Naquele tempo, em Vila De Pedras, era comum as mulheres morrerem no ato de parir. Hospital, não havia. Só o Lar da Maternidade – anexo contíguo à casa da parteira Dona Alma, bem intencionalmente construído sob a finalidade de progresso local -, onde as mães davam à luz perante o desadornado auxílio de uma parteira sem instrução esculapiana.
A Clara das Neves era filha de uma estrela com um floco de neve e havia caído da nuvem-berço numa noite de tempestade. As tempestades são os terramotos do céu. Despencou-se abismalmente, criança ainda, direitinha ao canteiro de alfazema do pátio do Lar da Maternidade, em vésperas de Natal.
Dona Alma embasbacou-se com o misterioso aparecimento de uma criança vinda dos ares, assim, sem explicações que se entendessem. Deve ser coisa de Deus, pensou, Coisas do tipo aquela de a Maria engravidar do Espírito Santo, sem a necessidade do sémen real, num milagre desconfiante. Se não fosse os milagres serem tão inverosímeis, as pessoas consentiam melhor as religiões.
Mas a parteira não tinha como não acreditar no sucedido que se especava à sua frente – alucinação não seria, alucinação não se dá de vez única, é fenómeno de ocorrências recorrentes na cronologia. Levou a criança para dentro, avaliou, dar-lhe-ia dez anos de idade sem grandes margens de erro. Viu-a recuperar o fôlego e os movimentos, sem pressas. Como te chamas, perguntou-lhe Dona Alma completamente espantada ainda. Clara das Neves, sou a Clara das Neves.
A Clara das Neves era toda branca, até os olhos, por dentro e tudo.
De ver-lhe os olhos todos brancos a parteira ficou ainda mais incrédula, e como se as perguntas não se contivessem de tanta curiosidade, prosseguiu.
De onde vens, Clara.
Do céu, eu vivo no céu, aqui é onde, senhora – curiosou.
Aqui é a Terra.
Perante esta informação facultada pela senhora parteira, a menina cerrou as pálpebras brancas sobre os olhos brancos, e pela evidente branquitude da face escorreram-lhe lágrimas de profunda tristeza.
As pessoas do céu sabem que morreram quando despertam na Terra. E porque na Terra também há anjos, a Dona Alma guardou a menina em segredo, e silêncio de esconderijo a sério, para lhe salvaguardar a integridade. A mulher, de tanto estranhar a criança, entranhou-se por ela até aos confins do seu próprio nome.
O tempo amontoava-se de ver carrilar vários Natais nas recordações e aquele amor sigiloso só sabia exponencializar-se sem rédeas.
Clara nunca tinha visto uma pessoa da Terra e Alma nunca tinha visto uma pessoa do céu. As pessoas do céu não veem de ver como a gente – cores, dimensões, duros e moles, pertos e longes – por isso os olhos não lhes servem para enxergar, servem só para regar os sentimentos; acho que foi alguém do céu que disse que os olhos são o espelho da alma. Para eles os olhos sentem, e de tanto sentir escusam a visão. Ver para crer é coisa terrena, do mundo material, de gente que não confia porque não é de confiar.
Quanto mais se conheciam, mais Dona Alma se espantava, nunca deixou de se espantar – e até já nem se espantava por se espantar tanto. Descobriu que nesse mundo lá de cima, de onde Clara das Neves se despencou, as pessoas são feitas de transparência telepática, por isso desconseguiu explicar à menina de que era feita uma mentira, essa arma cheia de letalidade que a tecnologia progressista nunca logrou suprimir. Os que dialogam através da leitura de pensamentos escusam o fingimento.
E assim Clara foi crescendo – escondida na casa da parteira, ocultada dos olhares da gente por mera proteção maternal – assistindo aos nascimentos através da clarabóia da parede que dava para a sala de partos, onde encostava a testa em vez dos olhos.
