O trabalho de tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) continua a avançar, com a divulgação de mais uma proposta de texto, desta vez para o Livro de Rute. Com apenas quatro capítulos, esta “pérola literária” coloca uma mulher estrangeira no centro da narrativa e constitui um apelo ao acolhimento dos não israelitas na sociedade de Israel.
Rute é uma mulher moabita que casa com um israelita e acaba por se tornar antepassada do rei David. A sua história começa em Moab, para onde Elimélec, natural de Belém, se refugiara com a mulher, Noemi, e os dois filhos, durante um período de grande carestia.
Um dos filhos do casal casa com Rute, mas morre pouco tempo depois, deixando-a viúva. Quando Noemi decide regressar a Belém, Rute acompanha-a e acaba por fazer daquela terra também a sua. Aí conhece Booz, um parente de Elimélec, com quem viria a casar. Da união nasce Obed, avô do rei David.
Esta narrativa – recordam os tradutores em comunicado enviado ao 7MARGENS – situa-se na época dos Juízes, entre a morte de Josué e o início da monarquia, e prolonga-se por vários anos, atravessando um período de fome e outro de bem-estar.
Além da sua qualidade literária, o livro “ajuda a compreender antigos costumes de Israel”, assinala a equipa de tradução, sobretudo os relacionados com a família, o papel decisivo da mulher dentro e fora dela e os deveres para com os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Refere também tradições judaicas como o levirato — o dever de um homem casar com a viúva do irmão — e o resgate, através do qual um familiar assumia a responsabilidade de proteger os bens e a descendência de um parente falecido.
O lugar central atribuído a uma mulher moabita assume particular significado numa obra cuja redação final terá ocorrido no século V antes de Cristo, depois do regresso do exílio da Babilónia, numa época marcada por alguma insegurança no relacionamento com os estrangeiros. A história de Rute constitui, assim, um apelo ao seu acolhimento, na linha do que acontece também no Livro de Jonas.
“De forma discreta, o livro de Rute insiste sobretudo nos matizes de conteúdo. Sem recorrer a personagens sobrenaturais, como acontece na literatura bíblica mais próxima da época helenística, o livro de Rute apresenta Deus a conduzir os acontecimentos da história, atravessando experiências dolorosas, mas atingindo objetivos consistentes”, pode ler-se no comunicado. “Apesar da sua discrição, Deus conduz a história, levando-a a bom porto. Em todas as circunstâncias, Javé é o Deus fiel e generoso em que Israel pode confiar de forma incondicional”, conclui.
A proposta agora divulgada dá continuidade ao trabalho desenvolvido pela comissão coordenadora, que já disponibilizou, entre outros textos, as traduções provisórias do Livro de Joel ou do Primeiro Livro dos Macabeus.
Como tem acontecido com os restantes livros, a Comissão Coordenadora da Tradução da Bíblia da CEP convida a comunidade a participar no processo de revisão e a contribuir para melhorar a compreensibilidade do texto. A tradução provisória está disponível para descarregar no site da Conferência Episcopal Portuguesa e as achegas e comentários podem ser enviados para o endereço eletrónico biblia.cep@gmail.com.










