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Um programa para as universidades sénior: encher o «empty role»

| 25/09/2024

Universidade Sénior, Centro Comunitário da Paróquia de Carcavelos

 

Estudo recente parece concluir que os mais velhos tendem a olhar com alguma condescendência para os jovens profissionais com que contracenam diariamente[1]. Digo de propósito: contracenam. Por uma razão prosaicamente sociológica.

No teatro das interacções sociais, os sociólogos costumam distinguir estatuto, papel e desempenho de papel, entre outras especificações conceptuais que o tempo e o uso foram descarnando até os converter em lugar de atrito ideológico, como é o caso da pervertida distinção entre “atribuído” e “adquirido”, que origina combates cultuais (digo bem!) sem paralelo na esfera da militância sexual. Não tanto, creio, quando a questão é a idade.

Todos aceitamos que as menções estatutárias que declinam o passar do tempo correspondem a uma “atribuição” rigorosamente impessoal, indiferente à esfera da cultura e inscrita na cronologia. Podemos fazer variar as nossas expectativas relativamente ao que chamamos “jovem”, “criança” ou “idoso”, e reconhecer diferenças de monta no tratamento reservado às diferentes idades da vida em diferentes culturas, mas dificilmente chamaremos criança – a não ser para qualificar circunstancialmente um comportamento  –  à senhora que acaba de exibir o seu cartão de pensionista, ao mesmo tempo que deita a língua de fora ao motorista do 38, para depois gritar a plenos pulmões  aquele  poema do 0’Neill, todo movimento: O homem que pedala, que ped’alma/com o passado a tiracolo,/ao ar vivaz abre as narinas:/ tem o por vir na pedaleira.

Papel e desempenho de papel, quais serão, então, os que correspondem à condição de “maior”, como dizem – com ternura e respeito?  – os espanhóis, ou de sénior, cá deste lado, visto que adulto ou velho não corresponderão jamais à auto-descrição contemporânea de um português que se preze. O primeiro termo, por manifesta incompatibilidade com o ar do tempo, que penaliza severamente a responsabilidade, o carácter, a cortesia e o conhecimento. O segundo, dizem os especialistas em literatura de auto-ajuda e psicologia positiva, por desnecessariamente derrogatório, capaz de infligir ferida simbólica que não mais se fechará.

Voltando ao princípio: os nomes vão-se sucedendo ao ritmo das modas – para onde foi a «idade de ouro», com a publicidade de viagens modelo Club Med, de seguros VIP, de caminhadas em trilhos de montanha e outras coisas de comprar na 2ª meninice, só festinhas e passeios? –, mas, apesar da dramática extensão da esperança média de vida, as vidas declinam e cessam.

Ciente disso, há por aí gente com mais de 50 anos que se junta, para falar e fazer, nuns estabelecimentos de educação não formal onde todos, ou quase, oferecem tempo e trabalho para satisfação e crescimento de todos. Popularmente chamados universidades sénior (poderiam chamar-se universidades populares, com Blasco Ibañez em Valência, ou padarias do povo, com Bento de Jesus Caraça, em Campo de Ourique, não fora a cláusula etária e a dimensão intelectual dos protagonistas originais), ainda há dias lhes chamávamos «da 3ª idade».

Como diz o sociólogo que resolveu pensar a condição de reformado segundo a teoria dos ritos de passagem, as sociedades contemporâneas organizam e classificam as idades sociais pelo cruzamento da idade cronológica com a situação perante o trabalho: «jovens em formação, adultos inseridos na vida economicamente activa, adultos reformados, grandes anciãos»[2].

Diríamos que as universidades sénior se dirigem às duas última categorias, sem prejuízo da ressalva atrás – acesso: 50 anos ou +  – que suscitaria, a concretizar-se em número significativo, o envolvimento de outras classes de idade e das mais diversas condições sócio-profissionais nas actividades associativas que visando, em princípio, a projecção da vida de trabalho em processos de aprendizagem inscritos num conceito amplo de aprendizagem ao longo da vida, reservaria agora uma posição central ao cuidado com o outro, tal como o entende, por exemplo, Martha Nussbaum, no quadro da sua teoria das capacidades (capabilities; há quem traduza, mas não sigo, por capabilidades).

