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"O Mundo e a Igreja - Que Futuro?"

Um livro de Anselmo Borges para pensar

“O mito da Europa é débil. O mito da globalização feliz está em zero. O mito da euforia do trans-humanismo só está presente entre os tecnocratas. Encontramo-nos num vazio histórico cheio de incertezas e de angústias. Só um projecto de via salvífica poderia ressuscitar uma esperança que não seja ilusão.”

(Edgar Morin, in Le Monde, 2017)

 

livro anselmo borges capa

Capa do último livro do teólogo Anselmo Borges, O Mundo e a Igreja – Que Futuro?, Ed. Gradiva, 2021.

O que escrevo aqui sobre a última obra do padre Anselmo Borges, teólogo e professor de Filosofia, é um pequeno apontamento e só uma leitura atenta e meditativa – voltando quiçá atrás, devido a uma frase que nos chamou a atenção – poderá abarcar a sua completude.

Como refere Paulo Rangel no posfácio, “esta obra é semelhante a ‘um andamento’, uma circularidade que a tornam quase musical”. Há, na verdade, vocábulos, expressões e consequentemente ideias que surgem num determinado momento, e noutro elevam-se noutro tom, surgindo assim em diferentes combinações, tal como numa sonata. Maria de Belém Roseira, que prefacia a mesma obra, releva que o autor não pára de nos interrogar, interpelar, indo ao fundo das questões mais prementes da contemporaneidade”, o que lhe permite “uma análise dos problemas a 360 graus e a sua escalpelização ao pormenor para ir em busca da sua raiz e daí partir para a construção certeira de uma solução”.

 

O esvaziamento do pensar e a felicidade

Na verdade, é um livro para pensar, recorrendo o autor à etimologia desta palavra (pensare) que em latim significa “pesar razões”, raciocinar, saber seleccionar e discernir através da razão e por isso também tem o sentido de “curar”, “solucionar”. Este pensar deveria estar conivente com o silêncio interior, o encontro consigo mesmo. Segundo as palavras de Pablo d’Ors, sermos chamados “a ser”: primeiro, arrumarmos o nosso interior: “acabarmos com o ruído, a dificuldade em nos aquietar”. Na verdade, esta fase é difícil, é necessário treino e mais treino. Ou seja, força de vontade. “E então surge”, continua o autor citado, ‘o segundo fruto’, “a humildade” que é “ter uma visão realista de ti mesmo – que te dará a paz interior… A meditação é uma escola de escuta. Se aprenderes a escutar-te a ti mesmo, aprenderás a escutar os outros”. A felicidade só é possível na relação com o outro/outros. Ser místico, ser espiritual não é meditar – por mais intensa que essa seja – mas ser/estar “na contemplação na acção”. É a chamada, como diz o autor, “mística de olhos abertos”.

A consciência, apanágio do ser humano está a ser abandonada, em detrimento do uso de um discurso fragmentado na internet, levando o autor a dizer: “likai-vos uns aos outros”. Esta atitude reflecte-se no todo “social, político, económico, educacional, ambiental, falta de responsabilidade individual, colectiva, política”. A pandemia pouco ou nada adiantou para tomar consciência de que todos estamos interligados.

A incerteza, continua o autor, domina-nos. Mas esta vida é assim, por natureza. Cita Edgar Morin: “…Não vivo na angústia permanente”, mas “espera o inesperado”. O autor desta obra enumera um Decálogo para a felicidade, proposto pelo portal Vatican News: “o início da alegria é começar a pensar nos outros; afastar a melancolia; não são o poder, o dinheiro ou os prazeres efémeros que dão alegria, mas o amor; ter sentido de humor; saber agradecer, saber perdoar e pedir perdão; a alegria do compromisso e do descanso; oração e fraternidade; abandonar-se nas mãos de Deus; saber que és amado”.

O progresso científico é fundamental, “mas se for mal dirigido… há o risco de usar as novas tecnologias em proveito não humanitário”. Exemplifica com as NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas e neurociências). Chama-lhes por isso as “Cinco Bombas da Humanidade”, acrescentando “o aquecimento global, excesso da população, fome, miséria, terrorismo…”.

 

As feridas do nosso tempo e a questão do sentido
solidao foto pexels

A solidão, também “fruto da ausência de Deus”, é uma das “feridas do nosso tempo”, escreve Anselmo Borges. Foto © Pexels.

 

Segundo Anselmo Borges, as feridas do nosso tempo são as seguintes:

A “ferida do amor”: Zigmunt Bauman refere-se ao “amor líquido”. “Vivemos numa sociedade de descarte, fazendo cada vez mais lixo… haverá porventura uma razão para que as relações do casal sejam uma excepção à regra?”.

