Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinalou neste domingo, 29 de Maio, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Natália Faria, jornalista do Público.

Feita de homens, a Igreja Católica portuguesa tem, como muitos de nós, uma compreensível dificuldade em olhar-se ao espelho à procura das suas falhas.
E ainda que não tenhamos ouvido, como em Espanha, os mais altos responsáveis hierárquicos católicos a justificarem a inércia da Igreja no combate e sancionamento dos abusos sexuais de menores e adultos vulneráveis no meio eclesial com o facto de vivermos em sociedades cujos meios de comunicação social incitam ao “sexo livre”, num vergonhoso enjeitamento de responsabilidades, os erros cometidos por cá nesta matéria ao longo do tempo dão para encher várias albufeiras.
Mesmo que enjeitemos a tentação de avaliar comportamentos do passado com as lentes do presente, resulta indigna de uma instituição que se reclama bastião da moral a persistente atitude de encobrimento de erros.
E não é menos indigno o atraso com que a Igreja em Portugal respondeu (com actos relevantes, e não apenas com palavras que mais não faziam do que camuflar o que parecia ser uma resistência passiva generalizada) aos insistentes apelos do Papa Francisco para que passasse a haver total transparência nesta matéria.
Numa altura em que, um pouco por todo o mundo, a Igreja se penitenciava pelos milhares de casos de abuso sexual cometidos ao longo das últimas décadas, com coragem, transparência, humildade, disponibilidade para assumir responsabilidades e indemnizar as vítimas, mesmo que à custa da alienação do seu próprio património, em Portugal as perguntas dos jornalistas sobre esta matéria foram até há bem pouco tempo invariavelmente descartadas com mal disfarçada renitência pelos mais altos responsáveis católicos, sempre no sentido de reduzirem a expressão do problema a uma mera meia dúzia de casos, como quem, numa sacudidela de mão, enxota um moscardo incómodo, impertinente, intrometido.
Os jornalistas são-no muitas vezes. Mas foi também porque os jornalistas não desistiram de perguntar e de desconfiar (sem a persistência que se viu lá fora, é certo, o que a crónica falta de meios e de tempo com que se debatem todas as redacções portuguesas ajudará parcialmente a explicar) que a Igreja concedeu finalmente retirar a já muito esburacada venda que a impedia de olhar para o seu passado. Não foi preciso um ano para se concluir que, afinal, não eram meia dúzia de casos. São já cerca de 320 as denúncias dos que, assegurada a indispensável e genuína abertura para os ouvir, testemunharam ou declararam ter vivenciado a ocorrência de tais abusos na esfera da Igreja. Muitas destas denúncias referem-se a vários casos de abuso. Muitas mais se seguirão.
Muito a fazer na forma como a Igreja comunica
Bastou que mudasse a comunicação. Que mudasse o tom de quem, recém-chegado à cadeira de representante dos bispos portugueses, decide finalmente abandonar a velhíssima desconfiança generalizada face à comunicação social, transformando jornais, rádios e televisões em aliados na divulgação de uma Igreja que se quer renovada. A mudança começou e foi comunicada de forma directa, frontal, sem eufemismos. O que mostra que, querendo, e apesar da natural e desejável tensão, a Igreja sabe aliar-se à comunicação social no esforço de fazer passar a sua mensagem. De resto, que o hiato comunicacional não é de ordem prática confirma-se todos os anos em Fátima, por ocasião das principais peregrinações, e ainda recentemente nas acções de divulgação dos eventos preparatórios das Jornadas Mundiais da Juventude de 2023. A máquina comunicacional existe, é moderna, funciona, mesmo que o ritmo da Igreja e o da comunicação social sejam aqui e ali descompassados.
Mas para que esta “conspiração do silêncio”, como lhe chamou no 7MARGENS o bispo auxiliar de Braga D. Nuno Almeida, se rompa definitivamente, há muito a fazer ainda na forma como a Igreja comunica, sobretudo porque o esforço do líder da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) nem sempre ecoa mais abaixo na hierarquia católica. Um curto exemplo? Dois anos volvidos desde a criação, por imperativo do Papa, das comissões diocesanas destinadas a lidar com os casos de abuso sexual, mais de metade das dioceses continuava sem publicitar nos respectivos sites os simples contactos telefónicos que haviam sido impelidas a criar para incentivar a apresentação de denúncias. E, é escusado lembrá-lo, peca-se também por omissão.
Por outro lado, às perguntas dos diversos jornalistas sobre a recepção de tais denúncias, a maior parte dos bispos continua ainda hoje a responder com o mutismo de sempre, eventualmente porque receia ver expostas atitudes de encobrimento de que, numa sociedade esmagadoramente católica, todos ouviram falar, jornalistas e fiéis, embora sempre oficialmente negadas.
Os emails sem resposta, os inúmeros telefonemas sem interlocutor do lado de lá, as respostas lacónicas, não são falta de jeito ou de à-vontade para falar com jornalistas. São resquícios de uma Igreja pouco habituada ao escrutínio, ciosa do seu poder e da sua posição de privilégio; enfim, do tal clericalismo que o Papa Francisco tanto critica.
Para se desenredarem das teias de aranha que os vão inexoravelmente afastando do quotidiano dos portugueses, os bispos portugueses terão de libertar-se da sua solenidade atávica e de passar a valorizar o sofrimento das vítimas mais do que a sua auto-preservação, sob pena de nada restar para preservar. Terão de ser capazes de pensar colectivamente as mudanças de contexto que vierem a ser tidas como necessárias para evitar a perpetuação de tais comportamentos. E de, à semelhança da Igreja alemã, por exemplo, dispor-se a acolher os que, a partir de dentro, nunca abdicaram da atitude de autocrítica e do questionamento de diferentes formas de ser Igreja, seja no tocante à participação das mulheres seja na condenação da contracepção ou das diferentes formas de viver a conjugalidade.
Feita esta mudança a partir de dentro, abandonada a pose de detentora exclusiva da razão, a relação com a comunicação social, e com a sociedade, tornar-se-á automaticamente mais fluída e eventualmente menos tensa. Mesmo que do pecado de ter sido a última a querer saber a verdade a Igreja portuguesa já não se livre.
Natália Faria é jornalista do Público, onde tem tratado vários temas relacionados com a Igreja Católica.









