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O que revela “Não olhem para cima” da Netflix

| 18/01/2022

Não Olhem Para Cima (Don’t Look Up, no original), filme disponível na Netflix

 

Não Olhem Para Cima é uma nova sátira da Netflix escrita e realizada por Adam McKay e que conta a história de dois astrónomos que entram em pânico para chamar a atenção da humanidade para a colisão de um cometa cujo tamanho gerará uma extinção em massa. Em suma, a humanidade deixará de existir. A sátira está numa humanidade que vive de tal forma na sua bolha de entretenimento, entre sondagens políticas e programas da manhã que, simplesmente, não quer saber. Apesar do elenco de luxo e piadas desnecessárias de teor sexual, o que mais me impressionou foi a falta de esperança na humanidade. A humanidade precisa de mudar de ponto de vista.

No seu livro Earthrise, o astronauta Edgar Mitchell (1930-2016) conta como a experiência de olhar a Terra a partir do espaço mudou a sua visão do mundo. Quando voltava da Lua que havia pisado, a aeronave precisava de realizar um determinado tipo que rotações que lhe permitia ver um panorama a 360º que incluía os céus terrestres, a Lua, o Sol e a infinidade de estrelas que povoam o espaço estelar. Estava diante do maior espetáculo do Universo e foi nesse momento que sentiu algo que jamais esqueceria e que considerava ser uma experiência ímpar neste mundo.

Diz Mitchell: “Para além de todos os bons sentimentos que experimentava, eu tive um momento repentino de intelecção profunda. Era uma consciência impressionante de que o meu corpo e mente estavam ligados a tudo neste universo. Eu senti uma profunda, bem profunda ligação com toda a vida e um sentido de unicidade com o cosmos.”

A formação científica de Mitchell era suficiente para entender que as moléculas do seu corpo foram forjadas nas estrelas que precederam o nosso Sol. Daí a expressão sermos “pó das estrelas”. A consciência experimentada foi profunda e extática no sentido de sair de si mesmo para se reencontrar em unidade plena com todo o universo. Unidade foi a palavra-chave da experiência vivida por Mitchell e muitos astronautas depois dele. A tendência retratada no filme Não Olhem Para Cima é a de uma humanidade que prefere viver entretida e alheada quando confrontada com a sua fragilidade. E a experiência (não tendência) humana cósmica é a da fragilidade, também, do planeta que habitamos e da unidade de toda a criação. Porém, nem todos temos a possibilidade ou capacidade de sermos astronautas. Como podemos sair da depressão do entretenimento e da armadilha da desinformação para entrar na esperança da unicidade cósmica?

Quando voltou para terra firme, Edgar Mitchell procurou junto dos cientistas e teólogos uma explicação para a experiência que havia feito. E foi quando lhe falaram da palavra metanoia, uma palavra grega que significa uma mudança de mentalidade ou de coração, que encontrou sentido para a experiência. De facto, a experiência transformativa que tinha feito mudou a sua forma de pensar e sentir, de tal modo que na cultura ocidental designamos esta experiência como de ”êxtase unitiva”, isto é, um desvio na consciência do eu para a comunhão profunda entre a nossa interioridade e tudo o que existe à nossa volta. Uma unidade que nos coloca fora de nós mesmos e faz-nos sentir ser uma parte inextrincável do cosmos.

Toda a experiência mística de Edgar Mitchell acontece na sua mente. Por isso, na prática, o retorno da Lua deste explorador do espaço tornou-o num explorador da mente. E todos podemos ser exploradores da mente sem precisarmos de ir para o espaço. Basta acolher a metanoia da dimensão espiritual da vida quotidiana.

Todos estamos conectados uns aos outros, mas estaremos ligados? A conectividade digital permite o fluxo de informação entre as pessoas, mas isso não lhes garante um fluxo de experiências. Eu posso ver imagens da natureza que restauram a minha atenção, como alguns estudos demonstraram, mas nada se compara à experiência de caminharmos no mundo natural para experimentarmos a tal unidade cósmica através das rochas, plantas e animais que connosco habitam a casa comum.

O propósito subtil do filme de McKay era a chamada de atenção para a distracção humana em relação às alterações climáticas. Muitos climatólogos continuam a afirmar que o melhor primeiro passo a dar é continuar a falar sobre o assunto, como afirma o ditado português – “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” –, mas creio que isso implica um rever do modo como lidamos com os fluxos de informação e começar a abrir mais espaço aos fluxos de experiências. Podes contar e partilhar ao outro aquilo que lês, mas se lhe contares o que vives, o resultado pode ser metanóico.

 

Miguel Panão é professor no Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra; para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

 

 

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