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Paul Klee, 1923, O Navegante. Museu de Arte de Basileia, Suíça

[Arquipélago Jerusalém]

Logo ao sair da água, viu os céus rasgarem-se …

 

Acordamos e consultamos as notícias e fica a impressão que o mundo está muito desarrumado e que somos impotentes para o modificar; que pouco podemos fazer contra a ideologia  trumpista, putinista e xijinpinguista – que mistura consumismo e força bruta: preciso de poder comprar o que quero e, se não puder comprar, posso tomá-lo à força. A propaganda alcança o seu fim quando já dispensamos o propagandista e passamos nós próprios a repeti-la.

Esta impressão de impotência tem razões sérias. Há guerras em cadeia, desigualdades agravadas, instituições desacreditadas e circulação maciça de mentiras. Também perdemos o futuro que julgávamos contratado: democracia em expansão, prosperidade crescente, filhos com uma vida melhor. Durante demasiado tempo, confundimos uma conjuntura favorável com uma garantia vitalícia, e agora custa-nos distinguir o fim dessa ilusão do fim da história. A primeira tarefa consiste em aprender a habitar um futuro sem certificado de garantia.

Há dois verbos gregos que esclarecem e ajudam a nossa condição: baptizo, ser mergulhado, e esquizo, rasgar. No Evangelho de Marcos, quando Jesus emerge da água do batismo, vê os céus rasgarem-se; na sua morte, rasga-se o véu do templo. O mesmo verbo liga os dois momentos. Podemos ler nesta composição uma imagem da vida nova: uma travessia que nos envolve por inteiro, uma abertura onde parecia existir uma separação intransponível.

Mergulhar. Atravessar experiências que nos desfazem as certezas, obriga-nos a reconhecer muita coisa. O mergulho na crise expõe dependências, medos, injustiças. Rasgar. O rasgão abre uma passagem no que se apresentava como inevitável. Nenhum sofrimento garante redenção pois a transformação depende do que fazemos dentro dela. Há quem aproveite as feridas para recrutar inimigos e quem encontre nelas a obrigação de reconstruir vínculos.

A democracia precisa de compreender o desejo de viver melhor que leva tantos eleitores a escolher quem a enfraquece. Por baixo da adesão aos megalómanos imperiais e provincianos que prometem “sermos outra vez grandes” existe a frustração muito real de trabalhar sem melhorar de vida, falar sem ser ouvido, votar sem ver consequências, ser desalojado e abandonado. Escutar os que se sentem abandonados exige firmeza contra a mentira, e imaginação e oferecer participação efetiva. A indignação dos soundbytes e os apelos tipo ONU satisfazem-se a si próprios; fazer obra é mais difícil.

Os partidos do “centrão europeu” que administram a desigualdade como fatalidade e reduzem a política à gestão contribuíram para o descrédito de que hoje se queixam. Recuperar confiança exige escolhas claras: habitação acessível, serviços públicos capazes, trabalho digno, decisões explicadas e responsabilidades assumidas. Só uma democracia que devolve aos cidadãos poder sobre a vida quotidiana ganha condições para agir no mundo. A fragilidade interna cobra-se também na política externa, onde a declaração solene facilmente substitui uma estratégia.

A esperança requer ainda uma relação adulta com o progresso. Cada conquista precisa de manutenção, recursos, instituições e pessoas que a defendam; uma criança que sobrevive, uma família que encontra casa, uma comunidade que recupera ambiente não poluído. A escala do desastre nunca torna essas vidas insignificantes. Aceitar a dureza dos factos e conservar a confiança na capacidade de lhes responder constitui uma disciplina exigente. O otimismo marca a data da vitória; a esperança organiza o trabalho de amanhã.

Esse trabalho inclui gestos sem aparato: conversar com quem discorda, ajudar os familiares e se possível os anónimos, participar numa associação, exigir contas, apoiar uma escola, defender quem ficou isolado. Ao agir, descobrimos as coletividades que a contemplação angustiada do ecrã dos televisores e dos telemóveis nos escondia. O vizinho deixa de ser uma categoria eleitoral e volta a ter nome. A vida comum recupera a possibilidade de escolher.

É nesse sentido que baptizo e esquizo iluminam a política: entrar na realidade até ao fundo e abrir nela passagem para uma vida partilhada. Baptizo e esquizo: mergulhar e rasgar. Talvez a nossa biografia se escreva nesses lugares e momentos em que deixámos de poder viver como antes. Guardamos datas, fotos, vozes, e-mails; a vida guarda a voz de quem nos chamou quando estávamos de costas. Um dia voltamo-nos. E tudo o que julgávamos saber sobre quem éramos teve de arranjar lugar para quem nos interpelou.

 

Mendo Castro Henriques é professor da Universidade Católica e autor de obras de filosofia e cidadania.

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