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Flor seca luto morte © Miguel Veiga

Precisamos de nos ouvir (30) – David Lito: Morrer só, no meio de uma multidão!

| 12/03/2021

Flor seca luto morte © Miguel Veiga

“Quando a minha memória apagar várias coisas más, tenho a certeza de que haverá uma imagem que não vou esquecer.” Foto © Miguel Veiga

 

Daqui a muitos anos, quando a minha memória tiver feito o favor de apagar várias coisas más que vivi nesta pandemia, tenho a certeza de que haverá uma imagem que não vou esquecer: a da solidão de uma idosa que durante alguma horas agonizou à minha frente, sozinha, perdida, sem uma mão, sem uma oração, até ao momento final.

Na verdade, não estava completamente sozinha. À sua volta, mais de 100 pessoas! Doentes a gemer, enfermeiros à deriva, médicos a apagar fogos, auxiliares a desesperar apinhavam-se, cada um na sua solidão, numa sala sem janelas nem esperança! O melhor que pude fazer foi acompanhar, com o meu olhar perdido, aquele respirar inicialmente aflito, depois pausado e ineficaz, cada vez mais lento até parar. Ninguém tinha tempo de lhe dar a mão, não havia forma de lhe dar uma respeitosa partida em silêncio e, pior, não foi permitida uma despedida com os seus entes queridos.

Desta pandemia ficam, acima de tudo, muitas perdas!

Costumo chamar-lhe a “psicose da covid”. A pessoa é, pois, resumida à sua condição de positivo ou negativo. Antes do parto, antes de observar, antes de transferir, antes de internar, antes de operar, antes de certificar o óbito, a primeira pergunta é: “Tem teste covid?” A perda resulta assim do esquecimento da pessoa por detrás do teste… E, no caso de ser positivo (“tragam uma P2, por favor!”), dispa a roupa mas também os seus direitos e prepare-se, desde já, para prisão do quarto com pressão negativa, que lhe irá sugar o direito de ser pessoa!

Poderia continuar a detalhar a perda de uma família a quem dei a notícia do falecimento da mãe três dias depois do pai ter partido também, da família que não pôde acompanhar o funeral do seu pai por estarem todos positivos, dos doentes escolhidos (sim, em detrimento de outros) para uma vaga de cuidados intensivos, das lágrimas dos enfermeiros pela consciência de que não tinham podido fazer mais.

O cenário é de guerra dentro dos hospitais mas, lá fora, uma aparente normalidade fere (e ao mesmo tempo oxigena) a alma que resiste, anestesiada, no “entra e sai” do terror. A anestesia é mais uma perda. Cruzamo-nos, indiferentes, com várias macas cobertas pelo branco de um simples lençol e seguimos “acima e abaixo” contando os números de doentes por internar, o número de médicos a colocar em escalas, o número de casos por notificar. Números cegos, escuros, mortais!

Concordo que nesta pandemia se encontraram muitos gestos de Esperança. Mas, para quem perde, a única esperança é a de nunca mais viver nada assim…

nuvens luz contraluz © Miguel Veiga

“Talvez estas palavras sejam importantes para o início de uma espécie de catarse que todos os que perderam, como eu, precisarão de fazer no futuro.” Foto © Miguel Veiga

 

P.S.: Senti grande resistência em responder afirmativamente ao convite que o 7Margens me fez para escrever este texto. Chegado ao final destas linhas, percebi que talvez estas palavras tenham sido importantes para o início de uma espécie de catarse que todos os que perderam, como eu, precisarão de fazer no futuro! Obrigado!

 

David Lito é médico

 

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