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Birmânia, protesto, manifestação, golpe militar

Birmânia: militares tentam vergar a resistência popular ao golpe

| 16/02/2021

Birmânia, protesto, manifestação, golpe militar

Protestos na Birmânia a 6 de Fevereiro 2021, contra o golpe militar de dia 1. Foto: Wikimedia Commons.

 

Ao décimo quinto dia do golpe de estado, os militares da Birmânia decidiram montar um dispositivo que amedronte as multidões de cidadãos pacíficos que não largaram as ruas, em defesa dos resultados das eleições, da chefe do Governo Aung San Suu Kyi e da democracia no país.

Os militares começaram, na semana passada, por prender alguns líderes dos protestos. No final da semana, esvaziaram as prisões de mais de 20 mil detidos, e grupos de pessoas não identificadas surgiram, no último sábado, ao começo da noite, em bairros de Yangon e Mandalay, as duas maiores cidades, pegaram fogo e fugiram. Ao mesmo tempo o auto-designado Conselho de Administração do Estado, às ordens do general Min Aung Hlaing, que tomou o poder, anunciou a suspensão de algumas liberdades cívicas, passando os militares e as forças policiais a poderem entrar sem mandado especial nas casas das pessoas.

Na tarde deste domingo, 14, grandes quantidades de militares camuflados e fortemente armados, incluindo com carros blindados, posicionaram-se em locais estratégicos das principais cidades birmanesas, estando esta segunda-feira a patrulhar as ruas. Ao mesmo tempo, era anunciado que os instigadores de manifestações poderiam ser condenados a 15 ou mesmo 20 anos de prisão.

Os relatos de repórteres no local davam conta, nas horas mais recentes, de um crescente medo de que esteja prestes a abater-se uma forte repressão, depois de duas semanas de manifestações no geral pacíficas. O diário Le Monde referia, em título, que “se está a organizar uma repressão militar em grande escala”. A Reuters, por sua vez, notava que a exibição da força estava aparentemente a reduzir o vigor da contestação nas ruas.

Perante a situação, as embaixadas de alguns países ocidentais emitiram um comunicado conjunto em que exigem dos militares que não exerçam violência sobre manifestantes pacíficos que exigem legitimamente que os seus votos sejam respeitados.

Entretanto, uma votação no Conselho de Segurança da ONU, no início do mês, em que se condenava o golpe de estado e se exigia a reposição da legalidade, não avançou devido ao veto da China e da Rússia. As autoridades chinesas, que historicamente protegeram os militares da Birmânia do escrutínio internacional, argumentaram desta vez que sanções ou pressões externas apenas iriam complicar a situação. Ambos os representantes no Conselho de Segurança consideraram precisar de mais tempo, para auscultar os seus governos em Pequim e Moscovo, respetivamente.

A declaração aprovada limitava-se a lamentar o acontecido, a enfatizar a “necessidade de um apoio continuado à transição democrática” no país e a apelar à “libertação imediata de todos os detidos” e ao respeito pelos direitos humanos, as liberdades fundamentais e o Estado de direito. Já o secretário-geral, António Guterres, não se coibiu de dizer ao Washington Post que a ONU trabalharia para mobilizar a comunidade internacional de forma a “garantir que este golpe venha a fracassar.”

 

As religiões e a “falácia total”
Cardeal Charles Maung Bo, arcebispo de Yangon, Myanmar

O cardeal Charles Maung Bo, arcebispo católico de Yangon, foi uma das vozes que se opôs ao golpe. Foto: Arquidiocese de Yangon

 

As diferentes confissões religiosas estão, de um modo geral, contra este golpe militares e têm-se envolvido ativamente nas manifestações pacíficas. Os budistas, de longe a maior confissão no país, foi sempre perseguida durante os quase 60 anos em que as forças armadas governaram a Birmânia com mão de ferro, até 2010. Duas conhecidas figuras budistas estão entre as personalidades presas no desencadear do golpe. O mesmo se diga dos muçulmanos. E, conforme o 7MARGENS oportunamente noticiou, os cristãos, que são uma pequena minoria, têm estado na primeira fila da resistência.

A agência católica UCANews sublinhava, no início deste mês, que a cedência dos militares a uma experiência de maior liberdade reduzira a dependência da China e abriu o país ao mundo. O próprio Para Francisco visitou-o em 2017, depois de Hillary Clinton, Barack Obama ou David Cameron. Mas a inquietação das forças armadas em perder o poder foi-se agudizando, a ponto de ter-se assistido à situação incompreensível de a Prémio Nobel da Paz, Suu Kyi, ter defendido no Tribunal de Haia o genocídio dos Rohingya pelos militares. Por isso a UCANews diz que a ideia de que o golpe visa “contestar uma eleição que o exército alega ter sofrido de fraude eleitoral é uma falácia total”. Do que se trata, acrescenta, é de neutralizar “quem quer que seja que possa criticar os militares e reafirmar o domínio total das forças armadas”.

A década em que Suu Kyi governou viu surgir na sociedade birmanesa, segundo o mesmo artigo, quer a intolerância religiosa quer as iniciativas de diálogo inter-religioso para a contrariar. Com o regresso dos militares, o que se pode esperar, ainda de acordo com a mesma fonte, é o recrudescimento do nacionalismo religioso e uma margem de ação mais apertada e controlada para as confissões minoritárias. E mesmo os budistas não terão vida fácil, na medida em que “ousaram sugerir que o ódio e a violência são contrários aos preceitos do budismo”.

 

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