Neste período que para muitos é de férias, convidamos os leitores e colaboradores do 7MARGENS a escrever sobre uma música, um livro, um disco, um filme ou uma obra de arte que tenha marcado, de forma especial, um dos seus verões.
Publicamos a seguir o décimo terceiro texto dessa rubrica, que intitulamos “Trago comigo”, remetendo para a ideia de alguma coisa pessoalmente significativa que cada qual guarda na sua memória.
Os livros de férias, ou nas férias, ou com férias, ou para férias. Qualquer preposição serve. Eles estão sempre lá, mesmo quando pegamos neles na esplanada, na praia, no relvado da piscina, e passados uns minutos os esquecemos perto enquanto o olhar se perde em qualquer horizonte. Ou mesmo que não sejam as férias na verdadeira aceção de palavra. Pode ser só um momento de liberdade no comboio, ou até no metro. Muitas vezes, quando me desloco na cidade, de preferência no Metro Póvoa do Varzim, mais confortável e arejado, lembro-me de passagens de “A morte de Ivan Illittch”, de Léon Tolstoi, ou de “História do do Rei Transparente”, de Rosa Montero, que li enquanto viajava.
É difícil escolher um. Eles têm-me informado sobre o momento em que as férias estão a produzir o efeito desejado. Em julho, o cansaço tem sido muito e é difícil concentrar-me na leitura. Progressivamente, as páginas vão-me agarrando, até as levarmos para todo o lado, apesar do peso.

Um critério simples: o das últimas férias. Salvou-me do efeito demolidor da onda de calor que assolou as Beiras em agosto de 2025. Na frescura do quarto, enquanto o sol tórrido devorava as primeiras horas da tarde, eu não dormia. Olhava pela janela fechada as folhas da nogueira, que não buliam e ainda resistiam na pujança do seu verde. E lia “Ernestina”, de José Rentes de Carvalho. As viagens até ao Douro, descritas com detalhe e realismo, lembravam-me as que eu fazia, na infância, até à Régua, apesar de entre ambas haver uma distância de décadas. Talvez a descrição do Portugal de então, marcado pela pobreza e pela dureza de códigos sociais, não seja recomendável para a manutenção de um clima ameno e descontraído que pretendemos nas férias. Mas há a beleza da escrita, o humor, ainda que misturado com uma certa amargura, e a surpresa final. (Pensavas tu, leitora de muitos livros, que o título era uma homenagem à figura materna, mãe é sempre mãe, mesmo que imperfeita?)
Enquanto tivermos um livro a que desejamos regressar, ou em casos extremos, que evitamos ler para não chegar ao fim, vamos aguentando as ondas de calor que assolam as Beiras.
Dulce Vilas Boas é professora em Gondomar.










