Fixa o teu olhar no espelho da eternidade, deixa a tua alma banhar-se no esplendor da glória
e une o teu coração Àquele que é encarnação da essência divina, para que, contemplando-O,
te transformes inteiramente na imagem da sua divindade.
(3ª Carta a Santa Inês de Praga)
Ao celebrar os 800 anos da morte de São Francisco de Assis, devemos conhecer também Santa Clara, que o seguiu de perto na vida de pobreza, no amor ao próximo e a Cristo pobre. Clara nasceu num lar católico e nobre, em Assis, no ano 1194, onde aprendeu a fidelidade ao batismo e a procura humilde da vocação que Deus lhe destinara. Dias antes do seu nascimento, a mãe, em oração, ouviu esta frase: “Vai nascer de ti uma luz que iluminará o mundo inteiro”, que sintetiza o modo como a santa ilumina os valores cristãos e femininos com uma força profética sempre atual.
No Domingo de Ramos de 1212, Santa Clara consagrou-se ao seguimento do Cristo pobre pelas mãos de São Francisco. Com a sua irmã Inês e outras companheiras, começou a viver em fraternidade no mosteiro de São Damião. Sob a orientação de Francisco, aceitou a Regra de São Bento e assumiu o título de abadessa. Fruto de quatro anos intensos de oração, o Papa Inocêncio III concede-lhes o Privilégio da Pobreza, garantindo o direito de viver sem possuir nada, podendo assim «Abraçar o Cristo pobre como virgem pobre» (como se lê nas cartas de Santa Clara).

Retábulo da Igreja de Santa Clara, Porto, retratando Clara de Assis a repelir os sarracenos com o ostensório. Foto: DR
Apesar de adoecer gravemente em 1224, Clara lutou incansavelmente pela sua vocação. O Papa Gregório IX visita-a, em 1228, em São Damião e reconfigura o Privilégio da Pobreza. Santa Clara, convicta de que a Igreja é Mãe, fez greve de fome a fim de que o Papa aprovasse a Forma de Vida do Santo de Assis, mas o pontífice preferiu a regra de São Bento. Encorajada por Santa Inês de Praga, escreveu a regra de vida para a sua comunidade – a primeira regra monástica feminina escrita por uma mulher. A aprovação pelo Papa Inocêncio IV chegou a 9 de agosto de 1253, dois dias antes da sua morte. Foi canonizada em 1255 e, em 1263, a sua comunidade foi oficializada como Ordem de Santa Clara, que continua a ser a ordem contemplativa mais numerosa da Igreja.
Em setembro de 1240, soldados sarracenos ao serviço do Imperador Frederico II cercaram Assis e invadiram o claustro do Mosteiro de São Damião. Clara, mesmo enfraquecida e acamada, pediu para ser levada à porta com o ostensório contendo o Santíssimo Sacramento. Em oração, ouviu-se uma voz vinda do Tabernáculo prometendo proteção. Ao avistarem a custódia radiosa e vendo a fé de Clara, os invasores foram tomados de um pavor súbito e fugiram. Ela respondeu com fortaleza ao ecumenismo: não cedeu ao diálogo, mostrou que Christus Imperat!
A vida de Santa Clara foi conhecida por uma vida virtuosa e ascética; contudo, a sua hagiografia regista alguns episódios milagrosos. Vivendo o espírito da pobreza, a vida das irmãs não era faustosa, mas a santa confia na Divina Providência e abençoou meio pão que alimentou cinquenta irmãs da comunidade, bem como um vaso vazio que se encheu de óleo após a sua oração. Com uma vida repleta de Deus, libertava as pessoas perturbadas de males espirituais com orações intensas ou curava feridas, traçando sobre elas o sinal da cruz. No entanto, há que destacar dois episódios: a visão da Missa do Galo e a repulsão dos Sarracenos. Impossibilitada pela doença de assistir à missa da Noite de Natal, Clara chorava por não poder estar presente na igreja. Mas Deus concedeu-lhe a graça de ver e ouvir com nitidez toda a celebração eucarística a quilómetros de distância, diretamente da parede do seu quarto – episódio que levou o Papa Pio XII a proclamá-la padroeira da televisão. Lembrada na Igreja como virgem e abadessa, Santa Clara é também padroeira dos casais com dificuldade em terem filhos, dos noivos, juízes, costureiras e navegantes e sempre lhe foi dedicado muito carinho e veneração.

Santa Inês de Praga, autor desconhecido. Imagem reproduzida da Wikimedia Commons
Clara de Assis é das poucas mulheres medievais que deixou escritos, mas deles não saiu palavra vã. As cartas destinadas a Santa Inês de Praga e a Ermentudis revelam a feminilidade, delicadeza, misticismo e a autenticidade do seu espírito. O género epistolar é o lugar favorável para conhecer o coração humano de Santa Clara e o modo como trata a amizade, as aspirações da alma e a contemplação amorosa (oração) transformante em Cristo. Ainda que escreva para monjas, os seus escritos devem ser lidos por jovens mulheres em qualquer estado de vida; pois, nas palavras da Santa de Assis encontramos um asilo ao feminismo. Inspirada biblicamente reflete sobre humildade, pobreza, pureza, alegria, da união à Mãe dulcíssima ou maternidade espiritual, da espiritualidade esponsal e a evolução espiritual da mulher franciscana. A resposta discreta daquela que foi a primeira mulher a escrever uma regra, ensina mais sobre o que é o «ser mulher» do que o feminismo alguma vez fará.
Elsa Vivo é aluna de Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e catequista na paróquia de Queluz.
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