Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta a proximidade do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinala no próximo dia 29, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Lavínia Leal, jornalista da RTP.

Lavínia Leal
É um fenómeno estranho: como é que se explica que um tema sobre o qual todos têm opinião e que de uma forma ou outra faz ou fez parte da vida da maioria dos portugueses é tão rejeitado quando se trata de preencher espaço na emissão?
Faço uma pesquisa rápida no Google Notícias: “Igreja Católica Portugal”.
O resultado espelha bem a relação que a comunicação social “laica” portuguesa tem com a Igreja católica. A maior parte das notícias são sobre abusos sexuais e sobre o Papa.
Existe um preconceito generalizado em relação ao assunto “católico”. Um passado em que o Estado muitas vezes se confundia com a hierarquia da Igreja deixou marcas profundas. Julgo que parte do preconceito vem daí, apesar de o 25 de Abril ter sido há quase 50 anos.
O facto de a RTP ser um órgão de comunicação social público obriga ainda mais ao dever de isenção e à laicidade. O escrutínio do público e das instituições é permanente. Assim como não queremos ser chamados de porta-vozes do governo, também não queremos ser a voz da Igreja. E é assim mesmo que deve ser. Mas, nesta demanda pela isenção, às vezes peca-se por excesso.
Apresenta-se assim um desafio ainda maior para a Igreja ser notícia.
Reconheço que nos últimos anos houve um esforço da Igreja, nomeadamente na diocese de Lisboa, para melhorar a comunicação com imprensa.
Recordo-me de uma conferência de imprensa presidida por D. Manuel Clemente, na sede da Conferência Episcopal. Coincidiu com um momento em que a Igreja portuguesa decidiu travar a admissão de homossexuais nos seminários. Na mesma altura um padre da Madeira tinha assumido a paternidade de uma criança.
D. Manuel foi bombardeado com perguntas sobre os dois temas.
Foi confrangedora a falta de habilidade para responder aos jornalistas. Estava claramente mal preparado. Não tenho dúvidas que era a pessoa que mais sabia sobre os assuntos mas, efetivamente não estava preparado para o que aconteceu.
Ao contrário daquilo que foi tradição durante muitos anos na Igreja portuguesa, que em situações de crise ficava em silêncio à espera que a tempestade passasse, esta conferência de imprensa revela uma vontade de ser transparente e de enfrentar os assuntos difíceis perante a sociedade. Por outro lado, tornou-se evidente a necessidade de a Igreja trabalhar a comunicação. Ter um especialista que antecipe as reações dos média e as perguntas, que saiba como gerir as crises e aconselhe os porta-vozes.
O Opus Dei é um excelente exemplo. No meio do furacão d’O Código da Vinci, a Obra percebeu que era imperativo gerir os estragos e recuperar a imagem. Recrutou um especialista. A forma como Pedro Gil se relacionou com os jornalistas desde o primeiro momento fez toda a diferença para reabilitar o Opus Dei na imprensa. Sempre disponível, linguagem acessível, abre portas, responde com clareza.
Participei uma vez numa formação sobre jornalismo e Igreja no Seminário dos Olivais (Lisboa). Havia jornalistas de vários órgãos de comunicação diferentes, incluindo Ecclesia e Rádio Renascença. Falou-se do episódio com D. Manuel Clemente como exemplo do que não deve acontecer. No momento reservado para perguntas e respostas alguns padres e seminaristas manifestaram indignação por também a Renascença ter questionado D. Manuel. Consideraram um ataque à Igreja. Houve ainda quem defendesse que um jornalista católico deve alinhar com o discurso da Igreja, o que obviamente, não pode acontecer.
Há um esforço claro de aproximação aos média de alguns sectores da Igreja que perceberam a importância que têm para se recuperar a imagem e o respeito da sociedade. No entanto, enfrentam a resistência daqueles que consideram que qualquer notícia é uma ameaça, menos aquelas que reproduzem os discursos do papa ou dos bispos.
As encíclicas, o conteúdo por si só, não têm espaço na informação da RTP. Divulgar o conteúdo de uma encíclica é evangelização, não é notícia. No entanto, se o Papa ou o Vaticano produzirem documentos que falam de contraceção, aborto, sexualidade, casamento dos padres ou sacerdócio de mulheres já se admite uma referência nos jornais da estação.
E de que serve a um jornalista escrever textos cheios de conteúdo se mal começa a reportagem o telespectador faz zapping? O ideal é conjugar conteúdo com criatividade. A articulação dos dois pode reconquistar o público para assuntos menos polémicos e devolver à Igreja o respeito que merece. As reportagens de Joaquim Franco na SIC e agora na TVI são um exemplo extraordinário disso mesmo.
Não sei se Jorge Bergoglio alguma vez fez média training ou se é apenas intuitivo, mas a comunicação é um dom que ele tem. Linguagem simples e comum, transparente, acessível, verdadeira, credível, confiável. Fala olhos nos olhos, ou seja, coloca-se ao nível das pessoas a quem se dirige. Quando se começa no jornalismo repetem-nos constantemente: “Tens de escrever para a porteira. Se a porteira entende, todos vão entender.” O Papa fala para a porteira! Sempre. A comunicação da igreja poderia começar logo por aí. Falar simples. Descomplicar os discursos tantas vezes tão herméticos que até o próprio clero tem dificuldade em entendê-los.
Como pode a Igreja estar presente nos média de forma saudável e permanente?
O Papa Francisco tem a fórmula. Basta seguir-lhe o exemplo.
Lavinia Leal é sub-editora de Sociedade na RTP. Jornalista há 27 anos, interessa-se por temas sociais e religiosos.










