Proferida desde a varanda da Basílica de S. Pedro, em Roma, a homilia, porque de uma verdadeira homilia se tratou e não de um mero discurso, constitui um verdadeiro e exigente programa para o Papa que Deus deu à Igreja Católica, a todos os baptizados e ao Mundo.
Costumamos dizer que uma coisa são as palavras e outra são, posteriormente, as práticas. Contudo, não costuma ser assim na Igreja e não vai ser.
Os desafios que se colocam à Igreja, depois de um Papa que a abriu ao Mundo, João Paulo II, ao qual sucedeu quem tentou repor a teologia no centro da vida cristã, Bento XVI e do Papa Francisco que desceu à terra, tornou a Igreja mais humilde e lavou as culpas e os pecados internos e ignorou alguns dos pecados do Mundo, acolhendo “Todos, Todos, Todos,” eis que temos um Papa a voltar à origens, sem postergar os ensinamentos e as linhas de orientação do seu antecessor.
O seu lema de Bispo “In Illo Uno Unum”, que traduzido significa basicamente “sendo muitos os cristãos, em Cristo Único, Somos Um” diz tudo sobre as palavras que proferiu, reafirmando a sua missão como Papa da Igreja Católica, Bispo de Roma e Chefe de Estado do Vaticano.
O número de vezes que repetiu a palavra “Paz” diz ao que vem, quer em relação ao Mundo quer à Igreja. Pretenderá ser um conciliador criador de pontes, como também referiu e pediu a todos os cristãos, sarando feridas e buscando o fim das guerras que dilaceram o mundo em vários continentes e de um modo especial a que se verifica na Europa, entre a Rússia e a Ucrânia, sobre a qual, em tempos, se pronunciou e disse o que pensa. E ao pedir para o Mundo e para todos os povos “uma paz desarmada e desarmante”, certamente quer que os cristãos contribuam não para o armamento mas, pelo contrário, pela palavra e pelo exemplo que levem o mundo e os seus dirigentes a ficarem desarmados mesmo em termos de argumentos de fundamentos para fazerem a guerra.
O seu apelo à prática da “Caridade,” ao exercício do “Amor”, porque “Deus ama-nos a todos” e “Cristo precede-nos e o Mundo precisa da sua luz”, faz-nos voltar ao mandamento maior de Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei; amai os vossos inimigos e todos os que vos perseguem.” Na mesma linha vai a declaração que fez, anteriormente, em relação a firmações do católico J. D. Vance, vice-presidente dos USA, de que “Jesus não nos pede que façamos hierarquias no nosso amor pelos outros”.
Por outro lado, pastor que foi e conhece o “cheiro das suas ovelhas”, fala numa “Igreja unida” e que procura “trabalhar como homens e mulheres fiéis a Jesus Cristo” para “sermos missionários.” Certamente, como “missionário” que foi pretenderá realçar esse aspecto na actividade da Igreja e na prática dos cristãos, no seu dia-a-dia e em todas as grandes realizações que venham a ser levadas a cabo, ao contrário do declarado por alguns, como foi dito a propósito das JMJ, que não se destinavam a fazer proselitismo ou evangelização, contrariando a mensagem de Cristo: “Ide por todo o Mundo …”

“O ter escolhido o nome de Leão XIV faz-nos recordar o grande Papa Leão XIII, o corajoso iniciador da Doutrina Social da Igreja, em tempos também atribulados no Mundo por força da industrialização e a sua atenção e leitura que fez dos problemas sociais, que ela originou.” Foto: Direitos reservados.
Invocou a sua condição de “filho de Santo Agostinho” e como tal citou-o dizendo “Como vós sou cristão e para vós bispo.” Parece que, nesta parte e pela forma como se apresentou vestido, envergando vestes que Francisco deixara de usar desde o primeiro dia, retomando alguma pompa e mostrando um ar sério, a que as vestes e todos os ornamentos dão peso e conferem uma substancial e apreciada gravidade, não deixará de ser um “Chefe”, um dirigente. Dizemos que o “hábito não faz o monge”, mas logo acrescentamos: “mas ajuda”. De tanta humildade que exibiu Francisco acabou por se sentir desrespeitado em algumas circunstâncias, quer dentro quer, principalmente, fora da Igreja, por parte de alguns dirigentes políticos mundiais, ao não ser ouvido. O Papa Leão XIV quer ouvir, escutar, como referiu, mas também ser escutado e ouvido sobre aquilo que ele entender pronunciar-se para bem da Igreja e da Humanidade.
O ter escolhido o nome de Leão XIV faz-nos recordar o grande Papa Leão XIII, o corajoso iniciador da Doutrina Social da Igreja, em tempos também atribulados no Mundo por força da industrialização e a sua atenção e leitura que fez dos problemas sociais, que ela originou. O Papa, como teólogo e conhecedor profundo dos problemas de que a Humanidade sofre, vai, com certeza, reforçar a doutrina social da Igreja com novas leituras da realidade e actualizando-a, para encontrarmos soluções para as questões que o Mundo enfrenta em diversas áreas, desde a economia aos aspectos sociais e culturais e mudança de paradigmas em muitos outros sectores em profunda transformação, como a “inteligência artificial.”.
Estas transformações que também se manifestam na Igreja farão com que ele pretenda continuar com as mudanças no seio da Igreja, dando espaço aos leigos e religiosos mesmo contra a vontade dos mais conservadores, tornando-a mais eclesial, mais plural, aberta e dinâmica. Contudo, sem deixar de corrigir alguns excessos que se vêm verificando em termos de disciplina, por vezes contra alguma regras do Catecismo e do Direito Canónico. Haverá resistência de alguns sectores, mas a Unidade da Igreja estará certamente muito presente nas suas propostas e decisões para evitar a ameaça de cisma que tem estado latente em algumas regiões do globo.
Resumindo, este será com toda a certeza um Papa de que a Igreja e o Mundo precisam nesta época conturbada em que vivemos, com uma mensagem de Unidade, de Esperança, de Paz e Amor entre todos, de que tanto estamos carecidos.
António Caseiro Marques é advogado e dirigente da Acção Católica Rural.










