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L'Homme qui marche». Alberto Giacometti.
[«L'Homme qui marche», Alberto Giacometti. Fondation Maeght, Saint-Paul-de-Vence, França. © Fotografia: Joaquim Félix]

[Ensaio]

Da liturgia de bem lutar [a] toda a arte: Se nos deixássemos vencer assim? (II)

| 21/06/2026

 

Da autoria do padre Joaquim Félix, o 7MARGENS publica hoje a segunda parte (ver primeira parte) do Prefácio em jeito de ensaio ao livro “Da luta desiderável. Interrogação poética do combate na arte e na liturgia”, de Bruno Pinto, diácono de Braga.  O livro, editado pelo Secretariado Nacional da Liturgia, corresponde à dissertação de Mestrado Integrado em Teologia realizado na Faculdade de Teologia da UCP.  

 

Da beleza das artes: armadilha divina na liturgia?

Será que Deus promove as artes para se revelar, poeticamente, conservando a sua transcendência, na semelhança do que sucede com as linguagens da beleza? Poderá ser a liturgia, ainda, um reduto de transcendência, que qualifica o combate existencial, a vida criatural-cósmica, na medida em que nela se venham a praticar as artes, ela que, já por si, é uma arte? Adivinhável, a resposta não é simples nem garantia de facilidades. Constituirão elas, as artes, uma armadilha?

Relendo as palavras que o Papa Bento XVI dirigiu aos artistas, no dia 21 de novembro de 2009, na Capela Sistina, depreenderemos o horizonte para o qual a beleza abre: «O que pode voltar a dar entusiasmo e confiança, o que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o caminho, a elevar o olhar para o horizonte, a sonhar uma vida digna da sua vocação, a não ser a beleza? Vós bem sabeis, queridos artistas, que a experiência do belo, do belo autêntico, não efémero nem superficial, não é algo acessório ou secundário na busca do sentido e da felicidade, porque esta experiência não afasta da realidade, mas, ao contrário, leva a um confronto cerrado com a vida quotidiana, para o libertar da obscuridade e o transfigurar, para o tornar luminoso, belo» (Bento XVI 2009).

Vitral do padre Kim En Joong

[Vitral do padre Kim En Joong op., Capela do Convento de Santa Sabina, Roma © Fotografia: Joaquim Félix]

Nesse sentido, sem jamais obliterar nada à confrontação cerrada com a vida diária, a beleza das celebrações ― porquanto a liturgia se pratica para, no respeito pelo seu sentido teológico, proporcionar a glorificação divina e a santificação dos humanos (cf. Sacrosanctum Concilium, n.7) ― pode esclarecer-se melhor à luz destas outras palavras: «A arte, em todas as suas expressões, no momento em que se confronta com as grandes interrogações da existência, com os temas fundamentais dos quais deriva o sentido do viver, pode assumir um valor religioso e transformar-se num percurso de profunda reflexão interior e de espiritualidade» (Bento XVI 2009).

Tendo começado por fazer uma hermenêutica das quatro variações de «La lutte avec l’ange», de Maria Helena Vieira da Silva, Bruno Pinto poderia concentrar-se noutras obras de arte exibidas em museus e galerias. Por estes dias, por exemplo, não lhe faltariam outras obras dedicadas, ex professo, ao tema do «combate». Efetivamente assim acontece, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, em cuja exposição temporária «As Mil e uma Noites», que pode ser vista até 2027, numa das suas salas temáticas, são expostos os «combates» de vários artistas portugueses do século XX: as pinturas de Amadeo de Souza-Cardoso, de Maria Helena Vieira da Silva e de José de Guimarães; as esculturas de Rui Chafes e de João Cutileiro; e, ainda, um desenho de Cruzeiro Seixas. Todas elas remetem para as histórias de combates reais ou simbólicos, interiores e exteriores, que povoam o imaginário coletivo dos povos. Nalgumas delas, não falta o cavaleiro, personagem arquetípica, que irrompe nas clareiras da vida, lutando contra inimigos, males e vícios. Sem ser uma Xerazade rediviva, Bruno Pinto preferiu apresentar, no segundo capítulo, obras de arte cuja relação concerne com a liturgia, em particular, mas não exclusivamente, nos lugares onde se celebrou e celebra ao longo das épocas culturais.

