A poesia litúrgica de Patrice de la Tour du Pin ocupa um lugar decisivo na renovação da expressão religiosa em língua francesa no século XX, em convergência com o movimento litúrgico que precede e acompanha o II Concílio do Vaticano. Integrado numa geração que inclui figuras como Paul Claudel, Charles Péguy ou Pierre Emmanuel, La Tour du Pin desenvolve uma poética marcada pela reapropriação simbólica da linguagem bíblica, não como citação decorativa, mas como matriz viva de enunciação. As suas imagens – água, deserto, noite, sopro – não são apenas alusivas, mas performativas: fazem acontecer uma experiência espiritual no próprio ato de dizer.
Trata-se de uma voz poética que procura a inscrição comunitária. Distinguindo-se de uma lírica intimista, o “eu” tende a realizar-se num “nós” que corresponde à assembleia crente convocada de todas as fronteiras. A sua enunciação poética não é uma gramática fechada. Traduz uma abertura ao inacabamento. A linguagem não pretende fechar o sentido, mas mantê-lo em estado de advento. Este traço é particularmente relevante nos idiomas litúrgicos que procuraram aprofundar os desafios do Vaticano II, na demanda de formas expressivas capazes de articular tradição e desejo, inteligibilidade e mistério.
No texto que, nesta proposta, se transforma em substância musical, no contexto do Domingo de Ramos, essa contribuição revela-se particularmente pertinente, ao dar voz à ambivalência de um tempo que é simultaneamente entrada e travessia, aclamação e silêncio, promessa e despojamento. O Ensemble São Tomás de Aquino conduz-nos na dição e na escuta de uma tradução para português, realizada por Frei José Augusto Mourão. O autor desta crónica construiu, com esse texto, na oficina da composição, um canto para os ritos de comunhão do Domingo de Ramos.
No limiar da Semana Santa, o Domingo de Ramos articula duas tonalidades em tensão: a aclamação e a paixão, o júbilo messiânico e a iminência da noite pascal. O texto de Patrice de la Tour du Pin inscreve-se precisamente nessa tensão. A sua linguagem convoca imagens bíblicas densas – a nuvem, o deserto, a sede, a germinação – para dar forma a uma oração comunitária marcada pela expectativa e pela incompletude.
A “nuvem luminosa”, reminiscente das teofanias do Êxodo e da Transfiguração, apresenta-se aqui como mediação entre o tempo da história humana e o tempo da graça de Deus. O sujeito orante reconhece-se ainda aquém da irrupção plena (“não é o teu dia ainda?”), mas já atravessado por um desejo que o desinstala: “a tua sede atormenta as nossas gargantas.”
O texto transporta a sintaxe do corpo eclesial (“nós somos o teu corpo, a terra mesma do teu corpo”), a sua sacramentalidade. A assembleia é um lugar onde a palavra ainda procura forma (“que homem aqui entoaria um hino?”), sugerindo que a liturgia não é pura repetição, mas génese contínua de linguagens. É nesse ponto que a poesia se torna litúrgica. Não por substituir o rito, mas por o reabrir à sua potência originante: “tu és o céu que tornou à terra / o vento que aqui nos trouxe”. (In José Augusto Mourão, O Nome e a Forma – Poesia Reunida, Pedra Angular, 2009, 216-217.)
Música: Alfredo Teixeira
Antífona: Mateus 25, 42;
Versículos: Patrice de la Tour du Pin (tradução José Augusto Mourão), Salicus, nº 5 (2018), 58-67.
Alfredo Teixeira é antropólogo e compositor (UCP-FT)