A “ferida da solidão”: fragilidade nas relações, falta de diálogo aberto. Também é “fruto da ausência de Deus” na vida das pessoas;

A “ferida da morte”: “actualmente a morte é tabu”. Numa sociedade hedonista não se fala disso.

A “ferida da fé”: deixamos de viver numa “sociedade crente”. “A eterna dúvida ou o abismo perante o silêncio de Deus é hoje um desafio enorme para os crentes”.

“Cavando mais fundo”, continua o autor, “chegámos à raiz da desorientação deste nosso tempo… é o lucro o que sobretudo se deseja, “mercantilização de tudo” – inclusive homens, mulheres e crianças – “subordinado à lógica dos mercados”.

Ricoeur, notável filósofo contemporâneo, “pertencia à Igreja Reformada de França e combateu a favor da urgência do diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs… “; num conjunto de conferências em 1967, “desenvolveu profeticamente ideias de rara actualidade”. Citadas pelo nosso autor, são suas estas palavras: “Pode-se dizer que a civilização inventou uma série de desejos, e de desejo sem fim… nos mitos gregos, era representado por lendas como o tonel das danaidas” (segundo este mito, as danaidas foram castigadas com um trabalho irrealizável: encher um túnel esburacado). Simboliza este mito o desejo insaciável de ter sempre mais, mais, de um modo infernal.

Em 2017, os bispos franceses publicaram – com direito à primeira página do Le Monde – um artigo sobre “o abandono na política da ‘questão de sentido’, ou seja, “a política empacotada em mentiras e cinismo e uma onda de corrupção [que] grassa e apodrece tudo”. Daí a urgência de valorizar o ser humano, atender às pessoas e tornar evidente a importância do sentido da Transcendência.

Analisa-se uma questão que para o autor é essencial. Cita Pablo d’ Ors: “As formas tradicionais da Igreja não respondem à sensibilidade e à linguagem contemporânea… boa parte do descrédito deve-se ao facto de sucumbir ao ritualismo”. Este padre, teólogo, escritor, fundou uma sociedade designada Amigos do Deserto: “Há uma ânsia muito grande de espiritualidade nesta sociedade secular” e muitos voltam-se para as religiões orientais. Mas “no ocidente, a figura de Jesus é mais próxima do que a figura de Buda… e quem prescinde do seu passado, não sabe qual é o presente”.

Na verdade, quem teve uma experiência na infância do cristianismo, quem a viveu profundamente, embora criança, não perde esse arquétipo que faz parte da nossa civilização judaico-cristã.

Reflecte-se sobre a finitude do ser humano, o seu encontro com a Morte, Mistério indissolúvel. Tudo isto é muito dissecado na segunda parte da obra. Refere as várias concepções filosóficas sobre o assunto, detendo-se principalmente em Kant. Após muitas polémicas entre os investigadores a par com o progresso da técnica, concluiu-se como uma evidência a existência de rituais funerários já no Homem de Neandertal.

Assim, todo o ser humano é religioso, “na medida em que, pela sua constituição, pergunta e pergunta sem limites desembocando na pergunta pelo Fundamento único. À medida que caminhamos para a morte, perguntamos a nós mesmos: “O que me espera, a eternidade do nada ou a eternidade da vida plena em Deus?” Exemplifica com diversos testemunhos sobre o mesmo assunto.

Simultaneamente, aprofunda o conceito de Deus: “Tudo criou e cria por amor e o seu único interesse é a alegria, a felicidade, a realização e a plenitude da vida de todos os homens e de todas as mulheres.”

 

Francisco e a Igreja: “Vim para servir, não para ser servido”
papa francisco aviao viagem eslovaquia foto vatican news

Anselmo Borges dedica uma extensa parte do livro ao Papa Francisco. Foto © Vatican News.

 

Anselmo Borges dedica uma parte generosa da obra ao Papa Francisco. Desenvolve exaustivamente a actividade deste sucessor de Pedro. “Com a resignação de Bento XVI, deu-se “o início de uma nova era” (Peter Seewald).

“Um Inverno eclesial europeu”, é assim que o autor denomina a crescente redução de crentes, principalmente nas camadas mais jovens. Há razões exteriores à Igreja – a sociedade apela ao imediato, ao prazer fácil; mas as razões internas são mais importantes. Segundo o autor, iniciamos verdadeiramente a nossa fé com uma experiência pessoal que nos impressionou. Jesus é o centro das atenções do autor e refere que “Ele fez uma experiência avassaladora de Deus como Pai/Mãe, amor incondicional”.

Anuncia então “O Reino de Deus”, o Reino das Bem-Aventuranças, convivendo e acalentando como absoluta prioridade os “impuros”, “os que se curvam”: os anawin – incluindo as mulheres. Rodeado de discípulos e discípulas que o seguiam, não podia agradar à religião oficial que detinha o poder religioso e político no Templo. Por isso O condenaram a uma morte indigna, a crucificação.