João Cutileiro, Amadeo de Souza-Cardoso e Cruzeiro Seixas

[«O Combate» (João Cutileiro, Amadeo de Souza-Cardoso e Cruzeiro Seixas) na Exposição «Xerazade, a Coleção Interminável do CAM», Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa © Fotografia: Joaquim Félix]

Antes, porém, de se deter nalgumas obras, numa apurada seleção, que não exclui muitas outras possibilidades igualmente belas, ele abre o capítulo com a Heterodoxia de Eduardo Lourenço, que tem como princípio nodoso o mito germânico de Migdar. No seu provocante «Prólogo sobre o mito da heterodoxia», Eduardo Lourenço evoca a serpente que se morde pela cauda, enquanto símbolo de inesgotáveis sugestões. Segundo ele, tal mito, que se escreve em ícone, traduz o sentido de que a heterodoxia é «a convicção de que o real não é a cabeça mordendo sem hesitação nem a cauda devorada sem resistência, mas o inteiro movimento de morder mordido, a paixão circular da vida por si mesma» (Lourenço 2005,10). Talvez em atenção a tal mito, nas igrejas de madeira dos vikings, na Noruega, tenham sido esculpidas, em filigrana de madeira, serpentes. Intrincadas e elegantemente elaboradas, numa expressão comparável à arte de entrelaços, também elas se mordem nas caudas. Atente-se, por exemplo, à refinação deste motivo serpentesco na pequena igreja de Urnes, sobranceira ao Fiorde de Luster, no município de Luster, no condado de Sogn og Fjordane. Atualmente, talvez para melhor conservação, como pude testemunhar in loco, retiraram-no da porta principal, tendo-o instalado na parede do lado norte. Entrar na igreja corresponderia a entrar no combate da vida, que, de forma simbólica, se celebra nos santos mistérios. Liturgia cujo espírito pode colher-se não apenas em Romano Guardini (Guardini 2017), Joseph Ratzinger (Ratzinger 2001) ou Goffredo Boselli (Boselli 2019), mas também, como explora Bruno Pinto, a partir do sentido espiritual da arte, com intuições, ensaios e obras de Wassily Kandinsky (Kandinsky 2017), Paul Claudel (Claudel 1947 e 2006) e Frederico García Lorca (Lorca 2007), entre outros autores. Com os primeiros, tudo sugere um exercício consentâneo; com estes, porém, até parece que haverá algo de heterodoxo.

Depois da breve iniciação ao espírito da liturgia, no capítulo segundo, são apresentadas obras de arte, antigas e contemporâneas, que frequentemente encontramos nos lugares litúrgicos ou na sequência de particulares celebrações como, por exemplo, o rito do Accendite, na vigília pascal segundo o rito bracarense. É uma seleção, mas realizada segundo critérios de grande exigência, capaz, em todo o caso, de evidenciar as melhores tipologias das expressões do «combate», que servem de fundamentação e ilustração do tema em estudo. Dificilmente se poderiam explorar mais, tendo em conta a amplitude dos bens culturais e as diferentes sensibilidades. A arte românica é pródiga em criações, mas também a contemporânea. Surpreenderão os leitores certas escolhas. Entre elas, imagino, a opção por explorar os magníficos pavimentos da catedral de Otranto, em Itália, e na igreja da abadia cluniacense de Ganagobie, na Provença, França. De facto, impressiona como, em ambas as igrejas, no pavimento junto do altar, se possa encontrar a luta entre as virtudes e os vícios. Recordando, todavia, as catequeses do Papa Francisco sobre os vícios e as virtudes, podemos concordar com quanto ele escreveu: «Com efeito, a vida espiritual do cristão não é pacífica, linear, sem desafios; pelo contrário, a vida cristã exige um combate constante» (Francisco 2023,13). E, referindo-se à unção dos catecúmenos, acrescentou: «Também a sua existência, como a de todos, deverá descer à arena, pois a vida é uma sucessão de provações e tentações» (Francisco 2023,13).

