AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

[Entre Margens]

Peregrinação de férias pela Euro-Ásia

| 22/09/2026

 

Como foram as férias, perguntaram-me. Dei estas respostas.

Foram mesmo de peregrinação coordenada pelo Seminário de Almada e organizada por Pteam. Incluíram-me à última da hora. Valeu como um retiro de oração, reflexão, celebrações eucarísticas diárias em lugares cristãos. O que mais me motivou foi poder visitar Tarso, cidade natal de São Paulo, e Niceia (Iznik) onde em 325 se realizou o primeiro concílio da Igreja com mais de 300 bispos do mundo cristão. Foi uma graça visitar Esmirna grande cidade das origens do cristianismo e celebrar na basílica do seu primeiro bispo, São Policarpo que, em1988, com o padre Manuel Nogueira, em processo de beatificação, não pude visitar por ninguém atender ao toque da campainha do quarteirão. Outra alegria foi visitar de novo a casa-capela em que Nossa Senhora viveu os últimos anos no Monte Coressos, nas imediações das ruínas da cidade de Éfeso, muito referenciada nos Atos dos Apóstolos. A capela foi descoberta mediante os dados das visões de Catarina Emerich. Já foi visitada por alguns Papas que aí celebraram. A capela, como há quatro anos, era visitada por fila contínua de peregrinos. O nosso grupo celebrou no convento franciscano, ao lado.

“A capela foi descoberta mediante os dados das visões de Catarina Emerich.” Foto: Casa capela, no monte Coressos, nas imediações das ruínas da cidade de Éfeso e onde supostamente Maria faleceu.  © Andreas Husemann | Wikimedia Commons

Na Capadócia de mistérios infindos, e não apenas terra de cavalos, celebrou-se numa sala de hotel. Numas breves palavras referi o meu sonho-desejo que Nossa Senhora de Éfeso iria tornar cristão todo este grande país. Daqui a cem, quinhentos, mil anos? Não sei. Para Deus o tempo não conta como para nós, sempre ansiosos e apressados. Capadócia é um puzzle de mistério cristão, que se estende por toda a Turquia e aos arredores de encruzilhadas de povos de culturas gregas, romanas, cristãs, bizantinas, turcas, otomanas, islâmicas… Ainda na Capadócia, das muitas igrejas escavadas na rocha vulcânica de arenito em diversos séculos, outra missa foi na igreja de Nossa Senhora (Avanos), igualmente escavada, tosca e “nua” de mobília, em lugar ermo que é usada, ocasionalmente, por grupos de peregrinos. Sentimo-nos a celebrar nas catacumbas como no tempo de Roma.

Se acrescentarmos que os guias falam de centenas de igrejas e capelas, só na Capadócia, e abrigos e cerca de quarenta cidades subterrâneas, não se consegue explicar todo o puzzle histórico qualificado da oitava maravilha do mundo. O grupo observou com espanto os labirintos de uma das cidades. Espantam ainda mais os belos frescos evangélicos das paredes de algumas igrejas escupidas na rocha. Alguns tão belos que parecem acabados de pintar. Nem os textos eruditos dos investigadores sossegam os leitores perante tantos redemoinhos de povos que desde a pré-História cruzaram estas áreas e deixaram as suas marcas que a natureza vulcânica e a erosão ornamentaram de figuras fantasmagóricas. São concentrados de fragmentos históricos, religiosos, evangélicos: igrejas, abrigos e cidades, esconderijos de proteção e de culto clandestino.

Em comparação com outras peregrinações, não diria que esta peregrinação pela Europa/Ásia seja tão importante como a da Terra Santa e Jerusalém, santificada pela vida incarnada do Filho de Deus. É, certamente, uma extensão dela. Nesta perspetiva, teríamos que incluir outros grandes fragmentos de todo o Médio Oriente: Arménia, Síria, Iraque, Egito, Império Romano e o Mundo Islâmico. Não se compreende tudo, mas medita-se. A igreja do grande São Basílio no museu de igrejas em Göreme, muito tosca e pequena, é um misto de capela e cemitério com sepulturas abertas e duas com ossos.

