“O Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, recebeu, nos Paços do Concelho, o Embaixador de Israel em Portugal, Oren Rozenblat, num encontro que permitiu explorar novas possibilidades de colaboração em áreas estratégicas para o desenvolvimento do território, como a inovação, a tecnologia, a proteção civil, a qualificação de recursos humanos e a atração de investimento. (…) A preparação para situações de emergência foi igualmente abordada, com destaque para a importância do planeamento, da existência de recursos essenciais e da capacidade de resposta dos territórios perante cenários de crise. (…) A reunião permitiu ainda identificar possíveis áreas de colaboração futura, incluindo a inteligência artificial, o desenvolvimento de software, a tecnologia médica, a indústria avançada, o setor espacial e a inovação aplicada ao setor têxtil.” (nota publicada no facebook do Município de Guimarães, a 13 de Setembro de 2026, às 19:40).
(1)
no número 16 da rua antónio enes
o senhor Oren Rozenblat levantou-se cedo,
escolheu criteriosamente a gravata
e uma camisa engomada, de algodão,
cor neutra,
que reforçasse os passos decididos,
a aura empreendedora,
e o ar circunspecto de homem confiável.
quando o motorista, horas depois, o apeou nos paços do concelho
hesitou ainda,
e conferiu a cábula,
remetida por correio diplomático,
no próprio dia em que o massacre se ordenara.
as instruções eram concisas e claras:
lamentaria a sorte do seu povo,
e, mais prosaicamente, a da sua própria família
forçada ao luxo de um condomínio privado no deserto
onde antes um renque de oliveiras
e um poço para as cabras.
(não pode deixar de pensar na filha adolescente,
em terra inóspita,
suas tranças douradas entre gente menor,
andrajosa e ressentida.
veio-lhe um vómito à boca.)
lamentaria, pois, a sorte do seu povo,
e arrastá-lo-ia, perseguido, por infindáveis séculos.
de tal sorte não conhecia bem as datas nem os detalhes,
mas isso, em rigor, pouco lhe importava.
quero dizer, a fuga, o medo, a humilhação
letal em cada década,
crianças soterradas sob a neve, a vida hostil,
não, nada disso obscurecia a sua pele cuidada.
não lhe doía, como a outros, a cinza que restou,
mais que o permitido por uma patriótica referência na recruta.
de facto, com o passar dos anos
e a ocupação de tanta terra alheia,
com o rugir das armas e o poder
sem tréguas,
os antigos massacres perderam a força que outrora transportaram
e, quando os carrascos se inverteram,
permaneceram apenas no íntimo dos mortos
— de então e de agora,
que todos os supliciados são um só.
mas, claro, dizia a cábula, é por aí que deves começar.
a seguir falaria do progresso,
de como o deserto florira
e as colheitas brotaram das vulvas importadas
com o essencial concurso da técnica e do exército.
explicaria as cidades geométricas, onde antes pedras milenares,
arquitectura modernista,
o agudo deslumbre do comércio,
uma democracia de fazer inveja ao narcotráfico,
universidades que produzem prémios nobel
e o limiar de uma tecnologia tão segura,
a mais certeira na forma de matar.
ocultaria que os sub-humanos habitam em currais,
movimentam-se aleatoriamente se autorizados,
espancam-se com regularidade,
mutilam-se mesmo se é maior o entusiasmo dos colonos,
eliminam-se quando necessário.
finalmente, focar-se-ia no futuro
à velha urbe prometendo igual prodígio,
investimento, tecnologias,
quiçá um sistema aperfeiçoado de reconhecimento facial
que nenhum rosto espúrio permitisse na cidade.
uma masculinidade combativa, claro,
o mesmo deus ausente.
maquinalmente deu um jeito à gravata,
conferiu o verniz com que revestia a língua em dias de missão oficial,
e sorriu condescendente com a aristocrática patine que o mesmo concedia
às suas unhas inchadas pelo sangue,
sangue e vísceras, danos colaterais,
que em catadupa escorriam do açougue
e se lhe colavam persistentemente às mãos.
convém não esquecer:
o senhor Oren Rozenblat era, na cidade, o rosto desse crime.
contra o que esperava, foi recebido como um príncipe.
o sorriso aberto, um cálice de porto, entusiasmo de neófito.
tudo o que queria teve, em verdade, mas sobretudo
dois detalhes preciosos:
o visitado calou a ignomínia,
foi magnânimo na cooperação e no afecto,
fez com ele planos temerosos.
juntou ainda uma fotografia profissional para selar o esquecimento,
e uma história ilustrada do condado berço.
o senhor Oren Rozenblat regressou satisfeito à capital.
a partir da colónia o chefe da quadrilha enviar-lhe-ia,
reconhecido,
uma nota de louvor.

