A reflexão sobre o uso correto dos termos “diáconas” ou “diaconisas” tem ganhado destaque nos últimos anos, especialmente em comunidades cristãs católicas que buscam compreender melhor o papel das mulheres no ministério.
A questão não é apenas linguística; envolve também história, teologia e prática eclesial. Em português, a palavra “diácono” é tradicionalmente usada como substantivo comum de dois géneros, ou seja, pode designar homens e mulheres: o diácono, a diácona; já “diaconisa” é uma forma feminina criada posteriormente, por analogia com outras palavras terminadas em -isa (profetisa, poetisa). Embora seja comum em algumas tradições, não é necessária do ponto de vista gramatical.
Historicamente, a Igreja antiga conheceu mulheres que exerciam funções diaconais. Um exemplo clássico é Febe, mencionada por Paulo em Romanos 16:1 como diákonos da igreja de Cencréia. O termo grego é exatamente o mesmo usado para homens. Nos primeiros séculos, surgiram também as diaconisas, que desempenhavam funções específicas, especialmente no cuidado de mulheres, no batismo feminino e na assistência social. Em alguns contextos, o termo “diaconisa” passou a designar um ministério distinto do diaconato masculino; em outros, era apenas a forma feminina de diácono.

Ícone ortodoxo representando Santa Febe, uma das mulheres diáconos identificadas nos textos de São Paulo.
Hoje, diferentes tradições cristãs adotam práticas distintas: Igrejas que ordenam mulheres ao diaconato tendem a usar “diáconas”, reforçando que se trata do mesmo ministério exercido por homens. Igrejas que mantêm o termo “diaconisa” geralmente fazem-no por tradição ou porque entendem que o papel é diferente do diaconato masculino. Comunidades mais recentes preferem “diácona” por ser mais fiel ao original grego e por evitar distinções desnecessárias.
A escolha do termo, portanto, reflete a compreensão teológica de cada comunidade sobre o ministério feminino. Do ponto de vista gramatical, “diácona” é a forma mais correta e direta. Do ponto de vista histórico, ambos os termos têm precedentes. Do teológico, a escolha depende da visão da igreja sobre o ministério feminino. No entanto, cresce o consenso de que “diácona” expressa melhor a igualdade ministerial e a fidelidade ao texto bíblico. A pergunta “São diáconas ou diaconisas?” não tem apenas uma resposta. Ela abre espaço para refletir sobre a evolução da linguagem, o papel das mulheres na história da Igreja e a compreensão atual do ministério cristão. Independentemente do termo escolhido, o mais importante é reconhecer e valorizar o serviço dedicado, competente e espiritual das mulheres que exercem funções diaconais nas comunidades cristãs.
Há, porém, quem se arrogue a colocar o nome de “diaconisas” como uma “instituição”, mas não como “ordenação”, o que é, diga-se, uma forma de alteração substantiva àquilo que são as mulheres na Igreja Católica, agarradas a um preconceito masculino, aliás como demostra a rigidez expressiva das últimas discussões no Vaticano. Seria uma ótima ideia esta de instituir o ministério de “diaconisa”, como o de leitora ou acólita, fugindo ao dever de as “ordenar”, nas diferentes ordens, quer como presbíteras, quer como bispas. Assim, não há forma de esconder a realidade, a dignidade humana e acima de tudo os direitos humanos, quer insertos na sociedade, quer na própria leitura bíblica, inserta numa leitura pedagógica e andragógica. Pelo que hoje só poderemos chamar-lhes diáconas e nunca diaconisas.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.
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