Após a sua morte, os discípulos, timoratos, “fizeram a experiência avassaladora da fé de que aquele Jesus, o crucificado, está vivo em Deus para sempre. E se Ele vale, todos valem”. Como se sabe, “Paulo de perseguidor tornou-se Apóstolo” e espalhou com os seus companheiros o Evangelho pelo mundo até então conhecido. Repetimos as extraordinárias palavras de Paulo: “Já não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher: todos são um só em Cristo”.

“Esta é a Igreja dos começos”; do grego, (ekklesiai), comunidades de crentes de Jesus, o Cristo, o Messias. Reuniam-se numa casa particular, com mais meios, celebrando a Eucaristia – “o banquete do amor e testemunho da verdade até ao fim – recordando a última Ceia e as refeições de Jesus, que tinham causado enorme impressão”. Quem dirigia “era o dono ou a dona da casa”. Tinham, pois, uma missão, serviam os irmãos.

“Com o tempo, foi-se impondo a necessidade de uma organização mínima para essas comunidades, a que chamaram Igrejas e depois, para uma Igreja toda, espalhada pelo mundo. Aí foi-se instalando o perigo maior: a Igreja como organização foi sucumbindo – a partir de Constantino – à tentação de se tornar uma instituição de poder cada vez mais poderosa, dominadora, centralizada, imperial. Contrariando Jesus, “sois todos irmãos”, “quem quiser ser o maior torna-se servidor de todos”, a Igreja afirmou-se como hierarquia, com duas classes: clérigos e leigos, os que mandam e os que obedecem… Não é por acaso que quando se fala dela [a Igreja], pensamos no Papa, nos cardeais, nos bispos, nos padres, nos monsenhores – tudo aquilo que nem Jesus nem os discípulos pensariam”.

Segundo o autor, o Novo Testamento evitou sempre o termo (hiereus, sacerdote que oferecia sacrifícios no Templo). No entanto, surgiram “ministérios com uma ordenação sacra… o padre e o bispo transformaram-se ontologicamente, implicando uma distinção essencial. Só o sacerdote ordenado/consagrado pode presidir à Eucaristia [“reinterpretada como sacrifício de expiação dos pecados”]… “Só ele, ‘senhor de Deus’ perdoa os pecados. Esta sacralização levou à lei do celibato e à exclusão das mulheres, por causa da impureza ritual.

 

“Eu quero justiça e misericórdia e não sacrifícios”
a crucificação andrea mategna louvre

A crucificação, pintura de Andrea Mantegna, patente no Museu do Louvre (Paris).

 

“Tal como os profetas, Jesus criticou sempre os sacrifícios no Templo”. Do mesmo modo, “reinterpretou-se também a crucificação de Jesus como sacrifício ordenado por Deus para redimir os homens do pecado original”. Sabemos que Jesus aceitou a tenebrosa morte na cruz, para “testemunha da verdade até ao fim. Deus é bom”.

Todos devem servir, como diz frei Bento Domingues. “…Não sou anarquista”, escreve Anselmo Borges. “Mas pensando no futuro, julgo que se imporá uma revisão na formação dos futuros padres e responsáveis pelas comunidades… haverá dois tipos de padres: o homem ou a mulher, casados ou não, escolhidos pela comunidade, haverá também os que, celibatários por opção, se entregam a tempo inteiro à coordenação de comunidades e à sua formação mais profunda e mais intensa… O próprio Bento XVI, quando ainda era apenas o professor Joseph Ratzinger, propôs algo semelhante”.

“A Igreja assenta em três pilares: a Fé –entrega confiada em Deus, o Mistério último; o Amor incondicional ao próximo revelado em Jesus Cristo; as liturgias belas que celebram a alegria festiva.

Segundo o autor, há “dois princípios, entrecruzados, que têm de animar a todos: por um lado, o amor, a bondade, por outro a inteligência”.

A renovação da Igreja passa, assim, pela limpeza frontal e sem equívocos da pedofilia; a defesa do celibato não-obrigatório; a existência de ministérios ordenados, mas sem ordens sacras (em relação a quem o possa chamar de “herético”, o autor lembra que o Pontifical Romano já não fala da sagração episcopal ou sacerdotal mas simplesmente de ordenação episcopal e presbiteral); a substituição de uma sexualidade malquista, há já muitos séculos, pela igreja oficial, por uma sexualidade sã; relevar o papel da mulher, contra a misoginia. Finalmente, a sinodalidade da Igreja – processo já em curso, iniciado por Francisco: todo o povo de Deus tem uma palavra a dizer sobre a Igreja, visto que todos pertencem intrinsecamente a ela.

 

Anselmo Borges, O Mundo e a Igreja – Que Futuro?

Ed. Gradiva, 2021, 480 pág., 18 euros

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário.

 

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