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Jardim Bíblico. Rebento de uma figueira, no início da primavera. Fotografia I Lopes Morgado

Diários de quarentena (11): Quando vier a Primavera, poema de Alberto Caeiro

| 28/03/2020

Diários de quarentena (11): Quando vier a Primavera, poema de Alberto Caeiro

by | 28 Mar 20

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

 

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

 

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.

(poema de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, escolhido por J. Lopes Morgado, frade capuchinho)

 

Jardim Bíblico dos Capuchinhos, em Fátima. Rebento de uma figueira, no início da Primavera. Foto © J. Lopes Morgado

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