
O patriarca Abuna Antonios. Foto: Direitos reservados.
Estava em prisão domiciliária desde 2007 e nem sequer teria autorização para ser visto por médicos ou familiares, apesar de sofrer de diabetes e hipertensão ou apesar da sua idade avançada: o patriarca da Igreja Ortodoxa Eritreia Tawaedo, Abuna Antonios, morreu dia 9 de Fevereiro na sua residência na capital do país, Asmara, noticiou a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
Foi a sua resistência às intenções do Governo eritreu em interferir na vida interna da Igreja que o levou a ser considerado figura hostil, acabando detido na sua própria casa. Antes disso, na madrugada de 28 de Maio de 2007, foi levado à força da sua residência, tendo estado durante bastante tempo em paradeiro desconhecido.
Nascido em 12 de Julho de 1927, Antonios foi o terceiro patriarca da Igreja Ortodoxa Eritreia de Tewahedo, tendo sido ordenado padre em 1942. Em 1955, foi eleito abade e, em 19 de Junho de 1994, foi ordenado bispo no Cairo (Egipto), com mais quatro abades eritreus, para que a Igreja Ortodoxa Eritreia de Tewahedo pudesse ter autonomia, constituindo o seu próprio Santo Sínodo, a instância máxima de decisão.
A sua eleição para patriarca, em 2003, foi feita por escolha dos fiéis, com a decisão confirmada pelo Santo Sínodo e formalizada na cerimónia de entronização, presidida pelo Papa Shenouda III, da Igreja Copta.
Em 2006, o Governo da época quis destituí-lo à força do seu cargo, substituindo-o pelo Abuna Dioskoros. No ano anterior, já a mensagem natalícia do patriarca não tinha sido transmitida.
A prisão do patriarca Antonios levou a que ele fosse apresentado na campanha “Libertem os Prisioneiros”, lançada no final de 2020 pela AIS. No relatório da organização que fundamentava a campanha, já se referia o isolamento a que estava sujeito, “sem visitas, incluindo de familiares”, bem como a falta de cuidados médicos. Era também desde 2007 considerado pelos Estados Unidos como um prisioneiro religioso de consciência. A Erena – Rádio Eritreia Internacional refere-o como “um símbolo de resistência popular e religiosa” e como “um ardente lutador pela liberdade da sua Igreja e comunidade contra a interferência governamental”.
A AIS cita o director seu secretariado britânico, Neville Kyrke-Smith, que se mobilizou particularmente em defesa da libertação do patriarca eritreu, manifestou a tristeza pela notícia da sua morte: “Os cristãos da Eritreia perderam um líder notável que defendeu a liberdade religiosa face à agressão e intimidação do Governo.”
“Uma grande figura da sua Igreja”, dizia ainda Neville Kyrke-Smith sobre o patriarca, que sublinhava o “testemunho de resistência pacífica contra a opressão governamental” dado por Antonios, que devia ser olhado como exemplo. Kyrke-Smith acrescentava que “todos os cristãos que estão na prisão tanto na Eritreia como noutros lugares por causa da sua fé” não serão esquecidos.
A Eritreia é um dos países do mundo com piores índices de liberdade religiosa, de acordo com o mais recente relatório da AIS sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, de Abril de 2021.
“O Governo autoritário não permite a liberdade de crença religiosa” na Eritreia, que tem “um dos piores recordes de liberdade religiosa” em todo o planeta. As autoridades recusam à maioria dos eritreus “os seus direitos civis e políticos e, como consequência, milhares estão a tentar emigrar”, nota o relatório. “Com a repressão e detenção arbitrária de membros de grupos religiosos não reconhecidos e as crescentes restrições a grupos autorizados, de que é exemplo o recente encerramento de escolas e centros de saúde católicos, a situação da liberdade religiosa é terrível e não parece susceptível de melhorar num futuro próximo”, diz ainda o relatório.









