AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

A Paz é uma conquista interior

| 10/01/2021

Costumamos inaugurar os anos com desejos de paz, o primeiro dia do ano é o Dia Mundial da Paz. Falamos de paz como se ela dependesse apenas ou predominantemente de fatores externos. Raramente nos questionamos como é o ambiente de paz dentro de nós e como podemos ser construtores da paz, cada dia, cada hora, cada minuto que vivemos. Porque, na verdade, sem essa paz conquistada sobre nós mesmos jamais conseguiremos ser construtores de paz no mundo.

“…abrir-nos à alteridade a que somos sempre convocados, com os outros, com a criação e com Deus.” Foto Daniel Mingook Kim/Unsplash

A paz em nós depende apenas de nós e sem paz em nós não podemos dá-la a ninguém. Temos paz em nós ou corremos entre os conhecidos excessos: excesso de passado, que é depressão, excesso de presente, que é stress, e excesso de futuro, que é ansiedade?

Os excessos de passado, presente ou futuro convocam todas as nossas potências para a autorreferencialidade, são uma força centrífuga que nos posiciona no centro do mundo, como um turbilhão que faz desaparecer tudo em volta.

O primeiro sinal de falta de paz em nós é a incapacidade de alteridade, na sua tríplice dimensão: com os outros, com a criação e com Deus. Ao consentirmos nesses excessos perdemos a capacidade de ver a realidade com justeza e de a viver inteiramente.

Até podemos relacionar-nos, mas as relações não passam da superfície; até podemos viajar ou passear, mas somos cegos em relação ao entorno; até podemos achar que rezamos, mas não passamos de carpideiras que saem da oração mais carregadas do que à chegada.

Enredados sobre nós mesmos e convencidos que estamos a viver uma verdade intensa e incontornável, os nossos pesadelos, as mais das vezes, resumem-se a uma sensibilidade exacerbada (com a qual podemos aprender a lidar positivamente), a uma imaginação fértil (que podemos canalizar brilhantemente) e a um corrupio imparável (baseado na ilusão de sermos imprescindíveis).

Uma das vias para tentar superar esses males reside na inversão das premissas, forçando-nos (mesmo que nos custe) a abrir-nos à alteridade a que somos sempre convocados, com os outros, com a criação e com Deus.

Com os outros, estando disponíveis para a relação, treinando a empatia e a compaixão, de que todos precisamos.

Com a criação toda, talvez começando pela natureza que, sem inteligência nem vontade, nos sustenta e nos dá vida, só por existir: as árvores e todas as criaturas, o mar, o ar e tudo o que existe.

Com Deus, aprendendo a deixar-nos olhar por Ele e entregando-lhe tudo o que carregamos, para alívio certo das nossas almas cansadas.

Devagar, ir criando disponibilidade dentro de nós para vermos e sermos vistos, para amar.

A contemplação da vida que pulula à nossa volta coloca-nos no justo lugar de criaturas que recebem tudo, rigorosamente tudo. Permitamo-nos darmo-nos conta disso com calma reverente e grata. Tornemo-nos contemplativos sempre, não percamos a oportunidade de nos espantarmos com a vida, todos os dias, muitas vezes por dia.

“A minha paz vos deixo, a minha paz vos dou” (João 14, 27). Antes de partir, os desejos e o legado de Cristo foram a paz. A Paz Dele, que se autodefiniu como “manso e humilde de coração” (Mateus 11, 28): sem dores do passado, sem correrias do presente, sem ilusões do futuro. O Homem inteiro, o dom inteiro.

Da mesma forma, procuremos baixar a guarda (da nossa enorme importância) e escolhamos a melhor parte, pondo de lado o que não nos permite ESTAR (= ser inteiramente) no momento presente, que é também ele um dom, e um dom para os outros.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.