Ilustração © Catarina Soares Barbosa.
(2)
ao visitado, porém, custou a adormecer,
perseguido por uma notícia antiga no jornal da terra.
datada da primavera de 1944, informava a mesma que
na rua do sacramento à lapa, número 58,
o Barão von Hoyningen-Huene[1], se levantara cedo,
escolhera criteriosamente a gravata
e uma camisa engomada, de algodão,
cor neutra,
que reforçasse os passos decididos,
a aura empreendedora,
e o ar circunspecto de homem confiável.
quando o motorista, horas depois, o apeou nos paços do concelho
esperava-o o doutor Rocha dos Santos[2]
que a cidade tão vetusta presidia
por sábia indicação do velho abutre.
trocaram mesuras, elogios,
o heroico passado dos respectivos povos.
o barão prometeu investimento, indústria pesada,
uma linha segura para a produção de Zyklon B,
um prodígio de ácido cianídrico
para providencial tratamento das espécies inferiores.
por sua vez, o município exportaria têxteis para fardas reluzentes,
volfrâmio, se o deixassem, e o tivesse,
mas sobretudo olhos vendados,
a boca muda,
ouvidos cegos.
sorriram ambos: a europa seria outra sem judeus,
ciganos, maricas, e comunistas.
na manhã seguinte, porém, nem queria acreditar:
a secretária não localizou a notícia,
no arquivo do jornal nada consta.
sonhara por certo com a visita do barão.
estremeceu: afinal não havia um precedente.
não fora tão ousado o doutor Rocha dos Santos
(o velho abutre, em lisboa, era prudente,
razoavelmente corajosa a sua hipocrisia).
preocupado, convocou a imprensa,
antecipou protestos,
foi agora a sua vez de ajeitar a gravata
e ensaiar ao espelho o ar compungido de um inocente.
alguns amigos ligaram-lhe.
alertaram-no para a imponderabilidade dos actos
mesmo circunspectos,
e as retracções da alma.
com o passar dos dias foram estas que mais o incomodaram.
era um homem decente,
ou assim se julgava,
incapaz de prejudicar alguém,
evitar um mendigo,
intrujar nos negócios.
e, no entanto, por dentro de si mesmo enegrecia
sem que disso tivesse sequer assentimento.
não é em vão que se ilude um genocídio.
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NOTAS
[1] Oswald Theodor, Barão von Hoyningen-Huene, foi embaixador da Alemanha em Portugal entre 1934 e 1944. Oriundo da aristocracia alemã conservadora, no final de 1944 é destituído de funções e reformado compulsivamente por suspeita de vaga proximidade à operação Valquíria. De facto, de acordo com José Manuel Duarte de Jesus, em “Dança Sobre o Vulcão: Portugal e o III Reich” (2017), a sua actuação em Lisboa parece configurar, em certos aspectos, algum discreto distanciamento relativamente ao poder nazi. Nada nas intervenções ou nos gestos do senhor Oren Rozenblat, ao longo destes anos, indiciam similar afastamento do genocídio em curso.
[2] João Rocha dos Santos foi Presidente da Câmara Municipal de Guimarães em vários mandatos entre 1918 e 1944.
Luís Soares Barbosa (luissoaresbarbosa.com) é professor na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e autor, entre outros, de a poesia vende pouco (2023) e meu nome é ninguém (2025), ambos na Officium Lectionis.
Esta rubrica toma de empréstimo um verso de Guimarães Rosa: todo o dia é véspera, para estes “pequenos poemas da nossa circunstância” (https://setemargens.com/a-nossa-circunstancia-em-pequenos-poemas-mensais-de-luis-soares-barbosa-no-7margens/) e é publicada aos dias 24/25 de cada mês, assinalando a data da implantação da democracia em Portugal.










