, ver a filha, tomar um banho e dirigir-se ao hospital para tratar da perna, porque não podia começar a trabalhar naquele estado.
A minha mãe bem que me avisou que eu ia ficar nesta situação e eu não lhe dei ouvidos, ia dizendo ela ao amigo através do viva voz, Mas eu sei que, apesar disso, ela me vai ajudar se puder, porque o amor de mãe é o amor que a gente tem mais parecido ao de Deus.
Por esta altura eu já prestava atenção à conversa, com interesse. Esqueci-me da raiva e comecei a ficar comovida. Raios me partam, a moça não tinha um puto nem para levar um chocolate à filhinha e eu estava com raiva de não conseguir ouvir o Quinta Essência em paz.
Parámos para o café. Quinze minutos, disse o motorista. Regressei antes disso, a moça brasileira não. Mas a mulher da cadeira ao lado, a 33, sim, também já tinha regressado. Era uma velhota elegante. Também sem smartphone, vi-a mexer num Alcatel de números grandes igual ao que herdei da minha avó e só deixei de usar depois de ele ter caído pelo buraco do elevador, no oitavo andar, e ter perdido a bateria. Palavra de honra…depois de a avó morrer e eu começar a usá-lo, ainda me durou três anos, e a bateria durava cinco dias. Foi pena ter caído pelo buraco do elevador.
Bem, mas estava eu a dizer que a senhora da cadeira 33, a velhota elegante, já estava sentada no seu lugar quando eu voltei. Pelo intervalo entre as duas poltronas eu vi-a mexer nuns papéis que estavam na bolsa das costas da poltrona à frente da brasileira. Ela não reparou que eu a via. Logo achei estranho, achei que a coscuvilhice não combinava com a elegância, depois lembrei-me que as aparências enganam – pelo menos foi assim que me ensinaram. Depois percebi que ela estava a enfiar uma nota de vinte euros por entre os papéis, de maneira a que a moça visse quando os fosse recolher, para não se perder.
No resto da viagem eu já não pensava em crioulices nem me incomodava com o som alto da telenovela que passava no telemóvel da algarvia. No resto da viagem eu só pensava na condição humana.
Pensava naquela jovem mulher que havia gasto os últimos tostões do fundo do bolso para comprar um bilhete de autocarro para ir ao encontro da filha, de casa e de trabalho na outra ponta do país. E de como ela acreditava tanto em Deus mesmo assim, tanto, que falava Nele a cada cinco palavras. Não deve ser fácil acreditar em Deus naquelas condições.
Enquanto eu olhava pela janela de montanhas verdes e velozes, pensava na velhota elegante e na sua generosidade. Em vez de dar a nota – provavelmente a única no fundo da sua carteira de couro – à moça, escondeu-a por entre as suas coisas para deixar parecer que foi milagre de Deus. Não foi o valor da nota que me comoveu, foi o valor do gesto.
A velhota pensou na humilhação que não queria causar ao lhe dar a nota na mão. Foi isso, de certeza, só pode ter sido.
Um pouco antes, na conversa da brasileira em viva voz com o amigo, ela dizia que já não havia no mundo quem se importasse com o outro, que cada um só se importava consigo mesmo e que o mundo estava feito assim, era aceitar e pronto. Mal sabia a moça que mesmo ao seu lado estava a contradição dessa teoria; alguém que, sem a conhecer, se importou com ela.
E eu, que não acreditava em anjos, levava com um espetado mesmo à minha frente. Baixei a cabeça, por vergonha de chorar em público, e deixei que as lágrimas me saíssem como bem lhes apetecesse.
Eu gostava que a velhota, por coincidência, fosse leitora do 7Maregns e lesse esta crónica. Talvez me escrevesse e, se isso acontecesse, eu dir-lhe-ia que a passei a amar, mesmo sem a conhecer. Eu amo os cuidadores do mundo. Que nunca vou esquecer as mãozinhas dela muito silenciosas a tentar esconder o gesto, como se o protagonismo lhe tirasse todo o valor – ao gesto, não a ela.
Ela, que aliviava o desespero de um desconhecido e fazia disso a natureza humana; ela, que contraria a corrente do desprezo, do egoísmo e da indiferença.
Quando o autocarro parou, na estação de sete-rios, a velhota saiu sem olhar para trás. Eu, com medo de a moça não reparar na nota e deixá-la perdida na bolsa da poltrona, toquei-lhe no ombro e disse, Olha, eu vi aquela senhora mexer nesses papéis, repara se ela colocou aí alguma coisa.
Virei as costas e saí também, mas ainda a ouvi dizer, Oh, meu Deus, muito obrigada, muito obrigada, Senhor.
Olhei por entre os muitos passageiros da estação para tentar encontrar a velhota. Mas como um verdadeiro anjo – e, se dúvidas houvesse, terminariam ali – vi-a sumir-se, sem deixar rasto, por entre a multidão.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024.










