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“O poder é débil nas mãos de personalidades fracas; torna-se criador nas mãos de personalidades fortes.” Foto: Estátua equestre de Marco Aurélio © Joaquim Félix

Edgar Morin e as Lições da História (3/3)

Um só indivíduo pode mudar o curso da história mundial

| 02/01/2026

 

Nascido em 1921, o sociólogo e filósofo Edgar Morin teve também na História um tema de reflexão ao longo deste século de vida que ele próprio protagonizou. Das guerras e das suas tragédias, das transformações económicas e ecológicas, Edgar Morin retira lições fundamentais que iluminam o passado e nos ajudam a construir o futuro.

Lições da História (edição Crítica) é a sua última obra. “Um livro breve e luminoso que nos convida a reflectir sobre a evolução caótica do mundo atual”, traduzindo um “pensamento fulgurante, que continua a iluminar-nos”, como escrevia Le Monde. Por sugestão e acordo com a editora, o 7MARGENS publica três excertos deste livro. O primeiro foi sobre a importância dos mitos, o segundo acerca da natureza “tão humana e tão desumana” da guerra; este último é sobre a capacidade de alguns indivíduos para mudarem o curso da história mundial.

 

Megalomania, a doença do poder

O exercício do poder não controlado, como foi o caso dos reis e dos tiranos da História, pode tanto favorecer os impulsos mais autoritários e cruéis de quem o detém, como, pelo contrário, permitir ao seu detentor desenvolver dons e qualidades que, sem esse poder, teriam permanecido virtuais. A história romana é rica em tiranos e heróis: Augusto, Nero, Calígula, Marco Aurélio são outras tantas variações do exercício do poder.

Contudo, embora raros, houve alguns líderes dotados de sabedoria e temperança, como Péricles ou Marco Aurélio. Em contrapartida, nem Alexandre, nem Napoleão, nem Hitler conseguiram inibir a sua megalomania, que é a doença específica do poder. Estaline mandou executar todos os seus companheiros da Revolução de Outubro, e o exilado Leon Trotsky, que fora responsável pelo triunfo do Exército Vermelho durante a revolução, foi assassinado no México.

Por vezes, o poder absoluto torna as pessoas criminosas ou loucas, foi o caso de Nero ou Calígula, como bem ilustra a peça de Pedro Calderón de la Barca A Vida E Um Sonho (1635), que evoca a força irresistível que transforma um cativo libertado num tirano.

A tendência para a divinização de reis ou soberanos é um dos aspetos da megalomania do poder. Os faraós e os imperadores romanos foram divinizados. Muitos monarcas foram reconhecidos por direito divino, ou seja, consagrados por Deus, como Luís XIV, o imperador da Áustria ou o czar da Rússia.

Mussolini, Estaline, Hitler e Mao organizaram os seus próprios cultos e foram praticamente divinizados. Por conseguinte, temos de ver no Líder Poderoso ora um génio criador ou transformador, ora um mitómano e megalómano. Ambos podem coexistir ou suceder-se na mesma personagem.

O Líder Poderoso traz em si, e concretiza nos seus comportamentos e atos, o potencial antropológico, múltiplo e contraditório, da racionalidade e do delírio, da sabedoria e da loucura, do egocentrismo exacerbado e do altruísmo mais generoso, da crueldade à magnanimidade.

Há que fazer uma menção especial aqueles que libertaram os seus países de uma opressão da qual eram executores ou herdeiros. Foi o caso de Gorbachev, secretário-geral do Partido Comunista, que, apesar da repressão extrema nos países bálticos, foi o arquiteto do fim de setenta anos de ditadura. Quanto a Juan Carlos, promovido por Franco a rei de Espanha e destinado a continuar a sua ditadura, instaurou uma democracia que ainda hoje perdura.

 

Anatomia do poder

Uma das lições da História é mostrar de que modo o poder revela a natureza humana e permite que tanto os piores como os melhores potenciais se concretizem.

Autoriza a vingança, as execuções arbitrárias, mas também a magnanimidade e o perdão.

O poder molda e transforma as personalidades, e essas personalidades moldam e transformam o poder, como Robespierre ao instaurar o Terror, ou Bonaparte ao tornar-se o imperador Napoleão.

O poder é débil nas mãos de personalidades fracas; torna-se criador nas mãos de personalidades fortes.

Incentiva conquistas e guerras. Por vezes, leva a uma vontade de poder implacável, como a de Gengis Kahn, que devastou a Ásia e aniquilou a Babilónia.

Porém, as grandes personalidades que as crises e as guerras originam, e que, por sua vez, dão origem às crises e às guerras, acabam, se se deixarem arrastar pela húbris, por cair no desastre e na morte.

Acresce que o poder é um ninho de intrigas e conspirações, onde se preparam assassínios ou golpes de Estado para derrubar o soberano. A sede de poder é uma aspiração obsessiva que pode conduzir ao crime e à loucura.

O poder pode ser uma fonte de cegueira quando aquele que o detém ignora as situações críticas de que os seus cortesãos não ousam informá-lo. É também o lugar das grandes decisões, geniais ou estúpidas, que contribuem tanto para a glória como para a queda do soberano, tanto para o triunfo como para a ruína de uma nação. Foi o caso de Napoleão III, que, enganado por uma manobra de Bismarck (o despacho de Ems, em 1870), declarou guerra à Prússia, o que conduziu à sua queda e a uma derrota desastrosa para a França.

Desta forma, os grandes homens trazem à História não só contributos transformadores, criadores ou destrutivos, mas também o inesperado, que desvia o curso dos acontecimentos e da própria História.

 

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