Mosaico pavimental (séc. XII)

[Mosaico pavimental (séc. XII) na igreja da abadia cluniacense de Ganagobie, na Provença, França © Fotografia: Joaquim Félix]

O conhecimento dos labirintos nas catedrais e igrejas é porventura mais comum; não o será, todavia, a apresentação que Bruno Pinto faz da «batalha», género musical da organística. Por certo, muitos leitores se hão de maravilhar com as obras de arte contemporâneas selecionadas, que servem a liturgia-de-combate. Contemplando-as, Bruno Pinto surpreende-se ― e, nisso, contagia-nos ― com a possibilidade de encontrar semelhanças entre as experiências estéticas e as celebrações litúrgicas, algumas delas místicas. E, longe de procurar êxtases ou levitações, deixa uma questão, bem contextualizada, à qual só cada leitor poderá responder: «Não será a Beleza uma das mais eficazes armadilhas em que Deus nos apanha?» (pág. 19).

 

Liturgia teodramática, segundo a arte de bem lutar

Sem esgotar as possibilidades do combate, que compreende a vida na sua inteireza ― interpretada como culto existencial (cf. Rm 12,1) ―, a liturgia é a expressão, por antonomásia, da luta desiderável com Deus. Tendo como pano de fundo a trilogia teológica de Hans Urs von Balthasar, sobremaneira o volume II (Balthasar 1992), onde é analisada a ação das pessoas que entram no teo-drama ao longo da história da salvação, Bruno Pinto prefere dirigir a sua atenção para expressões litúrgicas relevantes, onde se concretiza mais explicitamente a relação dicotómica entre morte e vida, tanto na celebração dos sacramentos como na comemoração dos santos e dos mártires.

Haverá sacramentos que se celebram em vista do combate? Conferirão eles forças para a luta? Sem dúvida. Todos eles possuem esta graça. Em todo o caso, para que não se potenciem equívocos, é importante sublinhar que esta perspetiva não pode ser entendida como promoção de belicismos e militâncias radicalizadas, que apelam e praticam a violência em nome de Deus. Por conseguinte, há que expurgar, da prática pastoral e da política, determinadas atitudes extremistas que, inclusive ao abrigo de expressões teológicas do passado, nomeadamente da Escolástica, interpretam a expressão «robur ad pugnam» (força para a luta), associada aos efeitos da Confirmação, com exageros, muitos deles aberrantes e blasfemos. De notar que, quanto a este aspeto teológico, a força é concedida não tanto para combater inimigos externos, mas para lutar com fortaleza, entusiasmo e os demais dons do Espírito Santo, na promoção do Evangelho, sobretudo com o testemunho (martyria). Isto é, à semelhança com Deus, que, como fez através de Cristo, amou o mundo, esvaziando-se. Assim, com tremenda pulcritude, se há de edificar a vida cristã em termos eclesiais.

Crucifixo

[Crucifixo esculpido por Germaine Richier, Igreja de Notre-Dame-de-Toute-Grâce du Plateau d’Assy (1937-1946), Alta Saboia, França © Fotografia: Joaquim Félix]

Aprofundadas as expressões sacramentais do combate e, bem assim, a concretização da luta através da santidade de vida das testemunhas da fé, Bruno Pinto procura delinear vias plausíveis para se instituir uma liturgia de combate. De novo com Romano Guardini, são relevadas duas dimensões estruturais que presidem à arte da celebração litúrgica: a seriedade do jogo e a intensidade do combate. Entre outras atitudes, «o sujeito que participa na ação da liturgia luta para não cair na tentação de esgotar o que não se pode esgotar, luta contra o risco da excessiva racionalização e da procura fria da utilidade ou ― mais ainda! ― da agradabilidade, entre uma vastíssima imensidão de tentações e riscos» (pág. 113). Na coreografia ritual, na qual o participante é convocado a lutar, com disciplina, esforço e fadiga, o mistério é o campo de batalha. Nele, de forma ativa, com piedade e fruto (cf. SC 48), o combatente há de procurar ser o que, no encontro com Deus e por vocação, é.

