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“It’s the season, silly!”

| 30/07/2021

Ama Vasquez

Foto: Jardim para o mar na Praia da Granja, em casa dos meus Avós. Foto do arquivo de família.

 

Quando, há dias, comecei a pensar nesta contribuição, estavam em cima da mesa vários temas importantes, urgentes e vitais: o clima que samba na cara das inimiga’ na Europa Central; Israel que tenta mudar a agulha da agenda mediática para os estudos sobre vacinas, para esconder a aplicação continuada das suas políticas colonialistas sobre o povo palestiniano; ou as últimas detenções ligadas a processos de corrupção.

Mas o coronavírus continua a entrar nas nossas vidas sem pedir licença, fraturando ainda mais um mundo politraumatizado. Até me ver deitada numa praia de areia branca, e besuntada de protetor 50+, preciso de acalmar a ansiedade da espera pelo antigénio da libertação, abrindo a porta da season com um pouco de silly.

Todos os anos é a mesma coisa: chega ali o fim de Maio, acaba o campeonato (para uma portista ferrenha, já teve mais graça…), entra o cheiro a manjerico e os meus dias passam a oscilar entre a euforia de um bom bailarico e a nostalgia emocionada do espírito de verões passados.

Quando o dia acaba, a caminho de casa, ponho a tocar a playlist das baladas dos ‘80 e ‘90, faço de propósito para apanhar todos os vermelhos e deixo-me estar ali num dinâmico tête à tête entre mim e as minhas memórias. Cada palavra é um portão aberto para o Atlântico e há sempre uma música que me leva àquele verão, entre o ciclo e o liceu, quando saíram as turmas e o areal de Leça se encheu de risos com sabor a amizade eterna.

O trânsito do nó de Francos dá-me tempo para lembrar a espera pelo tio Fernando, que chegava à noite para passar o verão e me sentava no balcão da cozinha da avó para me ouvir cantar Elis Regina. As festas de anos, de que os meus pais sempre fizeram contas só de somar.

Os semáforos da Rotunda são um fartote de memórias: na Granja, a piscina insuflável que ficava a encher na relva, enquanto brincávamos nas rochas em frente a casa; a avó que aproveitava aqueles meses de influência para nos ensinar a rezar. E nós “querido Menino Jesus, obrigada pelos primos, por favor amanhã um dia sem nevoeiro”; as idas à feira de Espinho, para comprar peixe e sandálias de praia; as noites de trovoada na varanda, em cima do mar; um jardim seco de cuidados, mas fértil em alegria, onde colhíamos as dálias de boas-vindas à tia Gena; o passeio na praia ao pôr-do-sol, com o avô e os cães; a última sopa de caranguejo de Agosto. Dois meses de paciência, atenção e “vão para ali e não me chateiem”. Em partes iguais, e igualmente carregadas de amor.

Ao chegar a casa, deixo-me ficar um pouco, para recordar aquele ano (o último), em que fui buscar o melhor presente do meu outro avô (um tesouro em forma de Enciclopédia Juvenil) e a angústia que me provocava o silêncio estival de uma casa que, durante o resto do ano, estava sempre cheia de risos, pressa e companhia.

A beta em negação que há em mim sorri, paternalista, com as lembranças da playa de Areas, da espera ansiosa por uma autorização parental para ir ao It’s Amazing da Indústria de Cerveira, dançar até de manhã e tomar o pequeno-almoço na Camipão, e das despedidas no fim de uma semana nos campos de férias da Paróquia.

As minhas memórias têm pouco de relevante quando comparadas com o que se passa, neste momento, à nossa volta. Mas é Verão e toda eu sou nostalgia, gratidão, reconhecimento e consciência das graças que tive e tenho. A bolha de amor e amizade em que cresci flutua, mais inchada do que nunca. De Junho a Agosto, “é sempre a primeira vez a cada regresso a casa”. E para quem tem muitas casas, dentro e fora de si, asseguro-vos: não sai barato em lenços de papel. Há que dividir a conta…

 

Ana Vasquez trabalha em Comunicação e Marketing

 

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