Ao ler o livro do sacerdote francês Benoist de Sinety “La Cause du Christ L`Évangile contre ´l´identité chrétienne`” (Bernard Grasset, Paris, 2026), associei a tese nele veiculada a um projeto de lei recentemente apresentado na Assembleia da República (517/XVII/1-CH) sobre o qual foi emitido um parecer pela Comissão da Liberdade Religiosa.

Denuncia esse livro as correntes (que vão ganhando influência em França, mas também noutros países da Europa, nos Estados Unidos de Trump e na Rússia de Putin) que invocam a defesa da “identidade cristã”, ou da “civilização cristã” como marca identitária, bandeira ou arma de combate contra outras culturas, sem que daí decorram ações em coerência com a mensagem central de Jesus Cristo, a qual chega até a ser (para além da retórica e do uso de sinais exteriores) contrariada na sua essência mais profunda (designadamente, na hostilidade para com imigrantes de outras culturas e religiões). Podemos associar a essas correntes o referido projeto de lei, que na sua exposição de motivos invoca a tradição cristã da sociedade e cultura portuguesas para proibir a celebração de atos públicos de culto muçulmano. Considerou a Comissão da Liberdade Religiosa (onde estão representadas a Igreja Católica e as principais comunidades religiosas minoritárias), por unanimidade, que tal projeto de lei padece de inconstitucionalidade, por violação da liberdade religiosa e do princípio da igualdade e não discriminação.
As expressões desse livro na denúncia dessas correntes identitárias são claras e contundentes. Trata-se de um “cristianismo” «de cultura, que silencia as dimensões centrais da fé que são a conversão pessoal, a justiça social, a misericórdia e a fraternidade universal» (p. 54); que leva «não a converter, mas a excluir, não a amar, mas a maldizer» (p. 57); como se «a fé se tornasse um manual de combate, o Evangelho um código militar e Cristo trocasse a sua cruz por uma espada» (pg. 21).
É redutor confundir a mensagem cristã com um museu, um conjunto de tradições e sinais externos, um património cultural material a preservar, por muito rico que este seja. «Não nos tornamos cristãos por admirar uma catedral, um mundo cristão sem Cristo seria o pior dos mundos» (p. 69).
O que tais correntes esquecem e contrariam é a dimensão universal da mensagem cristã, que se dirige a todas as pessoas, independentemente da sua cultura. Jesus Cristo é o Salvador de todas as pessoas, não o «campeão de uma civilização contra outra» (p. 83), protagonista do conflito de civilização de que fala Samuel Huntington (p. 79).
Essa dimensão universal é bem evidente nas referências dos Evangelhos aos samaritanos (inimigos dos judeus), ou nas palavras de São Paulo quando proclama a unidade em Jesus Cristo, quando já não há «judeu, nem grego, escravo ou homem livre, homem ou mulher» (p. 150). A doutrina social da Igreja sempre condenou o nacionalismo (que nãos e confunde com o patriotismo), porque ele coloca uma nação acima das outras, como se ela fosse (porventura por causa da sua tradição cristã) privilegiada por Deus, ignorando o bem comum universal (p. 151). As ideias de Santo Agostinho sobre a ordo amoris (a preferência do amor para com os que nos estão mais próximos, familiares ou compatriotas) não podem ser distorcidas a ponto de justificar alguma forma de ódio ou hostilidade para com os estrangeiros, porque o amor cristão não exclui ninguém, como salientaram o Papa Francisco e o então cardeal Robert Prevost em resposta ao vice-presidente norte-americano J.D.Vance (p. 155).

“Essa dimensão universal é bem evidente nas referências dos Evangelhos aos samaritanos (inimigos dos judeus), ou nas palavras de São Paulo quando proclama a unidade em Jesus Cristo, quando já não há «judeu, nem grego, escravo ou homem livre, homem ou mulher.” Pintura: Paolo Veronese (1528–1588), Cristo e a Samaritana. Museu Kunsthistorisches,Viena. Foto © Wikimedia Commons
Duas observações me parecem pertinentes perante a leitura deste livro.
Eu não colocaria em contraposição o Evangelho e a identidade cristã (o título do livro poderá induzir nesse sentido, embora “identidade cristã” esteja escrita entre aspas). A verdadeira identidade cristã implica, acima de tudo, mais do que palavras, tradições ou sinais externos, o testemunho de fidelidade ao Evangelho. Essa fidelidade traduz-se no amor universal, para com todas as pessoas, mas também na confissão da fé cristã, no amor a Deus que se revela em Jesus Cristo. Não se traduz num simples humanitarismo aconfessional.
O autor reconhece, com preocupação, a crescente atração de jovens por estas correntes identitárias de pendor ultra-conservador. Eu não desistiria do diálogo com eles. Importa denunciar e corrigir os seus erros, mas sem deixar de os escutar e reconhecer as suas aspirações compreensíveis e com aspetos positivos. Não me parece, certamente, que devam ser excluídos daqueles “todos, todos, todos” a que se referiu o Papa Francisco em Lisboa.
Pedro Vaz Patto é Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.
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