Na pastelaria que fica perto do local onde trabalho, para além de café e bolos, há toda uma montra de temas interessantes que vão surgindo das mais variadas mesas. Entre um gole de café e uma dentada num pastel de nata, lá vem um tema fresquinho, direitinho à minha mesa, que é como quem diz, ao meu ouvido.
Um destes dias, duas mulheres comentavam uma notícia sobre um caso de violência doméstica – em Portugal, a história repete-se quase 30 mil vezes por ano nas esquadras, com as mulheres a representarem mais de 75% das vítimas – e o veredicto da mesa foi rápido: “Mas se ela sabia com quem se tinha metido, demorou dez anos a fazer a mala porquê?”.
A frase atingiu-me nas costas. Não vinha de um homem, vinha de iguais. E é aí que a ferida da violência de género se torna mais profunda: quando o primeiro tribunal a condenar a vítima é composto por outras mulheres.
Ultimamente temos ouvido mais vezes a palavra “sororidade”. Catarina Furtado refere-a frequentemente, sendo uma das pessoas que a defende e que acredita que um dia ela será possível. Mas dizemo-la de forma quase poética. Lembramos a sua raiz do latim soror (irmã), por oposição a frater (irmão), resgatamos o orgulho das lutas feministas nos anos 70, mas corremos o risco de a transformar num autocolante bonito para pôr no computador.
Primeiramente é preciso desfazer equívocos: sororidade não é sermos todas amiguinhas, aliás, é até naïve pensar que vamos ser simpáticas com todas as mulheres do mundo. Sororidade é outra coisa: é um compromisso, um pacto ético e inegociável de proteção mútua.
Fomos ensinadas a compactuar com a estratégia do “dividir para reinar”, o truque mais velho — e ainda eficaz — do manual patriarcal. Se passarmos a vida a competir pela atenção masculina, a policiar o decote “ousado” da vizinha, ou a julgar a mãe que trabalha dez horas ou a que escolheu ficar em casa, não nos sobra tempo e energia para colocar tudo em perspetiva e, dessa forma, sermos capazes de perceber que separadas e desconfiadas somos fáceis de controlar, mas unidas somos uma chatice para o sistema.
Só que este vírus da rivalidade está a infetar as gerações mais novas. Basta abrir o TikTok ou o Instagram para ver o tribunal implacável que algumas adolescentes erguem contra outras. O bullying entre raparigas é mais digital, viral e diário. Critica-se o corpo, a roupa, a atitude: se é demasiado livre é “fácil”, se é recatada é “sonsa”. As jovens limitam-se a replicar o que consomem nos ecrãs, atacando-se mutuamente para garantir um lugar de aceitação num mundo que as quer inseguras.

Na 70.ª sessão da Comissão sobre o Estatuto das Mulheres “ganhou destaque internacional o termo wollying (woman+bullying), que surge para referir violência emocional, rivalidade tóxica e ataques silenciosos praticados entre mulheres.” Imagem © UN Women
Na 70ª Comissão para o Estatuto das Mulheres (CSW70), que se realizou em março deste ano, ganhou destaque internacional o termo wollying (woman+bullying), que surge para referir violência emocional, rivalidade tóxica e ataques silenciosos praticados entre mulheres, e que são caraterizados por:
- Agressões silenciosas: exclusão social premeditada e isolamento em ambientes de trabalho ou grupos sociais.
- Competição velada: comportamentos competitivos nocivos, críticas destrutivas e desvalorização disfarçadas de amizade e conselhos.
- Danos à reputação: espalhar boatos e ataques psicológicos para minar a confiança e o carácter da vítima.
Reconheces?… Bem, voltemos ao ‘s’, de sororidade. Então como é que podemos quebrar o ciclo?
Só há uma resposta: sororidade prática, não alimentando o monstro que quer alimentar-se de nós!
- Já escureceu e aquela colega de turma está com receio de ir sozinha até à paragem de autocarro. Acompanho-a!
- Num bar, percebo que uma desconhecida está a ser importunada e, discretamente, proponho uma manobra de diversão, ajudando-a a sair dali. Intervenho!
- Recuso-me a partilhar aquele vídeo que expõe a intimidade de uma rapariga num grupo de WhatsApp. Quebro correntes de humilhação!
- No trabalho oiço o desabafo de quem sofre assédio em vez de atirar o clássico “se calhar deste-lhe conversa”. Valido e apoio!
Mas isto, assim, dá trabalho e vai demorar…
Óbvio! Pensemos: há quanto tempo vivemos esta condição? Foram anos, séculos, deste “nós e elas”, “nós e as inimigas”. Por isso, comecemos por calar em nós os julgamentos automáticos que nos ocorrem quando olhamos para a vida das outras mulheres.
Deixo um apelo, não por romantismo utópico, mas pela urgência na sobrevivência: comecemos por casa, e pela forma como falamos das “outras” mulheres em frente aos mais pequenos, nossos filhos e netos. Sejamos o escudo. Sejamos nós a cuidar umas das outras, porque a segurança de uma é, provavelmente, a única garantia de liberdade para todas.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.










