A morte do Papa Francisco significa uma perda irreparável em todos os aspetos. Mas um dos mais importantes é o das relações internacionais, porque não se vê quem o possa substituir com a mesma clareza e a mesma força.
Já a eleição do arcebispo Jorge Bergoglio havia constituído, em 2013, uma novidade absoluta e um sinal dos novos tempos. Primeiro Papa latino-americano, nunca esqueceu essa perspetiva – sem a qual não se compreende as suas posições, designadamente a propósito do conflito russo-ucraniano e da guerra iniciada, em 2022, por Moscovo contra Kiev. O seu lema “todos, todos, todos” tem também uma leitura internacional: ele quis ser o líder de uma Igreja que se reformava por dentro tendo em conta que, por fora, a sua geografia se estava movendo, da Europa para os continentes africano, asiático e americano, do Norte para o Sul. E o mesmo se diga da denúncia crítica, em múltiplos momentos e dimensões absolutamente radical (no bom sentido da palavra, indo ao fundo dos problemas) da globalização e da financeirização do sistema económico mundial.
Nesta hora, e pensando apenas em termos de relações internacionais, gostaria de destacar três pontos fundamentais do seu legado.
O primeiro é a interpelação dos países ricos, das regiões da abundância (Europa, América do Norte) a partir da perspetiva dos pobres, dos migrantes, dos refugiados. A sua voz sempre foi incómoda, deliberadamente incómoda, para todos quantos pretendem fingir que as migrações não existem, ou se esquecem de colocar na equação as pessoas concretas dos migrantes e a sua dignidade. Francisco nunca hesitou em contrapor, a quaisquer medidas de “fortalecer” a Europa “contra” os migrantes, a lição evangélica do acolhimento.
O segundo ponto diz respeito ao conflito israelo-palestiniano. O Papa não poupou nas palavras, na condenação da desproporcionalidade da resposta israelita ao massacre perpetrado pelo Hamas e na denúncia das sistemáticas violações do direito internacional cometidas pelas autoridades de Telavive, seja na Cisjordânia, seja na Faixa de Gaza.
E o terceiro ponto, aliás de elevada densidade doutrinária, está na crítica da economia convencional e na defesa intransigente de uma combinação renovada entre a economia e o desenvolvimento. Numa época tão tristemente dominada pela leitura degradante da economia como arte de especular e enriquecer, foi sempre um bálsamo ler as sucessivas reflexões de Francisco sobre a economia de que precisamos, aquela ciência que nos ajuda a aproveitar bem os recursos disponíveis para satisfazer as necessidades de todos.
Teremos muitas saudades de Francisco.










