A democracia não começa quando se entra numa assembleia de voto. Começa muito antes: quando se espera pela vez de falar, se escuta uma opinião diferente, se aceita uma regra que também se aplica a nós ou se perde uma votação sem deixar de fazer parte da comunidade. É desta ideia que o novo episódio de Entre o Quadro e o Mundo, que olha para a relação entre escola e democracia.
A propósito do Dia Internacional da Democracia, que se assinalou no passado dia 15 de setembro, Luís Francisco questiona onde e como se aprende a viver democraticamente. Conhecer as instituições, a separação de poderes, os órgãos de soberania, os partidos, as eleições e os direitos fundamentais é indispensável. Mas, observa o autor do podcast, é possível saber como funciona formalmente uma democracia e nunca ter vivido uma verdadeira experiência democrática.
“Podemos saber quem aprova as leis e não saber escutar alguém de quem discordamos”, afirma o também professor, acrescentando que podemos conhecer os nossos direitos e ignorar as responsabilidades que lhes correspondem, assim como podemos defender a liberdade de expressão enquanto ninguém contesta aquilo que dizemos.
Recorrendo ao pensamento de John Dewey, o episódio apresenta a democracia não apenas como uma forma de governo, mas como um “modo de vida” construído através da comunicação, da participação e da experiência. E a escola surge como um dos seus primeiros espaços de aprendizagem.
Até porque é ali que crianças e jovens convivem durante anos com pessoas que não escolheram e que são diferentes nas origens, capacidades, interesses, crenças e expectativas. Uma espécie de “laboratório democrático”, onde é preciso aprender a esperar, negociar, discordar, fundamentar opiniões e aceitar limites.
Mas participação não significa que todos devam decidir tudo. A escola não é uma “assembleia permanente” e democracia não é ausência de autoridade. O desafio está em distinguir autoridade de autoritarismo e perceber se a autoridade exercida é “legítima, explicável e responsável”.
O episódio coloca também uma pergunta sobre a participação dos alunos. Associações de estudantes, assembleias de turma, delegados, conselhos, orçamentos participativos ou o Parlamento dos Jovens são instrumentos importantes. Mas existe participação verdadeira quando a intervenção dos alunos não pode alterar nada?
Uma “democracia de brincar”, alerta Luís Francisco, pode produzir “cidadãos de brincar”: pessoas habituadas a participar em processos formais, mas convencidas de que a sua intervenção nunca muda verdadeiramente coisa alguma.
Outro dos desafios está na capacidade de discordar. Num tempo em que as redes sociais favorecem espaços onde encontramos sobretudo quem pensa como nós, a pessoa que discorda pode deixar de ser vista apenas como alguém que tem outra opinião e passar a ser classificada como ignorante, absurda ou moralmente suspeita.
No final, Luís Francisco Marques regressa à pergunta que atravessa todo o episódio: “Que democracia estamos a ensinar quando só queremos ouvir aqueles que dizem aquilo que gostamos de escutar?”.
Porque, conclui o autor, a democracia não cabe inteiramente num manual. Aprende-se na forma como se distribui a palavra, se exerce a autoridade, se trata quem discorda e se responde pelas próprias escolhas.
O novo episódio de Entre o Quadro e o Mundo pode ser ouvido na íntegra a seguir.