Quando finalmente se adultou, começou a derramar leite pelos seios, de mamilos já bastante desenvolvidos, um leite inesgotável, jorrado todos os dias sem interrupções, sempremente. Pelos vistos – contou ela para atenuar a perplexidade de Alma – era coisa natural lá no mundo de onde vinha, as mães de um estarem preparadas para ser mãe de todos. Daí que tenha amamentado de forma natural os recém-nascidos de genitoras falecidas ao parir em Vila das Pedras, essas mães que se finavam para um caminho inverso ao seu deixando os órfãos à mercê da fome.
Ao longo dos anos, Clara das Neves proezou-se de nutrir muitos meninos terrenos com o alimento sagrado do seu peito.
Dona Alma morreu numa véspera de Natal, tempestuosa como aquele dia em que Clara se despencou firmamento abaixo. A filha celestial invejou o passamento da mãe terrena, pois queria ser ela a tomar as direções do céu, devido às insuportáveis saudades que tinha acumuladas no sentir. Tal como os sábios que sabem da aleatoriedade da existência – desengane-se quem contraria a constatação – arrumou mais uma saudade no coração e resignou-se ao que faltava explorar no combate às solidões. Desde que descera à Terra que o amor de Alma lhe bastava, só que agora mais um vazio se lhe acumulava e não restou outro remédio senão aventurar-se a explorar o que havia para lá das portas do Lar da Maternidade.

Dona Alma morreu numa véspera de Natal, tempestuosa como aquele dia em que Clara se despencou firmamento abaixo. A filha celestial invejou o passamento da mãe terrena, pois queria ser ela a tomar as direções do céu, devido às insuportáveis saudades que tinha acumuladas no sentir.
Caminhou sobre a neve pelas ruas vazias de Vila das Pedras e salgou-as com a lembrança saudosa de seu pai. Fixou o alto e nem uma estrela se fazia luzir, através da densidade nebulosa, para que pudesse ao menos recordar a mãe e atenuar as distâncias – um breve consolo que fosse.
Percebeu, nas casas em volta, cortinas de luzinhas intermitentes e esforçou-se por fingir um pensamento, fazer de conta que essas luzinhas eram estrelas, mas nem em tantos anos de Terra fora capaz de aprender a fingir – eis a força da genética a vigorar sem cedências.
Um homem que cruzava a estrada empurrando um carrinho de lenha, viu-a, quase nua, levitante como um floco da neve dos que caem em noites sem vento. Ouve lá, Perguntou, Não tens frio, rapariga. Quando ela se voltou para lhe responder que era filha de um floco de neve, portanto, resistente às baixas temperaturas e nelas aconchegada de conforto, o homem deparou-se-lhe com a branquitude completa dos olhos, e, da estranheza imprevisível misturada com o álcool bebido no jantar da consoada, desatou a gritar enquanto tocava às campainhas com alegações de bruxaria e terror vindos daquela aberrância corpórea que lhes invadia a vila.
Os aldeãos foram saindo pelas portas, à vez, convencidos pelo lenhador, para se unirem no centro do povoado. Clara reconheceu – sem reciprocidade – uns quantos dos que tinha amamentado e sentiu-os bêbados, anafados, indiferentes à essência natalícia de tudo compreender e acolher por deliberação superior do espírito.
Não adiantava argumentar, as comunicações não se faziam por sintonização comum. Correu apenas, direita ao Lar da Maternidade onde ansiava reabrigar-se. Não chegou a entrar na casa, antes levitou, após agressões que ninguém compreendia como não a dilaceravam em sangue escorrido e carnes vivas à vista. Levitou derramando o seu leite materno por sobre os agressores. Levitou de volta à casa de origem, para o colo das estrelas e dos flocos de neve, protegida pelo manto de nuvens. E para – talvez – retribuir o acolhimento que Dona Alma lhe dera em mundo arisco e alheio, esse inferno onde caíra morta e se demorara antes da ressurreição.
Ana Sofia Brito é autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”, “O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro 2025 o livro de poesia “Tempo” e é ainda autora do podcast, “Direito ao Grito“, da Fnac e assina a rubrica mensal “E por falar em livros…” no jornal “Sul Informação”.
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