Nas últimas semanas, a capital libanesa tem estado no centro da atenção mediática, na sequência das explosões ocorridas a 4 de Agosto no porto de Beirute, das quais resultaram a morte de cerca de 180 pessoas, mais de seis mil feridos, largas dezenas de milhar de desalojados e milhões de euros de prejuízo naquela que era uma das zonas mais efervescentes da cidade. A situação é tanto mais grave quanto coincide com um período de grande instabilidade económica, política e social, com o Estado em bancarrota e a população a exigir a desconfessionalização do sistema político como forma de acabar com clientelismos. Esta seria uma fotografia resumida da pele dos acontecimentos recentes. Mas, como vêem os libaneses a sua cidade?
Nos começos dos anos 1960, Beirute era descrita como a Paris do Médio Oriente; uma das jóias do Mediterrâneo. Nas décadas que se seguiram, porém, a imagem do Líbano e da sua capital transformou-se, fruto das notícias de conflitos sucessivos, tanto entre facções internas como com os países vizinhos, que destruíram enormemente a cidade e o país. A Beirute actual tem o charme ambíguo de uma cidade construída a preço de pérolas e feridas, novas e antigas. As suas ruas curvilíneas misturam torres modernas, palácios exuberantes, mas discretos, e prédios modestos. Numas, roupas e minaretes lembram-nos do islão; noutras, ícones e incensos falam-nos de um cristianismo oriental plural. Beirute permanece um enigma, um ponto de interrogação, um ziguezague entre contrastes.
Aqui recolhem-se vários olhares libaneses sobre Beirute, que nos servem de guias acidentais da sua própria cidade. A pintora Zena Assi faz-nos pensar em Beirute como problema. A prevalência do cinzento, o emaranhado da composição, com camadas sucessivas, as palavras que remetem para outras conversas (home, argument, war, artists): debaixo dos estendais banais de Beirute esconde-se uma cidade submersa em tensões sucessivas. Zena dá voz a todos os que, como ela, se sentem à beira da asfixia.

Zena Assi (n. 1974), Roupa Estendida Sobre Beirute
Joseph Haddad (vídeo), Tania Khammoun e Elias Chikhani (registo áudio) levam-nos de passeio pelas ruas da capital, longe do circuito turístico. A normalidade e leveza dos sons quotidianos ganha uma dimensão nostálgica, com as imagens de Haddad. Se os sons nos conduzem pelo eixo horizontal da vida urbana, o vídeo parece mover-se num eixo vertical, onde o chão da cidade parece esperar uma porta-escada para outro céu.
Beirut Streets, vídeo de Joseph Haddad em diferentes ruas de Beirute, ao som da célebre música Li Beirut, de Fairouz (2018), que adapta o Concerto de Aranjuez (1939), do compositor espanhol Joaquín Rodrigo
Paisagem Sonora de Beirute, de Tania Khammoun e Elias Chikhani (2018) (clicar sobre o título para escutar)

Stencil ReBeirut, em Beirute. Líbano. Foto: Direitos reservados.
Os nossos guias seguintes são anónimos. Graffitis, cartazes políticos, stencils, murais: a cidade está coberta destas mensagens silenciosas. Nuns bairros, os cartazes anunciam os heróis locais; noutros, falam de uma cidade utópica. As ruas de Beirute contam-nos os rostos, as cores, as aspirações e as lutas (por vezes muito diversas) dos seus habitantes. E, curiosamente, a vontade de recomeçar Beirute parece transversal. Este desejo dificilmente poderia ser mais real e urgente, nos dias que correm.

Cartaz do Hezbollah numa rua no bairro xiita de Beirute (Líbano). Foto: Direitos reservados.

Mural em Mar Mikhael. Beirute. Foto: Direitos reservados
Por último, dois olhares sobre Beirute na hora da explosão. A pintura de Mona Asmar vinga a violência da explosão com beleza, ao passo que o registo áudio da explosão, recolhido durante uma reunião entre jesuítas libaneses (enquanto falavam sobre o modo de dar os exercícios espirituais inacianos), nos coloca a todos num daqueles lugares em que as fronteiras se rompem: a nossa vulnerabilidade.

Mona Asmar Hecker, Explosão do Porto de Beirute (2020)
Explosões no porto de Beirute, registadas numa comunidade jesuíta, 4.VIII.2020










