A inteligência artificial entrou na nossa vida de mansinho e foi-se tornando imprescindível. Tomou conta da nossa atenção, reclama o nosso tempo, dá-nos rebuçados de ego a toda a hora, retira-nos das tensões relacionais e mostra-nos que é possível viver sem elas. Dá-nos respostas para tudo, tornando os outros progressivamente redundantes, lentos ou obsoletos.
Na realidade, transforma-nos a partir de dentro, nessa fácil conjugação de um eu pessoal com um eu inexistente, mas sempre presente, sempre aparentemente certo e nunca maçador.
De tal forma não é maçador que tudo o resto se transforma paulatinamente em insuportavelmente maçador: a demora, a espera, o tempo vazio, o silêncio, uma caminhada sem auriculares ou a contemplação silenciosa de um cenário qualquer.

“O mais insidioso não é aquilo que a inteligência artificial consegue fazer, mas aquilo que nos leva a desejar.” Foto © Chris Yang | Unsplash
O mais insidioso não é aquilo que a inteligência artificial consegue fazer, mas aquilo que nos leva a desejar. A promessa de uma vida sem limites, sem espera, sem dúvidas, sem dependência dos outros. Uma vida em que tudo parece estar ao nosso alcance e em que, por isso mesmo, nos sentimos mais livres.
Mas ser livre, no sentido cristão do termo, não é poder tudo. É ser capaz de discernir e tomar decisões que não comprometam a própria liberdade. A liberdade bem exercida deixa-nos sempre mais livres, enquanto o seu mau exercício nos conduz a alguma forma de escravidão.
Sem darmos por isso, vamos confundindo a ausência de resistência com a liberdade. A possibilidade de obter tudo com a capacidade de escolher bem. A segurança das respostas com a verdade. E a dispensa dos outros com uma autonomia que nos faz sentir poderosos.
O cristianismo conhece bem esta tentação, porque as tentações são as mesmas de sempre, com outras roupagens. A tentação de não depender, de não precisar, de não reconhecer limites. De ter todas as respostas e de estar seguro de todas as certezas.
Tal como os fariseus e os doutores da Lei do tempo de Cristo, que tantas vezes confundiram o domínio da Lei com o conhecimento da verdade. Tinham respostas, mas já não tinham perguntas. E, seguros do seu poder, eram capazes de conduzir os outros tanto ao cumprimento de um tributo como à condenação à morte de um justo.
Também hoje corremos o risco de entregar a nossa possibilidade de ser àquilo que nos promete libertar das dificuldades de existir. E, nessa entrega, deixar que uma entidade que não é pessoa ocupe o lugar onde se exercem a consciência e a liberdade.
A consciência precisa de tempo para discernir, de silêncio para escutar e de resistência para amadurecer. A liberdade também se treina e, sem esse exercício, vai perdendo a capacidade e até a força para se afirmar.
Cristo deu-nos a chave: para um cristão, a maior liberdade é a que renuncia não só ao poder, mas também às suas seduções: de ter, de parecer, de gozar. A maior liberdade é a do amor, a que prefere o outro a si mesmo e se entrega.
É uma liberdade que não nasce da multiplicação das possibilidades e que não se afirma na ausência de limites, mas na aceitação da nossa condição. Que não se realiza na autossuficiência, mas na relação com o outro, precisamente porque o outro não está à nossa disposição.
Por mais que se insista em regulação, tutela ou treino de modelos, a questão decisiva continuará a colocar-se a cada um de nós. Não se trata tanto de como controlar o poder da inteligência artificial, mas de como renunciar à sedução do poder que ela nos oferece. Que, no limite, nos torna escravos.
Tal como no tempo de Cristo, o que nos é pedido é que renunciemos às ilusões de omnipotência e nos pacifiquemos com o que somos. Livremente.
O que é basta.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.
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