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Professor Francisco Carvalho Guerra
Professor Francisco Carvalho Guerra encontrava na música razões para contruir. E, por vezes, para continuar.. Foto: DR

Testemunho

Quando as luzes se acendiam

 

Francisco Carvalho Guerra encontrava na música razões para contruir. E, por vezes, para continuar.

 

No passado dia 21 de Outubro [1], o Professor Francisco Carvalho Guerra teria feito 94 anos. Morreu a 6 de Agosto. Quando alguma coisa me toca muito fundo, tendo a emudecer. O que teria para dizer fica à espera, sem que a duração do silêncio corresponda à medida da gratidão.

Também me detinha um escrúpulo de leitor: conheço homenagens em que o morto mal encontra lugar entre as recordações que o autor tem de si próprio. Receava fazer o mesmo. Há coisas que me disse para serem escritas e outras que me confiou para ficarem entre nós. Quero crer que a minha amizade as distingue. Entre as primeiras, há uma confidência a que regresso: o que Carvalho Guerra fazia quando as luzes de um concerto se acendiam.

Francisco Carvalho Guerra

Francisco Carvalho Guerra: “Muita coisa que decidi fazer na Católica surgia-me em concertos.” Foto: DR

Procurava papel. Acabava de ouvir música e tinha coisas para escrever: um projecto, um edifício, alguma coisa que era preciso fazer na Universidade Católica, na Faculdade de Farmácia, no Centro de Citologia.

“Muita coisa que decidi fazer na Católica surgia-me em concertos.” Disse-mo num pequeno gabinete do edifício do Restauro, depois de ter deixado a presidência da Católica no Porto. Conversávamos para um livro que ficou por concluir. Conservo as transcrições. Às vezes, basta uma frase para voltar a ouvi-lo.

Começámos também um “Dicionário”. Eu propunha uma palavra; ele respondia. “Computador” mereceu uma definição breve: “Aquilo que eu gostaria de saber utilizar!” O homem que ajudara a modernizar a investigação científica portuguesa não se importava de confessar que havia uma máquina com a qual ainda não se entendia.

“Arte” levou-nos mais longe. Falou da Pietà de Miguel Ângelo, diante da qual estivera horas. Depois vieram Wagner, Beethoven, Mozart, Grieg. Contou-me o que lhe acontecia quando a música o tocava profundamente, sobretudo se andava cansado ou preocupado. Começava “a sonhar, a sonhar…”. E explicou: “Eu chegava ao ponto de, mal acendiam a luz, pegar num papel e escrever: “Eu preciso de fazer isto, eu preciso fazer aquilo…” Era a primeira vez que o contava a alguém, acrescentou.

Quem o conheceu recordará a energia, a impaciência, a capacidade de pedir e insistir. Juntava pessoas e recursos para fazer existir o que ainda só ele, ou poucos com ele, conseguiam ver. Nas nossas conversas, a construção da Universidade tinha salas que começavam a faltar, pavilhões provisórios, dificuldades de dinheiro, interlocutores a convencer.

Francisco Carvalho Guerra

“Quem o conheceu recordará a energia, a impaciência, a capacidade de pedir e insistir. Juntava pessoas e recursos para fazer existir o que ainda só ele, ou poucos com ele, conseguiam ver.” Foto: DR

Carvalho Guerra não era um homem fácil. Nele, a ternura podia dar lugar à brusquidão, o entusiasmo à impaciência. Sabia congregar vontades, mas nem sempre acolher desacordos. Defendia as suas convicções com veemência, de braços abertos, por vezes com uma certeza que não deixava muito espaço à dúvida. A frontalidade podia magoar. Nunca precisei de o imaginar melhor do que era para admirar o que fez e reconhecer a generosidade com que se deu aos outros. Sempre desconfiei dos retratos sem sombras. Carvalho Guerra tinha as suas.

E havia ainda aquele homem sentado a ouvir música. Penso nas salas onde hoje se ensina, nos laboratórios, nos corredores. Na sua história entram plantas, orçamentos, licenças, reuniões. E há decisões cuja história, segundo me contou, começa num concerto. Quando as luzes se acendem, a ideia ainda não tem paredes. Cabe num papel.

Aproximava essa experiência de certos momentos da Eucaristia, em particular a elevação do cálice e da hóstia. Falava de uma intensidade íntima que lhe era difícil explicar. Ouvi-o sem procurar reduzir uma experiência à outra. O homem habituado a tomar a palavra conhecia também a necessidade de a suspender.

A música acompanhara-o noutro lugar da vida. Jonas, o filho mais velho, tinha uma maneira de lhe pedir que conduzisse mais devagar. Quando a velocidade o assustava, começava a cantar no banco de trás: “Eu tenho medo, eu tenho medo…” E o pai abrandava.

É assim que gosto de o recordar antes da tragédia: uma criança que encontrara uma canção para travar o pai. Carvalho Guerra guardava esses pormenores. “O Jonas era uma alma de eleição”, dizia.

Depois da morte do filho, ouviu repetidamente o Requiem de Mozart. O disco chegava ao fim e voltava ao princípio. Procurava-o nos momentos livres, regressava-lhe, gastava os discos.

Francisco Carvalho Guerra

Francisco Carvalho Guerra: “Quem enterra os filhos, principalmente o mais velho, aprende que o Poder não tem significado, porque percebe que não tem poder para nada. Nesse dia, a gente fica independente de tudo e de todos. Excepto de Deus.” Foto: DR

O homem que sabia encontrar uma solução estava diante do que não podia resolver. “Quem enterra os filhos, principalmente o mais velho, aprende que o Poder não tem significado, porque percebe que não tem poder para nada. Nesse dia, a gente fica independente de tudo e de todos. Excepto de Deus.”

Oiço esta frase e volto à criança no automóvel. Nesse tempo, bastava-lhe ouvir “eu tenho medo” para abrandar e proteger o filho. Agora, tudo o que sabia fazer era insuficiente. Mozart não lhe devolvia Jonas. Mas Carvalho Guerra voltava a pôr o disco.

Foi ele quem ligou a intensidade posterior do trabalho àquela perda. Já antes estudava, organizava, construía. Depois, o trabalho tornou-se também uma forma de continuar a viver.

Quando lhe propus a palavra “Amor”, falou do filho morto, da mulher, dos outros filhos, dos erros que cometiam ao crescer, dos nascimentos, das horas grandes da vida. Disse “amor dorido”, “amor contemplativo”, “amor partilhado”. O verbete encheu-se de pessoas.

Creio que é isso que procuro ainda nas páginas do livro que não terminámos: o momento em que as palavras de alguém deixam de ser abstractas. “Amor” trazia nomes e recordações. “Música” podia levá-lo à morte de um filho ou a um projecto que ainda não sabia como realizar.

Escrevo por amizade e por uma admiração que o convívio tornou mais próxima. Dos muitos gestos que guardo dele, detenho-me hoje naquele: o concerto terminava, as luzes acendiam-se e ele, que tinha ouvido um princípio, procurava papel…

 

 [1] Nasceu a 21 de Outubro de 1932, mas foi registado a 19.

 

Henrique Manuel Pereira é professor da Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa – Porto

 

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