Na era da máquina a alma é colocada em segundo lugar.
(Nise da Silveira, primeira psiquiatra do Brasil, 1905-1999)
No seu ensaio de 1994, Of Mimicry and man: the ambivalence of colonial discourse, Homi Bhabha aborda a identidade explicando que, a despeito de o colono ter interditado a cultura nativa do colonizado, obrigando-o a comportar-se, culturalmente, como ele-colono, este-segundo nunca chegará a sê-lo. Viverá sempre na fronteira ou na ambivalência entre o ser e o não ser. Imitará, mas não “chegará lá”, dada a condição humana (cada um é o que é, dependendo do seu contexto e experiências). Essa obrigação para a assimilação identitária é, também, uma indicação de desconhecimento da essência humana, que é a mesma.

“Homi Bhabha aborda a identidade explicando que, a despeito de o colono ter interditado a cultura nativa do colonizado, obrigando-o a comportar-se, culturalmente, como ele-colono, este-segundo nunca chegará a sê-lo. Viverá sempre na fronteira ou na ambivalência entre o ser e o não ser. Imitará, mas não “chegará lá”, dada a condição humana (cada um é o que é, dependendo do seu contexto e experiências).” Foto: Homi Bhabha. © literariness.org
Os homens são essencialmente iguais, embora, por desejo de impor à força, para implantar poderio, sempre se fez acreditar que existem categorias de seres humanos: os inferiores e os superiores, algo que tem sido contrariado pela Doutrina Social da Igreja Católica, que apregoa a igualdade e a justiça social. É baseada na fé e nessa justiça que deveria ser o fundamento da condição humana, que a Igreja alerta, através da encíclica Magnifica Humanitas, para a preservação e para a salvaguarda da dignidade humana, diante de máquinas e da automação por via da Inteligência Artificial (IA).
É dado adquirido que o diálogo entre homens e máquinas é premente e não tem retorno. Há circularidade, nesse desiderato. Na verdade, trata-se de um rubicão quanto à automação. A questão não é haver falta de desejo de “lá chegar”. Trata-se de uma impossibilidade para o acesso às máquinas. Isto está comprovado, já desde o debate sobre a industrialização.
Em Moçambique, a esse propósito, e falando sobre a ecologia, agricultura e consumismo, imposto pelo capitalismo, Severino Ngoenha, no seu livro O Retorno do Bom Selvagem: uma perspectiva filosófica africana do problema ecológico, defende a ideia de se viver “nem tanto à terra, nem tanto ao mar”, ou seja, nem tanto se mecanizar a terra e nem tanto se retornar ao idílico Tarzan. Talvez o desejássemos, mas o progresso já se iniciou e não há retorno, i.e., as águas do rio não retornam ao mar.
O mesmo se passa com a existência da IA. Não teremos como travar o seu avanço, mas podemos ter como regular o modo como ela poderá interferir nas nossas vidas. Podemos sempre revitalizar o diálogo sobre o progresso. Deverá haver um meio termo para regular o diálogo decisório homem-máquina, lembrando que acima do Homem, só existe Deus; portanto, as máquinas do capitalismo desenfreado estão longe desse escopo.
Recorro àquela obra para falar sobre a Magnifica Humanitas, porque esta carta recorda-me a proposta de Ngoenha de que a decisão sobre o bem-estar das sociedades não deverá ser colocada nos extremos. Essa obra de Ngoenha recorda-me uma ideia lançada nos anos 70, popularizada nos anos 90 e que ainda hoje faz sentido: “Pensar globalmente, agir localmente”.
Pode-se chegar a um modo de vida que seja global? Pode, mas que o facto não signifique sacrificar a humanidade, ou seja, não deverá ser correndo para a automação, sem o conhecimento ou sem integrar os contextos, sob pena de “uns” nunca serem eles próprios, serem os mimicry man teorizados por Bhabha e viverem sempre sobre a batuta da ditadura do capitalismo.
Uma cirurgia na China para um doente em Moçambique