Igreja de São Basílio escavada na rocha. Turquia

“A igreja do grande São Basílio no museu de igrejas em Göreme, muito tosca e pequena, é um misto de capela e cemitério com sepulturas abertas e duas com ossos.” Foto: Igreja de São Basílio escavada na rocha. Turquia. © RE Hawkins | Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Será que podemos aproximar as duas realidades culturais, fiquei a interrogar-me: o mundo greco-romano como terreno preparado para a evangelização e o cristianismo; e, mais hoje, mais amanhã, longínquo, incógnito, a camada cultural islâmica, para nova fase de evangelização cristã. Estes dias de peregrinação inclinaram-me para esta hipótese. É certo que não predomina nem a liberdade religiosa (cf. os Relatórios da Ajuda à Igreja que Sofre) nem transparece a crítica histórica, mas podem vir a emergir e vir a cumprir-se o dito: “Deus escreve direito por linhas tortas ou curvas” quando for o seu desígnio. Fiquei ainda a pensar que a Turquia vive o dilema do turismo-dinheiro em crescimento e a sua pressão religiosa cristã sobre a cultura islâmica, mas não árabe.

Se gostaria de peregrinar por mais alguns países, perguntam-me. Sim, por países da Europa, dos Balcãs, por exemplo, a Arménia e a Geórgia; para mergulhar nas suas culturas de misturas cristãs. Não estou a dizer que isso faz falta à minha realização humana e de consagrado. Penso, apenas, que enquanto o Senhor nos der vida por cá e alguma saúde, fica a obrigação de dar frutos para o bem comum e a evangelização. Somos sopros do Espírito, fermentos e sementes de evangelização do Reino de Deus, somos solicitados a ser peregrinos de coração, mãos e comunhão dos santos.

Se foi importante a visita a Tarso, com celebração na igreja de São Paulo, as reflexões à base dos Atos dos Apóstolos e Cartas Apostólicas, muito pertinentes, sobre a sua vida apostólica e as comunidades e Igrejas da Ásia Menor que ele evangelizou, a visita a Niceia foi a chave de ouro da peregrinação. Logo na aproximação de autocarro por mais de 30 kms surgiram dois grandes marcos: um olival ininterrupto que ladeia um imponente lago em cuja orla se situa a cidade. Sugeriram-me temas para as reflexões que referi na missa que me pediram para presidir numa belíssima capela com um magnífico mosaico de apóstolos e uma boa apresentação no rés-do-chão de um prédio. Um dos temas foi o do azeite como bálsamo de conforto e paz a simbolizar o Espírito Santo que recebemos no batismo, crisma, ordenação e unção dos doentes; o lago leva-nos para o de Tiberíade, da tempestade, da pesca milagrosa, do “segue-Me” das chamadas a alguns apóstolos e das perguntas a Pedro: “tu amas-Me”? E para nós, serviu, ainda, para à sua borda almoçarmos peixe já à vista das ruinas do local do Concílio de Niceia (325), do Credo que recitámos a afirmar a nossa fé na divindade de Cristo Filho consubstancial ao Pai. A visita a esse local deu para continuar a reflexão sobre as tempestades  e calamidades, ontem, hoje e amanhã; sempre com Cristo ao lado; e a repensar no erro de Ário de confundir Cristo com um fantasma, como os apóstolos ao vê-Lo a andar sobre as águas do lago, e não verdadeiro Deus que segurou Pedro e não o deixou afundar, como hoje e sempre não deixará afundar a sua Igreja.

Peregrinação  aos locais cristãos da Turquia, Agosto 2026

Patriarca Bartolomeu, Leão XIV e outros líderes cristãos em Niceia 28 nov 2025. 2 Foto VM

” (…) surgiram dois grandes marcos: um olival ininterrupto que ladeia um imponente lago em cuja orla se situa a cidade.” Foto: Patriarca Bartolomeu, Leão XIV e outros líderes cristãos em Niceia 28 nov 2025.  © Vaticano Media

Aires Gameiro é padre da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, licenciado em Psicologia e doutorado em Teologia Pastoral da Saúde. Foi director da revista Hospitalidade e de duas Casas de Saúde do Instituto S. João de Deus; é membro honorário da Academia Portuguesa da História. 

 O 7MARGENS aceita e incentiva a reflexão e o debate livre e plural. Os textos de opinião publicados traduzem a opinião dos seus autores.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Estás tão bem para a idade!”

[Lugar (in)comum]

“Estás tão bem para a idade!” novidade

“O envelhecimento passou a ser um exame contínuo, em que a nota de passagem é parecer ter, no mínimo, menos dez anos. E quem falha o teste – quem ganha rugas, assume os cabelos brancos, ajusta o tom da voz ou desacelera o ritmo – é visto como desleixado, como se envelhecer não fosse a consequência lógica de estar vivo.” [Texto de Júlia Costa]

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This