
O bispo Manuel Linda, numa celebração na Sé do Porto, em Setembro de 2022. Foto © Diocese do Porto.
O bispo do Porto publicou esta terça-feira, 25, uma nota episcopal com “esclarecimentos sobre a questão dos abusos sexuais” sobre menores. Quinze dias depois de declarações polémicas sobre o conceito de “crime público” e quatro anos depois de ter comparado a necessidade de investigar os abusos à queda de um “meteorito” na cidade do Porto, Manuel Linda assume não ter sido feliz, reconhece a ingenuidade no uso de algumas expressões e admite que “a realidade é muito mais sombria e dolorosa” do que pensava.
No texto, o bispo começa por contar que, depois de “várias notícias e comentários” a propósito das suas declarações acerca do tema, fez “um período de silêncio, reflexão e discernimento”.
Recorda, depois, o momento em que, perante “uma pergunta inesperada sobre a obrigatoriedade ou não de denúncia dos casos de abuso sexual de menores”, acabou por “deixar dúvidas quanto à noção de ‘crime público’”. Muitos dos cristãos se terão “questionado e sentido incomodados com o que se seguiu na comunicação social”, admite o bispo, que declara assumir não ter sido “feliz na expressão e que, porventura”, tornou “incompreensível” o seu pensamento. “E disso peço desculpa a todos e perdão às vítimas que, possivelmente, se sentiram feridas”, acrescenta, na nota publicada na página oficial da Diocese do Porto.
Perante a polémica instalada, os seus pronunciamentos sobre a matéria foram recordados na praça pública, diz o bispo. Concretamente o de há quase quatro anos, quando usou a expressão “queda de um meteorito”. “Algo ingenuamente, estava convencido que as estruturas existentes na Diocese e eu próprio seríamos suficientes para receber e tratar os casos que viessem a surgir”, afirma na nota. Também a expressão “asneiras” usada relativamente a esses casos não caiu bem, mas na sua região de origem a palavra “designa qualquer acção perversa”, diz Manuel Linda. “Não era, pois, minha intenção menorizar o terrível crime dos abusos.”
O bispo reconhece depois que “a realidade é muito mais sombria e dolorosa” do que pensava e quer que fique “muito claro” que deplora o “flagelo dos crimes de natureza sexual cometidos contra menores ou pessoas vulneráveis” e que tudo fará para lhes pôr cobro.
“Vivemos tempos sombrios e sentimo-nos ‘em choque’ pela dor causada a tantas vítimas inocentes, pelos delitos que foram cometidos e, também, pela falha da Igreja em proteger e acolher os mais frágeis que nos foram confiados”, acrescenta o bispo no documento. E, citando o Papa Francisco, diz que é preciso “agir e ajudar as Comissões, a Diocesana e a Independente, no seu trabalho de investigar, acolher e prevenir”. E remete ainda para a necessidade de “todos, clérigos e leigos”, assumirem a “responsabilidade de erradicar” dos “ambientes eclesiais e de toda a sociedade qualquer tipo de abuso, defendendo intransigentemente os mais frágeis, acautelando preventivamente qualquer situação de risco e denunciando os crimes para que se faça justiça”.
A “tolerância zero” que o Papa Francisco declarou para toda a Igreja é a o bispo deseja igualmente para a Diocese do Porto, garante o bispo. “É tempo para escutar as vítimas, sofrer com elas e prestar-lhes todo o apoio. ‘Alguém sofre? É Cristo que sofre!’”.
A nota conclui anunciando que está programado no Porto, para Dezembro, um encontro de formação sobre o tema “Comunidades seguras e sãs” que pretende sensibilizar para o tema da protecção e cuidado das crianças, jovens e adultos vulneráveis e para a “importância de promover um clima de cuidado e bom trato”.










