
Santo António é o protagonista desta exposição, patente no Museu de Lisboa, até ao final do mês de dezembro. Foto © José Avelar/Museu de Lisboa
A primeira surpresa desta exposição de excelência surge no próprio título, em latim, Vita Prima. Esta expressão recorda a primeira biografia escrita, em 1232, por um frade anónimo, destinada ao processo de canonização: Vita Prima, Santo António em Portugal. Dizer “em Portugal” elimina, de imediato, a perturbadora controvérsia entre Lisboa e Pádua, na Itália. Se conhecêssemos as normas do Vaticano sobre a atribuição da nacionalidade aos candidatos à canonização, logo entenderíamos que a Santa Sé não reconhece o local de nascimento do fiel, mas o da sua morte, como porta de entrada para a eternidade. Mesmo que pese a uma fé nacionalista! Defende-se a teologia católica com a definição de fé escatológica! A morte é assim o maior momento que permite o ingresso imediato na vida eterna, morada definitiva dos fiéis, em Cristo.
Teologia à parte, António é o herói desta exposição, patente no Museu de Lisboa, até ao final deste mês de dezembro. O patrono invocado veio ao mundo, em carne e osso, na rua das Pedras Negras, na capital do Reino de Portugal. Os biógrafos apontam para os finais do século XII, entre 1191 e 1195, o nascimento desta criança a quem foi posto o nome de Fernando de Bulhões y Taveira d’Azevedo. De família nobre e rica, a sua formação inicial foi feita pelos cónegos da Catedral de Lisboa, a breves passos da sua residência. Outros cónegos, os regrantes de Santo Agostinho, e os franciscanos, estes da ordem mendicante dos Frades Menores, propiciaram-lhe uma educação religiosa e cultural que haveria de alterar, definitivamente, os passos da vida como teólogo e pregador insigne. Morreria, aos 36 anos, em Pádua, a 13 de Junho de 1231. Em menos de um ano seria canonizado pelo Papa Gregório IX, tendo sido esta uma das mais céleres canonizações da história da Igreja Católica.
Teólogo de profundidades ou Santo rapioqueiro?

Da sua actividade pastoral sapiente sobrevivem 77 sermões, sendo o mais célebre de todos é o Sermão aos Peixes. Foto © José Avelar/Museu de Lisboa
E para que não se repita o tom popularucho com que foi e é tratado no nosso país, como autor de milagres ridículos, fruto de um catolicismo infantil, que parece arrastar-se, ainda. Respeite-se a sua memória, como fazem os seus devotos de Pádua, tratando-o por il Santo.
Da sua actividade pastoral sapiente sobrevivem 77 sermões, sendo o mais célebre de todos o Sermão aos Peixes. Não esquecem os seus verdadeiros devotos a sua ascética e mística, bem como a seriedade do seu pensamento teológico, experimentado nas diatribes entre católicos fiéis a Roma e os heréticos albigenses, no sul de França.
Perante tal êxito histórico e para exaltação, ao tempo, das relações diplomáticas com a Santa Sé, o Papa Pio XII declarou-o, em 1946, como “doutor da Igreja universal”, com o título de Doctor Evangelicus. Santo António é, ao mesmo tempo, com São Vicente, padroeiro da cidade de Lisboa.
Uma exposição luminosa

A mostra é abundante em iconografia e escritos, formatados numa estética verdadeiramente apelativa.. Foto © José Avelar/Museu de Lisboa
Penetremos na exposição da vida primeira de António, o jovem, inquieto e decidido, de consciência limpa e sensível aos ideais da cultura e da espiritualidade do tempo. Foi essa personalidade religiosa que os “inventores” desta mostra, abundante em iconografia e escritos, formataram numa estética verdadeiramente, apelativa.
Estaria no projecto uma oportunidade para “vender” o santo nacional aos milhares de peregrinos da JMJ de Lisboa, que viria a concretizar-se como um êxito absoluto.
Quando olhamos a Vita Prima e o notável catálogo que a acompanha, com uma belíssima impressão, apercebemo-nos da extensa lista de investigadores que, ao longo dos séculos, trouxe à liça a vida e obra do frade português, filho espiritual de Francisco de Assis, que conheceu em vida, e com quem ousou mudar o mundo cinzento de uma Igreja pouco sadia. Não terá sido por acaso que Jorge Bergoglio tomou o nome e projecto do Poverello de Assis…
Um padroeiro transbordante de ternura

São mais de uma centena as obras expostas, vindas, sobretudo, de património privado. Foto © José Avelar/Museu de Lisboa
São mais de uma centena as obras expostas, vindas, sobretudo, de património privado. Um amplo percurso pelos lugares e passos dados pelo santo popular; os templos em que é venerado até à exaustão; as pinturas com que o retratam ao pormenor; um frade de criança ao colo… hoje, pouco recomendado…
Dos nomes que puseram de pé esta audaciosa exposição, cito alguns que se distinguem pelas análises críticas históricas, sobre a Igreja Católica que está em Portugal, como Pedro Teotónio Pereira, coordenador da exposição, Paulo Almeida Fernandes, do Museu de Lisboa, comissário, com Sandra Costa Saldanha, do Secretariado dos Bens Culturais da Igreja, recentemente substituída.
Remeto ainda para os investigadores que, mais na sombra, emprestam a credibilidade necessária ao evento. Eles percorrem os caminhos da pintura, da história e da espiritualidade. São eles, entre outros: Leonor Padinha Ribeiro e Carlos Cabral Monteiro, Maria de Lourdes Sirgado Ganho, Maria Filomena Andrade, Milton Pedro Dias Pacheco, João Luís Inglês Fontes, Nuno Saldanha, Maria Amélia Álvaro de Campos, Maria Adelina Amorim, Rita Fragoso de Almeida, João Luís Cardoso e Isabel Dâmaso.
“Ou não fosse António, provavelmente, o lisboeta mais famoso do mundo.”, como escreve, no catálogo, Joana Sousa Monteiro, directora do Museu de Lisboa.