Acontece, porém, que o papel do reformado já foi chamado, com inteira razão, um «papel vazio» (empty role)[3], um papel que lhe cabe preencher sem uma directriz precisa, e isso tanto mais quanto a sua representação no discurso oficial faz dele um consumidor passivo de serviços proporcionados pelo Estado:

«O reformado nunca é representado como participante num grupo, membro activo de uma associação, mas antes como consumidor de instituições. (…) A sua relação com o todo social assume a forma de direitos; de deveres nunca se fala.»[4]

Sobretudo num Estado-Providência frágil como o português, o reformado e o velho são representados como o senhor ou a senhora (sempre tratado/a somente pelo nome próprio, frequentemente antecedido de ‘jovem’, ‘menina’ ou ‘meu/minha querido/a’, etc.) que compra alfaces cada vez mais caras, que espera de madrugada à porta do centro de saúde, que foi vítima de burla, que vai receber um aumento adiantado da pensão, que não vai ter aumento de pensão, etc., etc.. Na melhor das hipóteses, é membro do MURPI, e desce a Av. da Liberdade em Abril, ou do APRE, e pertence ao grupo dos técnicos superiores do Estado que mais facilmente são cooptados pelas televisões.

Nunca os vemos como membros activos e activamente presentes na sociedade. Engano-me: sim, eles correm na Marginal a dias certos, pela sua saúde. Mas, tirando isso, mais uma vez a televisão, essa fonte inesgotável de estereótipos preguiçosos[5] (têm tantos anos como a própria televisão, e nem importa que a liberalização tenha trazido a concorrência, visto que é tudo demasiadamente igual!), mostra que o que os entretém, aos velhos, é o dominó à sombra, a sua maior preocupação só pode ser a pensãozinha e o seu contacto com o mundo da cultura faz-se no’ Preço Certo’.

Retratos de pobreza, esterilidade intelectual (dos que exibem e promovem) e débil realização da democracia política, sem dúvida. Mas igualmente espelho da condescendência das ‘elites’ que pouco mais vêem nos concidadãos (a que chamam invariavelmente ‘a população’, ‘os populares’ e, mais recentemente – grande novidade! –, ‘as pessoas’) do que clientes eleitorais em potência e, nos mais velhos dentre eles, crianças incontinentes.

Talvez que o caminho para mudar este estado de coisas passe por modificar progressivamente a condição de cliente de informação sobre direitos, pensão, saúde e testamento vital, para uma reflexão colectiva sobre a vida, a arte e a sociedade, formas de prestação de serviços, como o voluntariado, participação política e cooperação em contextos de vizinhança, etc. É neste sentido que interpreto a indissociabilidade de direitos e deveres sugerida por Christian D’ Épinay, única forma de impedir a degradação estatutária dos ‘maiores’ (gosto da palavra) e de lhes devolver um lugar na sociedade dos vivos.

Creio, do pouco que observei até agora, que as universidades sénior serão tanto mais isto tudo quanto se configurarem também como lugares impermeáveis à condescendência das ‘pessoas-só-bondosas’ e abertos à circulação de saberes, tácita ou explicitamente postos em circulação nos espaços das próprias universidades, sobre a natureza dos processos de envelhecimento (nos planos orgânico, social, cultural, político…) e as dinâmicas de prevenção do declínio cognitivo e volitivo. Esse é o meta-conhecimento que deve enformar todo o currículo de tão singulares estabelecimentos, capacitando, de caminho, os voluntários envolvidos.

 

[1] Lemos na nota de apresentação do estudo da FFMS Compreender o Idadismo no Local de Trabalho, coordenado por David Patient: «São, sobretudo, os jovens, entre os 18 e os 35 anos, que se dizem mais discriminados – desde o recrutamento, à promoção e ao despedimento. A esta faixa etária é frequentemente apontada a de falta de empenho, a falta de ética de trabalho e arrogância e, sabe-se agora, que estes estereótipos são mais suscetíveis de serem partilhados por trabalhadores de meia-idade e, sobretudo, mais velhos.» (sic) Extraído de: https://ffms.pt/pt-pt/estudos/estudos/compreender-o-idadismo-no-local-de-trabalho .
[2] D’Épinay, C.L., La retraite, voyage vers Cythère ou rejet dans les limbes, in Chauvin, D. dir. (1996) L’imaginaire des âges de la vie, p. 283, ELLUG, 1996.
[3] I. Rosow, citado por D’ Épinay, p. 295.
[4] D’ Épinay, pp. 289-90.
[5] Estereótipos preguiçosos é mesmo redundante. Não o são todos?

 

João Santos é professor.

 

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