A expressão “no pain, no gain” (em português, “sem dor, sem ganho”) popularizou-se em 1982, com o filme Rocky III, por ser usada durante os treinos intensos da personagem Rocky Balboa, interpretada por Sylvester Stallone. O lema ganhou ainda maior destaque nessa mesma década, com os vídeos de exercício aeróbico de Jane Fonda – impossível não lembrar o seu “feel the burn”.
O que é facto é que, ainda hoje, esta expressão é um dos chavões motivacionais mais usados e conhecidos no mundo do fitness e do culturismo, seguindo a lógica de que um treino tem de implicar dor, pois se não há dor, não há desenvolvimento muscular, logo não há bons resultados.
Ao longo dos anos, esta ideia foi transpondo a barreira do desporto e do ginásio, transformando-se numa espécie de frase omnipresente. Passámos a vê-la em fundos de ecrã, em post-its no escritório, a ser repetida até à exaustão nos talk shows da moda, no coaching motivacional e nos discursos de liderança, invadindo em seguida o ambiente social, escolar e familiar, generalizando a ideia de que para se ser bem-sucedido, para ter sucesso, para singrar na vida, na escola e nos negócios, é preciso ter dores agudas e viver num sofrimento atroz.
Mas… será?
– Como é que uma expressão, originalmente utilizada para transformação física, se transforma neste dogma tóxico que confunde sofrimento com eficiência?
– Como é que a cultura corporativa adotou o “sem dor, sem ganho” para validar as jornadas exaustivas e o abdicar da vida pessoal?
– Como é que se passou a apontar o cansaço extremo – que reduz a capacidade cognitiva, a criatividade e a tomada de decisões – como caminho para o sucesso, mesmo sabendo que muito esforço com pouca clareza costuma ser sintoma de má gestão e não de empenho?
– Como é que nos deixámos condicionar e passámos a sentir a culpa pelo que é fácil, pelas conquistas fluidas, prazerosas ou eficientes, assumindo que têm “menos valor” só por não terem custado sangue, suor e lágrimas?
– Como é que nos deixámos cair na armadilha de criar hábitos que desligam os alarmes internos do corpo e da mente, conduzindo-nos à exaustão?
Depois de décadas a repetir “no pain, no gain” como se fosse uma lei universal, acabámos por transformar uma frase de ginásio num dogma que legitima a exaustão, glorifica o desgaste e confunde sofrimento com mérito. E, no entanto, basta olhar para um exemplo maior — aquele que atravessa os séculos — para perceber como esta lógica se desfaz: Jesus não viveu segundo a pedagogia da dor produtiva, nem fez da cruz um método de superação. A dor que encontrou não foi estratégia, foi consequência de amar num mundo que resiste ao amor. E o ganho – a vida nova – não nasce do sofrimento, mas da graça que o atravessou. É por isso que, no cristianismo, o verdadeiro progresso não vem da exaustão, mas da fidelidade ao que humaniza.
“A minha graça te basta, porque é na fraqueza que se manifesta plenamente o meu poder” (2 Cor 12,9)
Talvez o que nos falte não seja a “meritocracia da dor”, mas mais lucidez: perceber que o esforço inteligente, a recuperação, a clareza e a ternura constroem mais futuro do que qualquer culto da resistência cega. No fim, o que transforma não é a “dor”, é o amor que não abdica, e isso, sim, é o ganho real.
Todos os dias nos cruzamos com frases feitas e dogmas do senso comum. Funcionam como atalhos mentais confortáveis, mas raramente resistem a quem se atreve a questionar. É aqui que nasce o Lugar (in)comum.
Esta rubrica surge para desarmar os automatismos da linguagem e dar espaço ao espírito crítico. Queremos desmontar as certezas absolutas que bloqueiam o debate de ideias, substituindo a reflexão por muletas intelectuais que encerram as conversas antes do tempo.
Porque as palavras que repetimos moldam a forma como pensamos. E levar estes clichés demasiado a sério não é sabedoria — é uma preguiça mental que nos afasta do essencial.
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Equipa de Comunicação e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.
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