Diz-se que um professor, não importa a circunstância, não deixa nunca de o ser e ouvindo Austen Ivereigh a falar de patientia, senti-me imediatamente arrebatado pelo entusiasmo didáctico de introduzir verbos depoentes aos alunos de primeiro ano de Latim – entusiasmo raramente partilhado pelos alunos que normalmente os condenam à triste categoria pedagógica das complexidades inapreensíveis: conjugando-se passivamente apesar do seu significado activo, costumam ser alvo de uma tal embirração que não permite admirar o modo como estes verbos exercitam a humildade: eles não renunciam, mas sabem suspender a sua verdadeira natureza e, num derradeiro gesto de sabedoria gramatical, depõem-na, colocam-na sabiamente de lado.
E não pensemos que este grupo de verbos constitui uma curiosidade morfológica, uma minoria gramatical: dele faz farte patior – o verbo de que deriva a tal patientia referida pelo Austen – um verbo profundamente activo, no final de contas; uma virtude para agir, e não, como erradamente pensamos, uma capacidade para suportar contrariedades e incómodos. Talvez a verdadeira patientia seja, como o pontificado de Francisco nunca deixou de nos alertar, uma nova forma de investigar as coisas que consideramos sagradas sem nunca sermos capazes de as compreender ou provar completamente; um alegre reencontro, como se reencontrássemos pela primeira vez aquilo que tínhamos perdido. Um pouco à semelhança do modo como Abraão recebeu Isaac pela segunda vez enquanto dom, depois de o ter perdido enquanto projecto patriarcal. Talvez os verbos depoentes nos recordem uma nova forma de regressar a um Deus para lá daquele Deus que durante séculos pensámos possuir. Razão tinha Agostinho quando dizia que nada como “compreender a gramática da Sua Palavra para participar na Sua verdade”.
Costuma dizer-se que o pior inimigo de um tradutor é um idioma que recusa obedecer. E todos nós devemos ter disso uma boa experiência porque também o português é – e de que maneira! – um idioma rebelde e caprichoso: que atire a primeira pedra quem nunca passou pelo tormento de tentar explicar a um inglês, a um francês ou a um alemão a diferença entre ser doente e estar doente quando eles conhecem apenas to be, être ou sein; ou então explicar-lhes que quando escolhemos colocar o adjectivo antes do nome é a própria natureza do substantivo que se altera.
Tornar seu um texto que outro escreveu

Não é minha intenção maçar-vos com as minhas angústias de tradutor, mas gostava de dizer-vos que, enquanto traduzia este texto [Em Primeiro Lugar Pertencer a Deus, de Austen Ivereigh, uns Exercícios Espirituais de oito dias a partir do pensamento do Papa Francisco], dei por mim a pensar sobre o quão espiritual é a experiência de leitura. Com efeito, o que é a leitura senão um exercício de tradução interior? Na verdade, um leitor torna seu um texto que outro escreveu, amplia-o com a imaginação, torna-o outra coisa, torna-o seu. De uma forma ou de outra, a leitura tem a ver com aquilo que cada um deseja da vida, uma vez que, abrindo espaços interiores, permite que cada um entre numa relação íntima com a sua existência concreta, com as suas tensões essenciais, com os seus desejos e significados.
Para lá de todas as inúmeras virtudes deste texto, creio que é extraordinariamente tocante que este convite para um retiro de oito dias se cruze tão amiúde com os desafios da leitura – seja dos textos bíblicos que nos vão sendo propostos e também os do magistério, seja da leitura e interpretação do nosso próprio percurso individual: aceitando o convite de narrarmos a nossa vida, percebemos que é a nossa história – boa ou má – a grande chave para interpretar o sentido de uma Presença e o da própria Vida.
Basta um breve olhar sobre a genealogia de Jesus que nos é proposta no dia 4 ou pelas parábolas da misericórdia no dia 2 para perceber que as pessoas que levam Deus a sério, ou que são por Ele chamadas, nem sempre são as que, à partida, diríamos “adequadas”: mas antes aquelas que se colocam na condição de experimentarem os limites da sua própria vida, por apenas na consciência de criaturas – aquilo que Austen chama pertença – ser possível ver as coisas na sua verdade. Aqueles que acreditam serem Deus dificilmente descobrem a verdade da sua humanidade.
Temos uma certa tendência para olhar para um retiro espiritual como um apelo à ‘correcção’ e não, como me parece mais certo, um permanente desafio à ‘integração’, pois talvez mais do que endireitar o que está torto, nos seja pedido que aí encontremos um novo significado. Apenas desse modo o que está torto deixará de produzir morte e passará a produzir luz e santificação.
Todo aquele que desejar abraçar o seu chamamento terá de abraçar a realidade da sua vida, e não simplesmente as expectativas que alimenta na sua cabeça. Trata-se de assumir a realidade na sua totalidade e não apenas as partes que mais lhe agradam. A atitude mais verdadeira na vida espiritual é confiar. E a fé vai-nos ensinando que esse acto de confiança é para com Alguém, e não um acto vazio. A pergunta com que as leituras destes oito dias nos desafiam – e que cada um se deve colocar – é se demos esse passo; se percebemos que a nossa primeira, verdadeira e grande vocação é pertencer.
Habituámo-nos à ideia de os livros servirem para serem lidos, mas o verdadeiro valor de um livro reside em algo que subverte essa lógica. De facto, grandes livros são os que têm o poder de nos ler, providenciando-nos uma chave para decifrar a vida, aquela vida – a nossa – que de outro modo, não fosse o auxílio daquelas palavras precisas, colocadas cirurgicamente ali para revelarem o seu segredo, permaneceria misteriosa. Apenas assim poderemos colocar a nossa própria voz ao serviço daquilo que Francisco chamava a «polifonia da Revelação».
Em Primeiro Lugar Pertencer a Deus
Autor: Austen Ivereigh
Tradução: Paulo Ramos
Paulinas, 2024; 240 páginas; 18 euros
Paulo Ramos é professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e tradutor.