“Ele (o médico)é quem estará junto do paciente e foi ele quem jurou Hipócrates, não a máquina. Refiro-me a esse juramento antigo, mas actual no que à preservação da vida diz respeito.” Foto: Cirurgia à distância. © Portal 5G (ANACOM)
Integrando esse pensamento na encíclica em debate, homem-máquina-Deus, diria que mais do que a ética, a moral, a responsabilidade e o discernimento necessários para salvaguardar a dignidade humana e o valor da vida, é imperioso que, em qualquer lugar do planeta a utilização da IA considere a preservação da espécie humana; de igual modo, a partilha de saberes a ela inerente é urgente e implementada de modo progressivo, através de políticas afirmativas e de uma abordagem assente na justiça social.
Dou um exemplo concreto: quando, a partir da China, se pode comandar uma cirurgia através de uma máquina, num paciente que esteja em Moçambique, essa operação deverá ser e saber que aquele ser humano, o médico, deverá conhecer a máquina que o orienta. Além disso, deve estar ciente de que ainda que esse instrumento esteja na dianteira e a funcionar a partir de um país com melhores e maiores habilidades para se lidar com tecnologias, o médico deverá ter primazia na decisão relativa à matéria em questão, a tal cirurgia. Ele é quem estará junto do paciente e foi ele quem jurou Hipócrates, não a máquina. Refiro-me a esse juramento antigo, mas actual no que à preservação da vida diz respeito. Não discuto, neste momento, outros teores e sentidos da mensagem nele contida.
Mais do que isso, sabe-se que a velocidade de transmissão de meta dados de qualquer lugar do mundo, para Moçambique, é pejada de entraves que muitas das vezes abortam ou não facilitam as comunicações em telefones ou em transações bancárias. Por isso é que o instante entre o comando de uma máquina (em cirurgia, a partir da China, para Moçambique) e a verificação das reacções do paciente dependem muito do humano-médico, que deverá tomar decisões e ajustar o contexto operatório ao que vê. Pode haver uma dessincronia entre reacções humanas, o encaminhamento de máquinas e a decisão para uma solução que salve vidas, que deve sempre depender do médico.
Além disso, escuso de recordar que os curandeiros, diante de um processo de pedido de cura, afirmam sempre que irão conseguir realizá-la, se Deus quiser. Por outro lado, muitos são os médicos que, antes de realizar uma cirurgia rezam ou apelam às ciências da alma, colocando na sala de operações música suave que ajude a descomprimir o stress e apele à calma. Há, nos dois processos, quase que uma súplica a algum ente superior à sabedoria necessária para o momento. Os saberes das máquinas e dos instrumentos com que se opera não significam tudo. São um caminho e não o fim.
Esse cenário de dependência de máquinas, sobretudo do exemplo daquelas guiadas a partir de um lugar de alta tecnologia, para outro de baixa ou nenhuma, remetem para a importância da atenção com a justiça social e a partilha de bens essenciais para a salvaguarda do valor da vida. Este processo, se mal gerido, perpetua o mimicry and man. O que acabo de referir constitui um desvio ao debate sobre a automação em si e vai para o caso de carência de bens; o que demonstra que a discussão em torno da IA pressupõe diálogo entre disciplinas científicas e é para isso que nos remete a Magnifica Humanitas: diálogo sobre a existência da automação em si e de todos os elementos inerentes à sua aplicação e efeitos sobre o valor da vida humana; por isso é que se fala da “construção da civilização do amor”. A questão é que as máquinas são padronizadas e as reacções humanas não o são. Deve haver um diálogo entre ambos. Quem não for fabricante da máquina, deve conhecê-la devidamente, para poder operá-la.
Decisões, liderança, alma e confiança

No filme Ex Maquina, “Caleb, um dos personagens é manipulado por Ava, uma máquina que tendo aprendido a habilidade de ler sentimentos humanos, seduz o humano Caleb e o abandona.” Imagem do trailer do filme Ex Machina.
Ainda que haja diálogo, o que me parece sugerir a carta encíclica Magnifica Humanitas, nos seus capítulos II e IV (respectivamente: “Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja; A igual dignidade dos seres humanos”) e a construção da civilização do amor e da revitalização do diálogo, recorda-me o filme Ex Machina que, sendo ficção, temo que vire realidade em algum momento ou que a ilumine. Nessa fita, Caleb, um dos personagens é manipulado por Ava, uma máquina que tendo aprendido a habilidade de ler sentimentos humanos, seduz o humano Caleb e o abandona.
Considerando esses dois capítulos da carta encíclica, vejo a importância de o homem reaprender a amar humanos, respeitar máquinas – sobretudo compreendê-las, antes de as utilizar. Essa compreensão seria o tal diálogo de inteligências, uma vez que não se pode duvidar da capacidade de uma criação (máquina) suplantar as capacidades para as quais tenha sido criada. No caso do filme, não se tratou de a máquina exceder as suas competências. O que se passou é que o seu criador, Nathan, a programou para testar a sua capacidade de manipular sentimentos humanos.
Complementarmente, e voltando ao exemplo de uma máquina que comanda uma cirurgia, em Maputo, a partir da China, se o médico em Moçambique não conhecer as componentes e o funcionamento dessa máquina, se ele não souber dialogar com ela, serão suficientes os convénios de saúde a serem assinados pelas entidades de saúde, tanto na China, quanto em Moçambique? Até que ponto será fácil o diálogo e a confiança entre humanos e o mesmo fenómeno entre uma máquina e um homem? Quais é que são os limites da verdade, da ficção e da confiança nesse processo?
São reflexões que a Magnifica Humanitas nos remete a realizar. Não se trata de negar a existência ou a convivência com a IA, até porque, na mensagem do Papa Francisco, por ocasião do encontro AI Ethics For Peace, que teve lugar em 9 e 10 de Julho de 2024, em Hiroshima, já se aceitava essa convivência, ressalvando-se a dignidade humana, apelando-se ao ajuste da IA à complexidade de cada nação, sendo aplicada sem fake news e de modo transparente. Isto significa, para mim, que as decisões, a liderança, a alma e a confiança maior devem ser colocadas no homem, que antes de instruir a máquina, deve saber que resultados é que ela deve trazer ou, antes de a utilizar, deve saber o que é que se pretende que ela produza como resultado.
Sara Jona Laisse é membro do Graal-Moçambique – Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br
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