Leão XIV é um nome que contém em si uma missão. Foi esta a escolha do Cardeal Robert Prevost, cuja inscrição do brasão episcopal diz In illo uno unum— “No Único, um só.”— Por mais alusões que possamos fazer à vida e escolha do nome como indicação daquilo que está no coração e mente do Papa Leão XIV, este somos “um só” foi o que se destacou aos meus olhos.
Entre conservadores e progressistas, entre muitos outros binómios que se sobressaem pelo mundo de hoje, a polarização social, política e na vida das nossas comunidades, assemelha-se a um jogo de forças centrípetas e centrífugas que nos mantêm num círculo vicioso a repetir erros do passado. A unidade que conserva o progresso é aquela na qual, como disse Leão XIV nas primeiras palavras que dirigiu à Igreja:
“Devemos procurar juntos como ser uma Igreja missionária, uma Igreja que constrói pontes, o diálogo, sempre aberta a receber, como esta praça com os braços abertos, a todos, todos aqueles que precisam da nossa caridade, da nossa presença, do diálogo, do amor.”
A construção de pontes e de um diálogo que nos leve à experiência da unidade na diversidade, pareceu-me um eco daquele “Único” Cristo que nos leva a sermos “um só”, não a sermos o mesmo. Daí o valor da diversidade de experiências de vida e sensibilidades que caracteriza em parte o caminho sinodal que a Igreja faz em si e no relacionamento com o mundo contemporâneo.
O mundo precisa “da nossa presença, do diálogo, do amor”, e não posso esconder a comoção quando senti o impacte inicial da “Paz esteja convosco” que apontava para a centralidade das palavras de Leão XIV de que essa paz — “Vem de Deus, Deus que nos ama a todos incondicionalmente.” — Pois, “Deus ama-vos a todos.” — Um amor de Deus que está na base das 10 vezes que o Papa repete a palavra Paz. Pois, só a Paz assegura as condições para que a Humanidade possa fazer a experiência de unidade na diversidade e proclamar ao mundo, com a vida, de que somos um só.
Leão XIV é um nome que evoca a coragem doutrinal de Leão Magno e a visão social de Leão XIII. Não é apenas um tributo histórico, mas uma profissão de fé na força reconciliadora de Cristo, o Leão da tribo de Judá. Quando o Papa Leão XIV se apresentou ao mundo dizendo “a paz esteja convosco”, não o fez como um soberano distante, mas como pastor agostiniano que quer o mundo inteiro sincronizado ao ritmo do coração de Cristo no qual apesar das nossas diferenças, somos um só. É nesse espírito que o seu lema “In illo uno unum” – “no Único, um só” – ganha densidade profética: Leão XIV vê no Ressuscitado não apenas o centro da fé, mas a fonte da verdadeira unidade, que desarma e congrega, que consola e envia. O nome que escolhe e as palavras que pronuncia não são acessórios do poder, mas expressões coerentes de uma missão que une firmeza e humildade, tradição e futuro. Com ele, a Igreja acompanha o mundo contemporâneo novamente como aquela praça de Roma onde pronunciou as primeiras palavras: de braços abertos. Abraçar o mundo é o sinal visível de uma unidade que se constrói com o diálogo, com o amor fraterno entre cada pessoa, e com a coragem de quem caminha “em Cristo, para sermos um só”.
No perfil do cardeal Prevost recolhido pela iniciativa de jornalistas católicos The College of Cardinals Report encontra-se também a tentativa de alguns meios de comunicação de atribuir manchas ao seu perfil relacionadas com o modo como lidou com casos de abuso sexual de menores nos EUA e no Perú. Seriam como a “pedra no sapato” do novo Papa. Porém, a verdade é que ele fez tudo aquilo que o protocolo na altura dizia que devia ser feito. Sobretudo no que diz respeito à escuta e acompanhamento das vítimas. Por isso, como Papa, outra coisa não seria de esperar senão melhorar qualquer procedimento que esconda a verdade em relação a todos os temas sérios que exigem a maior transparência e o maior amor, para que, unidos ao sofrimento dos “mais pequenos”, unimo-nos ao Único neles presente. Só unidos pela transparência do erro reconhecido, e assumido, podemos crescer em maturidade no testemunho de sermos um só.
O Papa Francisco terminou as suas primeiras palavras quando foi eleito pedindo que rezássemos por ele. Leão XIV terminou convidando a voltarmos o nosso olhar para Maria. Toda a mãe deseja que os seus filhos sejam um só, como família que são, incluindo todos, independentemente das diferenças sociais, ou geográficas, mas incluindo também tudo. Todos e tudo, por sermos uma só família da criação. Começou o tempo de estarmos atentos ao que Deus nos quer dizer com esta escolha de Leão XIV.
Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao
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