Rui Chafes

[«O Combate», escultura de Rui Chafes, na Exposição «Xerazade, a Coleção Interminável do CAM», Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa © Fotografia: Joaquim Félix]

Desde este pano comum, o da inutilidade, que serve de fundo ao teodrama vivido na liturgia, Alfredo Teixeira aprofunda a ideia, no posfácio «O ritual litúrgico: Tropário de resistências», tendo por base a aclamação do Kyrie: «A liturgia é essa possibilidade de uma génese contínua. E apesar de toda essa riqueza, permanece na sua inutilidade. O ritual litúrgico não se orienta para um fim pragmático; não é o milagre da conversão acabada. É esta inutilidade que abre a ritualidade litúrgica ao teatro de Deus e do mundo (sim, os Salmos são esse teatro em que o logos de Deus e a voz da inquietude humana se reúnem num intrincado tropário polifónico). A liturgia recusa a redução do mundo da vida a um sistema de funções, recordando que o mais nobre ofício é o louvor» (Teixeira 2026, 74). Para que a liturgia possa ser interpretada como tropário ou ecologia de resistências, há que atender ao sensus laudis, ao sentido doxológico: «No labirinto que se esboça na vivência litúrgica, o louvor é o único esperanto possível. O louvor não é enfeite, é um grito que vem de dentro; não é histriónico, é humilde; não é um altifalante para Deus, é um murmúrio confiante; não é desperdício, é uma ecologia resistente» (Teixeira 2026, 74). Esse grito ressoa desde dentro, sim, porque a batalha, como o louvor, começa no interior (cf. Buioni 2025).

Bruno Pinto pergunta-se, na parte final do seu estudo, se atualmente haverá obstáculos ou adversidades que podem enfermar, e inclusive destruir até ao escombro, a liturgia como combate, na sua ecologia de resistências. Sem procurar ser exaustivo no diagnóstico que faz, apresenta alguns obstáculos, que podem encontrar-se nas celebrações litúrgicas feriais e, sobretudo, nas dominicais. Na raiz da maior parte deles, encontram-se duas grandes problemáticas, identificadas por Goffredo Boselli (cf. Boselli 2019, 251-253), a quem Bruno Pinto acompanha nos esclarecimentos: por um lado, a tentação do tradicionalismo anacronizante, através regresso nostálgico e revivalista de velhos formalismos; e, por outro, a aviltante deformação litúrgica pela exaltação estética e sentimentalista, que se esgota na espetacularidade.

Para debelar estes e demais obstáculos, é urgente um combate outro, o da formação litúrgica. Em atenção a tal urgência, Bruno Pinto solidariza-se com o Papa Francisco que, na Carta Apostólica Desiderio Desideravi, interpela todo o povo de Deus para «a necessidade de uma formação litúrgica séria e vital» (cf. DD 27-47). Partilhando, sobretudo, das ideias de Romano Guardini sobre esta matéria, mas também de Paul De Clerk e de Patrick Prétot, entre outros autores, que insistem na formação para e através da liturgia, o Papa Francisco aponta ao desafio da ars celebrandi (cf. DD 48-60).

Interior da igreja de Notre-Dame-de-Toute-Grâce du Plateau d'Assy

[Necessidade de formação litúrgica séria e vital. Interior da igreja de Notre-Dame-de-Toute-Grâce du Plateau d’Assy (1937-1946), Alta Saboia, França © Fotografia: Joaquim Félix]

Entendendo a arte de celebrar como arte de bem lutar, na perspetiva de uma arte total ― a da liturgia de bem lutar a toda [a] arte ―, Bruno Pinto, na sua prosa poética, glosa a urgência das múltiplas exigências da arte do combate no bramido «é preciso», cujas ondas sucessivas fazem lembrar o poema «Urgentemente» do poeta Eugénio de Andrade (cf. Andrade 2017,85): «É preciso derrubar as fachadas do egoísmo para haurir da ruína a construção bem edificada. É preciso ferir o coração, pôr uma “estaca no coração a servir de berço”, recorrendo a uma imagem poética de Maria Quintans. É preciso acolher nas horas mais inesperadas a surpreendente novidade do amor inteligível de Deus que acompanha os nossos passos. É preciso deixarmo-nos vencer para, ao final, sairmos vencedores. É preciso entrar como devoradores e sair devorados» (pág. 123). Que o lutador lute até ao nome novo!

