“I love Lisbon, my friend studied abroad there and we visited for the weekend”. “Portugal is amazing, my cousin had a destination wedding there last year!”[1]
Conhecer um português emigrado é, para muitos, sinónimo de convite a quebrar o gelo com um elogio às praias e à comida, à vida noturna, às tascas e paisagens do Douro. Obrigada Megan, mas não, nunca fui ao resort de luxo do casamento da tua prima. Que giro, Joe, foste ao castelo? Ah não sabes, os nomes das coisas eram compridos, bom, pelo menos aprendeste que aqui é tudo a subir e a descer.
Vivi nos Estados Unidos quatro anos e atualmente encontro-me em Londres depois de uma mudança de carreira que me trouxe a Milão. Esta manhã, vi nas redes sociais uma montagem do videógrafo Francisco Crocco que compara a Lisbon idílica e serena dos turistas à Lisboa problemática do povo, aos cartazes das manifestações e ao Rossio agitado pela crise da habitação e, como se não bastasse, pela violência policial. Imagens gravadas no mesmo dia, por vezes no mesmo local, mas contrastes eximiamente captados para mostrar que são mundos diferentes. Duas Lisboas.

” (…) a beautiful Lisbon está farta de ser apenas uma cidade de postal, visitada e inflacionada pelos habitantes de países onde se ganha mais.” Foto © Turismo de Portugal
Segundo os censos de 2021 e registos camarários mais recentes, o município da capital conta com cerca de 320.143 fogos habitacionais, dos quais 11.704 são alojamentos locais. Esta estatística, que em percentagem significa uns meros 3.6% [2], não inclui hotéis nem reflete os preços inflacionados desde os serviços ao entretenimento, e, por último, mas mais importante, à alimentação. Sempre que volto a casa, encontro-me com algum amigo que visita a cidade, maravilhado com a qualidade barata e aesthetic que oferecemos. Sempre que volto a casa, janto com amigos portugueses que arregalam os olhos ao ver a conta e a gorjeta sugerida segundo costume importado.
Mesmo se se argumentar que os jantares fora são um luxo só para turistas e elites, o que soa revoltante mas é verdade em muitos países em desenvolvimento, o mesmo não pode ser dito da habitação. E há ainda mais uma variante: a imigração de estrangeiros ainda mais pobres, que algumas vozes populistas posicionam como espremendo os portugueses de classe média entre quem tem demasiado e quem nada tem. Outro post que vi nas redes sociais, pelo contrário, passava uma mensagem de empatia radical face à imigração: f*ck tourists, love immigrants, grafitado num tapume de obra em andamento. Vinha acompanhado de um comentário sardónico em inglês: a hospitalidade portuguesa é famosa, até traduzem tudo para nós.
Quer se odeie turistas, ame imigrantes, ou até não se goste de nenhum, o facto é que é difícil, se não impossível, para a maioria dos portugueses comprar ou arrendar casa. Se ainda for preciso comprovar com estatísticas, falamos de um tempo em que, em Lisboa, a renda média corresponde a 116% do salário líquido médio. Num estudo de 2025 do Deutsche Bank Research Institute, este foi o rácio mais alto das cidades europeias analisadas, e o único superior a 100 por cento do salário [3].
Esta realidade traz-nos de volta ao título deste artigo: a beautiful Lisbon está farta de ser apenas uma cidade de postal, visitada e inflacionada pelos habitantes de países onde se ganha mais. Virámo-nos para os cartazes e para as ruas, combatemos quem queria calar os protestos e fizemos manchetes seguindo o exemplo do Porto, de Madrid, de Paris e da Sérvia. Se faço algum apelo aos leitores que, como eu, têm amigos ou colegas na esfera internacional, é que lhes chamem a atenção para o que se passa no nosso continente, em Portugal e nas nossas cidades. Que os convidem a prestar atenção às pessoas que vivem nas casinhas de cor pastel em vez de se ficarem pela fotografia, que os incentivem a votar nas suas eleições e a participar no debate público tendo o resto do mundo em mente. Peço-vos que, também vocês, promovam a tão necessária empatia global, e que, da próxima vez que se apresentarem como portugueses, não fiquem pela rama das praias bonitas e contem ao mundo um pouco das lutas do nosso povo.
[1] Adoro Lisboa: um amigo meu estudou lá e fomos lá passar o fim de semana». «Portugal é fantástico, a minha prima fez lá um casamento no ano passado!»
[2] CML, Boletim Municipal n.º 1619, Deliberação n.º 758/CM/2024 e Projeto de Regulamento do AL, 27/02/2025, art. 4.º
[3] Postal, “Esta cidade portuguesa é a única da Europa onde o ordenado não chega para pagar a renda”, 17/11/2025 (cita um relatório do Conselho da UE, de outubro de 2025, com dados do Deutsche Bank).
Maria do Carmo Osório tem 24 anos e trabalha atualmente num grupo tecnológico em Milão depois de quatro anos a viver nos EUA. Gosta de pensar a sociedade à luz da fé e da empatia.
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