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© agência Ecclesia PR Padre António Martins

António Martins, Capelão da Capela do Rato

Um padre à procura de inspiração no Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura

| 13/02/2025

A poucas horas de apanhar o avião com destino a Roma, o padre António Martins, capelão da Capela do Rato, não esconde o entusiasmo. Depois de a comunidade ter recebido do Dicastério para a Cultura e a Educação “um surpreendente convite” para participar no Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura – que se inicia este sábado, 15 de fevereiro, no Vaticano, e decorre até terça-feira – o presbítero prepara-se agora para representá-la, entre mais de 10 mil participantes de todo o mundo. Numa curta conversa com o 7MARGENS, falou das expetativas que tem para este grande encontro, partilhou as ideias-chave daquela que será a sua intervenção e revelou que vai em busca de uma inspiração particular.

 

7MARGENS – Como surgiu a oportunidade de participar neste Jubileu dos Artistas e do Mundo da Cultura?

PADRE ANTÓNIO MARTINS – Surgiu de uma agradável surpresa! De forma inesperada, recebemos na Comunidade do Rato um convite dos Serviços do Vaticano para participar neste Jubileu. Partilhei com a comunidade a surpresa e devo dizer que todos ficámos agradados, e ao mesmo tempo agradecidos. Sentimos que é um reconhecimento de todo o trabalho que se fez na Capela do Rato com a presença do cardeal Tolentino, e que agora continua comigo e com um conjunto de pessoas profundamente comprometidas com o diálogo entre fé, cultura, arte e beleza, na leitura dos sinais dos tempos. Essa é uma dinâmica que tem estado muito viva na Capela do Rato.

 

7M – Quais as expetativas que leva? Há algum momento do programa pelo qual anseie particularmente?

Em primeiro lugar, sabemos que o Papa está ainda a recuperar de uma bronquite, pelo que espero que ele esteja bem e possa participar em todos os momentos nos quais a sua presença está prevista! Relativamente ao programa, que foi dado a conhecer esta quarta-feira, há dois momentos para os quais tenho grandes expetativas. Um deles é a vigília de domingo à noite, na Basílica de São Pedro, após atravessarmos a Porta Santa, na qual creio que haverá alguma surpresa para os artistas, um momento de contemplação, de música, de projeção, iluminação… não sei, isto sou eu a imaginar! O outro é a visita do Papa a Cineccità, que é a “Hollywood de Roma”. É a primeira vez que um Papa visita os estúdios e será aí o grande encontro com os artistas, onde certamente fará um belíssimo discurso.

 

7M – Na segunda-feira, também haverá outro momento importante, que o envolve a si diretamente…

Sim, na tarde de segunda-feira haverá o encontro de todos os centros culturais convidados a participar pelo Dicastério para a Cultura e a Educação, com uma intervenção do cardeal Tolentino e também com uma pequena intervenção de três minutos da parte de cada centro. O objetivo é cada um partilhar o que faz e dar sugestões ao dicastério para melhor cumprir a sua missão.

 

7M – Já preparou essa intervenção? Pode revelar quais serão as ideias principais?

Falarei sobre aqueles que são os grandes desafios para os centros culturais, como as questões da inteligência artificial, da segurança nacional e internacional, da inclusão dos estrangeiros, das identidades, da pobreza… E de como a Igreja tem de acolher, na leitura dos sinais dos tempos, vozes exteriores ao seu próprio meio. E aqui os artistas, com a sua sensibilidade estética, por vezes provocatória, por vezes inquietante, por vezes até profundamente chocante, podem narrar a beleza e o horror do nosso tempo. E isso ajuda a aprofundar a compreensão da nossa condição humana e também a descobrir que resposta, que testemunho, que profecia as comunidades cristãs podem dar. Não há dúvida de que a voz dos artistas é importante no discernimento dos sinais dos tempos e da complexidade do tempo em que vivemos. Abordarei também a necessidade permanente do diálogo com o judaísmo em tempos de antissemitismo crescente, e com correntes do islão moderado em tempos de crescente violência ligada a grupos terroristas muçulmanos. Há aqui caminhos que devemos arriscar trilhar, com prudência, porque são assuntos da ordem do dia, da política, da segurança, da identidade e também da cultura.

Cartaz do Curso de Filosofia, Literatura e Espiritualidade, promovido pela Comunidade da Capela do Rato, que vai já na sua décima edição.

 

7M – A Comunidade da Capela do Rato já tem trilhado alguns desses caminhos… O que destaca daquilo que fizeram até agora?

Temos feito, em cada ano, um Curso de Filosofia, Literatura e Espiritualidade. Este ano é já o décimo em que, num conjunto de doze sessões, um teólogo ou uma filósofa ou gente ligada à literatura apresentam obras clássicas ou contemporâneas de cada uma dessas áreas. Este ano, o tema é a Amizade: a Amizade vista na Filosofia, na Literatura e na tradição espiritual cristã. O padre Alexandre Palma já apresentou uma obra do cardeal Tolentino, a professora Luísa Ribeiro Ferreira apresentou uma obra de Hannah Arendt, eu vou apresentar a Amizade Espiritual, de um monge cisterciense medieval, Elredo de Rievaulx, e por aí fora… O número de participantes nestes cursos tem vindo a crescer, e este ano contamos com quase 800, presencialmente e online. É um recorde! E desconfio que o Santo Padre se inspirou nesta nossa prática de há dez anos para escrever, no ano passado, a carta sobre a importância da literatura na vida espiritual e na educação. [Risos] Estou a brincar… mas a verdade é que nos sentimos confirmados pelo próprio magistério do Papa. É uma prática que fazemos há dez anos, e com sucesso.

Também tivemos no último ano um conjunto de quatro encontros sobre os desafios éticos, antropológicos, jurídicos e de segurança internacional lançados pela Inteligência Artificial, numa parceria com a Associação de Juristas Católicos, tendo por base a mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz do ano passado, precisamente dedicada a essas questões.

 

7M – E que sonhos tem ainda para concretizar no âmbito desta missão de estabelecer o diálogo entre a fé e a cultura?

Acho que está aqui um vazio por preencher, que para já é mais como uma inquietação, que é o de criar algo que seja entre nós um traço de Jubileu dos artistas e de gente ligada à cultura. E aí a Capela do Rato é o lugar próprio para que aconteça e tem a capacidade para fazer acontecer. Oxalá possa receber alguma inspiração em Roma, no contacto com tantos artistas e com outros centros. Para já, partilho a ideia, e fica em germinação!

 

(Imagem de destaque: Padre António Martins, capelão da Capela do Rato, em Lisboa. © Agência Ecclesia/PR)

 

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