Estreou na passada quinta-feira, dia 2 de abril, nas salas de cinema em Portugal, um filme de Alauda Ruiz
de Azúa, “Os domingos”, vencedor do Festival de San Sebastián e dos Prémios Goya, que há muito dava que falar em Espanha. Trata-se de uma película sobre a vocação de uma jovem para a vida religiosa consagrada. O seu início fez-me antever uma crítica à Igreja, mas a história não confirmou essa suspeita. Pelo contrário. Duas jovens, que estão a participar num retiro espiritual para alunos do ensino secundário, conversam, na camarata, em tom jocoso a propósito da postura das religiosas, educadoras no Colégio onde estudam.
O filme assenta em duas traves mestras: a do amor e a do desamor, ou seja, a trajetória da protagonista, alicerçada no amor ao Senhor, e a dos seus familiares, mormente da sua tia, cuja existência personifica a rejeição de todas as formas de amor que o Homem pode experimentar. Focada exclusivamente nos bens materiais, a tia não acredita em Deus, mas também não acredita nos homens e a sua teia de relações, com a sobrinha, com o irmão e com o marido, prova que se mantém impermeável ao amor e ao mistério.
A protagonista, Ainara, é uma jovem de 17 anos que frequenta uma escola católica. Num contexto familiar adverso à fé, Ainara sente-se atraída por Deus, por quem se sabe amada, e deseja entregar-Lhe totalmente a sua vida, mas a família será um obstáculo permanente, tentando dissuadi-la desse desiderato.
Catequista na escola onde estuda Ainara, o jovem Padre que era o seu acompanhante espiritual demonstra que quem ama confia e por isso incentiva os jovens que lhe são confiados, nas sessões de Catequese e noutros momentos formativos, a passar do medo à confiança. Este acompanha a protagonista no seu discernimento vocacional e considera-se seu acompanhante (e não diretor espiritual). Ouvia-a e ajudava-a a ler as suas moções internas, através das quais Ainara, órfã de mãe, se sentia confirmada na sua vocação.
Sabe-se através da avó que a mãe de Ainara teria tido uma conduta errante, pois a matriarca congratula-se por as netas não terem conhecido a mãe. Trata-se de um filme desprovido de afetos, mas que nos prende e capta a atenção. As personagens são muito reais e deram-me a possibilidade de “rever” várias Irmãs dominicanas com quem trabalhei durante a minha juventude e vários sacerdotes e leigos empáticos, profundos e próximos que me continuam a influenciar nas tarefas pastorais que desenvolvo, sempre alicerçada no profundo amor que o Senhor tem por cada um de nós, como a jovem testemunha com a sua vida. Além disso, o filme abre janelas de esperança, em relação ao Homem e às iniciativas que promovemos, pois as atividades pastorais em que trabalhamos lançam sempre sementes onde nascem frutos, ainda que nos tempos/espaços de Deus e não nos nossos.
Creio que este filme pode bem constituir-se como uma alavanca para todos aqueles que trabalham nas diversas áreas da formação espiritual de crianças, jovens ou adultos, seja nas paróquias, nas escolas ou em colégios, na pastoral vocacional ou em grupos de catequese, pois o realismo das personagens (freiras, familiares, namorado e amigos de Ainara) e as suas histórias tocam o espectador e ajudam a crescer na fé e na esperança em Jesus ressuscitado, que faz esta jovem mudar radicalmente de vida.










