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Sarah Mullally na sua tomada de posse, 25 março 2026. Foto Archbishop of Canterbury
Além de ter sido ‘instalada’ na cátedra de Cantuária, a arcebispa foi-o também, logo de seguida, instalada na cátedra de Santo Agostinho, o primeiro evangelizador dos anglo-saxões. Foto © Archbishop of Canterbury

Cerimónia memorável em Cantuária

Arcebispa Sarah Mullally: fator de divisão ou construtora da unidade dos anglicanos?

| 25/03/2026

A cerimónia de ‘instalação’ da nova arcebispa de Cantuária decorria há cerca de 20 minutos, quando, a solicitação do arcebispo de York, Sarah Mullally fez a sua “declaração de assentimento” para o cargo que passava, a partir desse momento, a exercer de modo efetivo. É a primeira mulher em tudo: como líder da arquidiocese, como primaz da Igreja de Inglaterra e como primeira entre iguais (primus inter pares) da Comunhão Anglicana.

Há pouco mais de 30 anos, nem sequer era permitido ordenar mulheres como presbíteras e bispas, o que aconteceu só em 2015. Não é assim de espantar que a escolha de Sara Mullaly tenha sido uma surpresa, recebida com entusiasmo por uns e com amargos de boca por outros.

Também por isso foi histórica a cerimónia desta quarta-feira, 25, e o que se pôde ver e escutar foi um ato de grande beleza, dignidade e diversidade. Perto de 2.000 convidados participaram na celebração, desde o príncipe William, em representação do Rei, e do chefe do Governo do Reino Unido, aos primazes representantes de outras igrejas da Comunhão Anglicana (diz-se que estavam presentes 42 das cerca de seis dezenas) e numerosos representantes de outras igrejas cristãs e religiões.

Além de ter sido ‘instalada’ na cátedra de Cantuária, a arcebispa foi-o também, logo de seguida, instalada na cátedra de Santo Agostinho, o primeiro evangelizador dos anglo-saxões (ainda não se falava de Inglaterra) e arcebispo, há cerca de 1400 anos, que simboliza o seu papel moderador e de unidade do mundo anglicano.

foi histórica a cerimónia desta quarta-feira, 25, e o que se pôde ver e escutar foi um ato de grande beleza, dignidade e diversida

Foi histórica a cerimónia desta quarta-feira, 25, e o que se pôde ver e escutar foi um ato de grande beleza, dignidade e diversidade. Foto © Andrew Baker for Lambeth Palace

O dia esteve fresco e um pouco ventoso, a ameaçar alguns chuviscos. Pelas 14h30, já todos os convidados ocupavam os seus lugares. Ao som da música de órgão que arrancou com uma fuga de Bach, tiveram início sucessivas procissões: do clero e laicado da arquidiocese, dos hierarcas da Igreja Inglesa, incluindo os membros do Sínodo e os clérigos da Comunhão Anglicana. O último cortejo foi o que se formou para acolher e acompanhar os dois representantes da família real. A cerimónia propriamente dita começou de imediato e, como seria de adivinhar, com pontualidade britânica. Quando Sarah surgiu de um edifício nas imediações, num minicortejo, a sua capa dourada esvoaçava com a aragem. Ao aproximar-se da entrada, bateu três vezes com a base do báculo. Ao abrir-se-lhe a porta, houve palavras de acolhimento e uma pequena bênção. Foi a três pré-adolescentes que coube a tarefa de interrogar a recém-chegada:

“Saudamos-te em nome de Cristo. Quem és tu e porque pedes para entrar?”, perguntam eles em coro.  A arcebispa responde: “Sou Sarah, uma serva de Jesus Cristo, e venho como alguém que busca a graça de Deus, para caminhar convosco ao serviço d’Ele”. Os miúdos inquirem: “Porque foste enviada até nós?”, ao que Sarah diz: “Fui enviada como arcebispa para vos servir, para proclamar o amor de Cristo e, convosco, para O adorar e amar com o coração e a alma, a mente e as forças.  “Em que espírito vens até nós e com que confiança?”, voltam a perguntar. “Venho sem saber nada, a não ser sobre Jesus Cristo crucificado, e venho também com fraqueza, medo e muito tremor”. A última palavra é dos mais pequenos: “Sejamos, então, humildes perante Deus e busquemos juntos a Sua misericórdia e força”.