Basílica de Aquileia, Itália

[O galo e a tartaruga no pavimento em mosaico (séc. IV), Basílica de Aquileia, Itália © Fotografia: Joaquim Félix]

Nota endográfica

Não faltemos ao combate, à luta desiderável. Avancemos, pois, como Bruno Pinto incentiva, para a interrogação poética do combate na arte e na liturgia. Celebrando com arte. A arte total. Eis o mistério da liturgia de bem lutar [a] toda a arte, a ars celebrandi. Evitemos, portanto, derrotar o Vencedor. Evitemos, repito, imunizar a liturgia com o veneno do revivalismo tradicionalista e a exaltação estética do espetacular sentimentalismo. Nunca será demais sublinhar a repetição. Porquê? Porque, imunizar a liturgia, privando os celebrantes da sua dimensão comunitária-combativa, protegendo-os ― com antídotos ― da luta que ela proporciona, torná-la-á uma ação tanatológica: conduzirá a vida à morte. Perverte-se, sem bênção, graça ou glória, o mistério pascal de Cristo. Fazendo uma, talvez arriscada, comparação com o conceito de imunidade, defendida pelo filósofo italiano Roberto Esposito, no seu livro Bios: Biopolítica e Filosofia (Esposito 2021), a liturgia, tal como a biopolítica, para não se transformar num serviço público ― e, neste caso, também político ― de morte, carece da exposição pública à comunidade celebrante. Neste sentido, a vida protegida conduz à morte antecipada.

Robert Rauschenberg

[Impressionante Vitral do Apocalipse, na basílica de S. Giovanni Rotondo de Pietrelcina, cujo projeto foi adaptado por Robert Rauschenberg a partir dos célebres «Tapetes do Apocalipse» (Tapeçaria de Angers, França) © Fotografia: Joaquim Félix]

Rainer Maria Rilke, no poema «O contemplativo», revisita a luta do Anjo com Jacob. Creio que, num modo outro, a fazer-se, acompanha bem as quatro variações «La lutte avec l’ange», de Maria Helena Vieira da Silva. Na luta, a assimetria é imensa, mas desiderável. Conforme podemos reevocar a passagem, neste texto, colocada em epígrafe: «Este é o anjo do Antigo Testamento, noite e dia,/ que aos lutadores aprecia:/ quando os tendões dos seus adversários daqueles dias/ ficavam tensos, ao lutar, e qual metal/ sentia-os debaixo dos seus dedos, afinal,/ tais cordas de profundas melodias» (Rilke 2025,60). O poema, que começou quatro estrofes antes, na aproximação e, depois, na passagem de tempestades, conclui com a estrofe que poderia rematar o estudo de Bruno Pinto: «Quando este anjo venceu/ que tantas vezes à luta renunciou,/ esse tal caminha justificado e erguido contra o céu/ e sai daquela dura mão que o media,/ como que lhe dando forma, o envolvia./ As vitórias já não o convidam, não são algo apetecido./ O seu crescimento é ser profundamente vencido/ por algo cada vez maior, nunca perdido» (Rilke 2025,60). Com ou sem ámen, se nos deixássemos vencer assim?

 