No “sermão”, Sarah Mullally aludiu à escolha que fez de iniciar o seu ministério do dia da Festa da Anunciação do Anjo a Maria e a dois aspetos correlacionados que valorizou: a confiança em que “a Deus nada é impossível” e o sim confiante de Maria.

Essas palavras fizeram-lhe lembrar a Sarah teenager, quando decidiu “colocar a sua fé em Deus e assumir o compromisso de seguir Jesus”, sem imaginar, então, o futuro que a esperava e “certamente também não o ministério a que agora foi chamada”, afirmou.

A arcebispa manifestou proximidade às vítimas e sobreviventes de abusos na Igreja de Inglaterra, afirmando que os “tem no coração” e invocou os caminhos da paz nos vários conflitos armados, tendo referido o Médio Oriente e o Golfo, sem esquecer o Sudão, a Ucrânia e Mianmar.

Não esqueceu, por outro lado, os sofrimentos e divisões, “mais perto de casa”, nas próprias igrejas. Disse que não se pode nem desprezar nem minimizar a experiência daqueles que foram feridos através de “ações e omissões no seio das nossas igrejas e comunidades”.

Sarah não se referiu, pelo menos diretamente, às profundas divisões que se fazem sentir, desde há anos, na Comunhão Anglicana, ainda que se possa aplicar a esta situação a insistência que deu, no seu sermão, à ideia de que a Deus nada é impossível.

Sarah não se referiu, pelo menos diretamente, às profundas divisões que se fazem sentir, desde há anos, na Comunhão Anglicana. Foto: Neil Turner for Lambeth Palace

O seu antecessor, Justin Welby, pediu a demissão, na parte final de 2024, por ter ficado clara a sua inoperância perante o caso de um abusador contumaz, que deixou um rasto de vítimas e de feridas em especial na Inglaterra e na África do Sul. O problema dos abusos não está ultrapassado e mesmo a própria Sarah Mullally saiu chamuscada de várias denúncias de inação ou ação inapropriada, enquanto bispa de Londres. E o mesmo aconteceu ao arcebispo de York.

Mas é sobretudo em torno de fraturas e disputas teológicas e pastorais não resolvidas sobre relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo e também sobre a própria ordenação de mulheres que se foram acentuando divisões que levaram um conjunto de setores mais conservadores, especialmente da África e da Ásia, a avançar para um cenário que poderá redundar em cisma.

A escolha de Mullally, que é tida como uma líder aberta e atenta aos sinais dos tempos, para a Arquidiocese de Cantuária foi vista como parte do problema. Será que ela, pelo modo de atuar, será capaz de contribuir para o diálogo entre as várias sensibilidades? Rowan Williams, que foi arcebispo de Cantuária de 2002 a 2012, interpretou, em entrevista recente, as divisões como reflexo de um “descontentamento social mais amplo” e de “sentimentos de impotência”. Mas vê as posições tão entrincheiradas que o levam a temer pelo futuro da Comunhão Anglicana.

A cerimónia histórica desta quarta feira na cátedra de Cantuária teve dois sinais interessantes que são sinónimo de vitalidade: o papel das mulheres, em especial das mulheres bispas e mesmo primazes, que se juntaram na igreja de S. Pedro e foram protagonistas na própria celebração; e, por outro lado, a presença, no ato litúrgico, de várias manifestações linguísticas, musicais e performativas de culturas e civilizações do “grande Sul”, em que a Comunhão Anglicana está presente. Para além do que divide os anglicanos, não haverá também importantes dimensões que podem contribuir, na sua fragilidade, para uma unidade possível?

 

 

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