Referências

  • Andrade, Eugénio. 2017. Poesia. Lisboa: Assírio & Alvim.
  • Balthasar, Hans Urs von. 1992. Teodramática. 2. Las personas del drama: El hombre en Dios. Madrid: Ediciones Encuentro.  
  • Bento XVI, Papa. 2009. Discurso do Papa Bento XVI por ocasião do encontro com os artistas na capela sistina. Sábado, 21 de novembro de 2009. 
  • Boselli, Goffredo. 2019. O sentido espiritual da liturgia. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia.
  • Buioni, Maurizio. 2025. A batalha interior. Um guia para o combate espiritual. Prior Velho: Paulinas.
  • Claudel, Paul. 1947. Contactes et circunstances. Paris: Gallimard.
  • ———. 2006. A anunciação a Maria, trad. Sophia de Mello Breyner Andersen. Cascais: Lucerna.
  • Concílio Ecuménico Vaticano II. 1964. «Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium». Em AAS 56: 97–138. Città del Vaticano: Typis Polyglottis Vaticanis.
  • Duarte, El-Rey D. 1986. Livro de Ensinança de Bem Cavalgar Toda a Sela que fez El-Rey D. Duarte. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.
  • Esposito, Roberto. 2021. Bios. Biopolítica e Filosofia. Lisboa. Edições 70.
  • Félix de Carvalho, Joaquim. 2026. Um caminho de três dias. Tropário da liturgia na casa do ser. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia.
  • Francisco, Papa. 2022. Carta Apostólica Desiderio Desideravi do Santo Padre Francisco aos bispos, sacerdotes e diáconos, aos homens e mulheres consagrados e aos leigos fiéis sobre a formação litúrgica do Povo de Deus.
  • ———. 2024. Catequeses sobre Os vícios e as virtudes. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia.
  • Guardini, Romano. 2017. O espírito da liturgia. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia.
  • Lorca, Frederico Garcia. 2007. Anjo e duende, trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Assírio & Alvim.
  • Lourenço, Eduardo. 2005. Heterodoxia, vol I. Lisboa. Gradiva.
  • Mendonça, José Tolentino, Pedro Mexia. 2014. Verbo. Deus como interrogação na poesia portuguesa. Lisboa: Assírio & Alvim.
  • Pinto, Bruno. 2018. Antes das Palavras, viver é o único poema. Amarante: Gráfica do Norte.
  • ———. 2023a. Enigmas ao som da lira. Fafe: Editora Labirinto.
  • ———. 2023b. «‘El sueño de Jacob’ y otros poemas de “Enigmas ao som da lira” (Labirinto, Fafe – Portugal, 2023)». Em Tiberíades – Red iberoamericana de poetas y críticos literarios cristianos, por Alfredo Pérez Alencart. https://tiberiades.org/?p=8538
  • ———. 2024a. «Liberdade». Em São Cravos. 50 anos de Abril. 100 poemas. Coord. Luís Aguiar, 27. Fafe: Editora Labirinto.
  • ———. 2024b. «Babilónia». Em O Corpo do Coração. Poetas Ibero-Americanos pela Paz. Coord. Pedro Miguel Salvado, António Lourenço Marques, Alfredo Pérez Alencart e João Artur Pinto, 44. Fafe: Editora Labirinto.
  • ———. 2024b. «Nenhum deles conhece», «Canto da sede» e «Escuto»». Em Oceano de Palavras. Antologia de Poetas de Fafe, coord. Artur Coimbra e Carlos Afonso, 102-104. Fafe: Núcleo de Artes e Letras de Fafe.
  • ———. 2025. «Por quem o corpo cai». Em De tão cansada a Esperança, coord. António Lourenço Marques, João Artur Pinto e Pedro Miguel Salvado, 34. Fafe: Editora Labirinto.
  • Pires do Vale, Paulo. 2029. «Brincar ― ou como ser uma obra de arte». Em Brincar diante de Deus. Arte e liturgia. Henri Matisse, Vieira da Silva, Lourdes Castro. Brochura da exposição. Lisboa: Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva.
  • Ratzinger, Joseph. 2001. Introdução ao espírito da liturgia. Lisboa: Paulinas.
  • Rilke, Rainer Maria. 2025. Exposto sobre as montanhas do coração. Antologia seguida de O Testamento. Selecção e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado. Lisboa: Assírio & Alvim.
  • Teixeira, Alfredo. 2026. «O ritual litúrgico: Tropário de resistências». Em Um caminho de três dias. Tropário da liturgia na casa do ser. 71-74. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia.
  • Wassily Kandinsky. 2017. Do espiritual na arte, trad. Maria Helena de Freitas. Alfragide: D. Quixote.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens.

 

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Último desejo de Francisco: os bolinhos da amiga Jacoba

Ano jubilar-800 anos da morte (8)

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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