Domingo iii do tempo pascal – a – 1º dia da Semana de oração pelas vocações 2023

[Que pedra de acordo? / Aprender o mar azul? ― / Assim a ressurreição © Joaquim Félix]
1. Iniciamos hoje a Semana de Oração pelas Vocações.
É o primeiro dia e, talvez por parecer muito preliminar, sinto-me à procura
de uma primeira parábola, capaz de abrir o ‘dizer justo’.
Que início poderia ter esta partilha da Palavra, esta conversa familiar,
de forma a não arrefecer os corações incendiados,
por certo ainda sem entrar em rescaldo, deste a sua escuta direta?
Sim, desde o caminho por onde Jesus já se fez próximo de nós…
Bem, a semana passada, servi-me de um crucifixo,
obra do escultor suíço Albert Schilling,
no qual Jesus se nos apresentava em ritmo de ressurreição,
como em mais uma aparição à comunidade, já com Tomé presente,
na igreja de S. Félix e de Santa Régula, em Zurique.
Hoje, pensei que seria importante começar por uma ‘Pedra do Acordo’.
Uma pedra que, à semelhança daquela que está junto à igreja de Gonça, Guimarães,
servisse como ‘instituição popular’,
não só para os anciãos promoverem uma justiça mais abundante entre as partes,
mas sobretudo para nos pacificar num ‘acordo de sentido primeiro’.
Este tipo de surpresas só é possível porque somos peregrinos,
por sinal, neste e no próximo fim de semana,
a calcorrear as comunidades paroquiais do Arciprestado de Guimarães/Vizela.
2. Reconduzidos à imagem, que podereis imaginar,
interroguemo-nos novamente:
― Que ‘Pedra do Acordo’ nos poderia ajudar a abrir esta semana de oração?
Pensei que esta pedra poderia ser uma história de construção naval.
Recordado da imagem explorada, ontem,
por um padre no contexto do discernimento vocacional,
em mais um encontro de jovens e adultos, aqui no Seminário,
volto a ela, porque nos será muito familiar.
No livro do Pequeno Príncipe, ou Principezinho,
Antoine de Saint–Exupéry sugere por onde se deve começar a contruir um navio.
Porque é obra prima da literatura e faz parte do plano nacional de leitura,
indicado para os alunos entre os 9 e os 11 anos,
creio que muitos, senão mesmo todos, conhecerão a história.
Então, por onde começar a contruir o navio?
Pelo leme? É importante para o conduzir…
Pelo timão, para governar a embarcação?
Pela quilha? Com resistência para sulcar as águas…
Pela popa? Ou, pela proa?
Ah! não seria melhor privilegiar também na âncora?
Enfim, nós, que na semana santa visitamos o navio Gil Eannes,
verificámos, com a ajuda da guia, como muita coisa é importante num navio,
sem esquecer a casa das máquinas e os demais instrumentos de navegação.
Então, retomo a pergunta, por onde começar o navio?
Qual é a sugestão de Antoine de Saint–Exupéry?
Recordemos: «Se quiseres construir um navio,
não convoques as pessoas para juntar madeira ou atribuir-lhes tarefas e trabalho,
mas sim ensina-os a desejar a infinita imensidão do oceano.»

[«Se quiseres construir um navio,/ não convoques as pessoas para juntar madeira ou atribuir-lhes tarefas e trabalho,/ mas sim ensina-os a desejar a infinita imensidão do oceano.» (Antoine de Saint–Exupéry)]
3. Como aprender este desejar de ‘infinito imenso’ do mar?
Precisaremos de pedir aos marinheiros,
ou aos poetas que ditaram o mar como ninguém,
Sophia de Mello Breyner Andresen, por exemplo, ou a outros?
Quem não desejar o mar, o seu azul e o seu sal,
as suas profundezas e distâncias, as ondas e as correntes,
as travessias e os ventos no rosto, o rocio da tarde,
as suas algas, marés, peixes e rochedos ou praias,
dificilmente aprenderá, não só a construir um navio,
como também será imbecil a navegar na vida.
Mar, recordemos, com ele, o mar, é preciso respeito,
porque, como estamos bem-avisados, até pelo milagre de há oito dias,
está ainda nos seus furores de hiemal, de inverno, quero dizer.
4. Para que nos serve esta ‘pedra do acordo’,
a história da construção de navios?
Estou persuadido de que quem não se iniciar pela fé na ressurreição de Jesus
dificilmente poderá aprender «o caminho da vida» (refrão do Sl responsorial),
por mais que peça e esteja confiante, como o salmista:
«Dar-me-eis a conhecer os caminhos da vida» (Sl 15,11).
Ah! mas este caminho da fé na ressurreição de Jesus não é nada fácil.
Verdade, é como aprender a «desejar a infinita imensidão do oceano»,
porquanto também não se faz sem disponibilidade, pois não?
5. Ao longos dos três últimos domingos,
verificámos como Tomé interpôs cláusulas, bem empíricas e táteis,
para poder acreditar, depois que desdenhou do testemunho da comunidade.
Tomé, o ‘dídimo’, é nosso irmão gémeo na dificuldade em crer.
Hoje, são os discípulos de Jesus a caminho de Emaús.
As mulheres, que foram ao sepulcro,
transmitiram aos discípulos, conforme o anjo da ressurreição lhes demandara:
«E ide depressa dizer aos discípulos: “Ele ressuscitou dos mortos
E vai adiante de vós para a Galileia. Lá o vereis”» (Mt 28,10).
Para onde se dirige Cléofas e ou outro inominado,
que pode ser cada um de nós, ou cada leitor deste evangelho?
Dirigiam-se para Emaús, numa clara via de «desvocação» (E. Bianchi).
6. Na impossibilidade de nos determos em todos os detalhes,
que são tantos, como um mar de sinais,
permiti que sublinhe dois ou três.
Atendamos a este, quando se lê:
«É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos sobressaltaram:
Foram de madrugada ao sepulcro,
não encontraram o corpo de Jesus
e vieram dizer que lhes tinham aparecido uns Anjos
a anunciar que Ele estava vivo» (Lc 24,22-23).
Ah! este par de versículos leva-me a pensar
no importante anúncio das mulheres, as apóstolas dos apóstolos.
Não estamos hoje a necessitar deste ‘fermento de inícios’ do cristianismo,
colhido nas fontes do evangelho da ressurreição de Jesus?
«É urgente um barco no mar»,
canta Eugénio de Andrade…ao cantar a urgência do amor.
Oh! e como é urgente na Igreja
― tanto, tanto, tanto urgente! ―,
para cuidar das raízes evangélicas da diversidade ministerial e vocacional,
que devolvamos a credibilidade às mulheres aurorais,
madrugadoras e diligentes, mais do que apressadas,
a anunciar que Cristo vive, mesmo sem o terem visto,
a apontar os lugares da precedência de Jesus,
às nossas Galileias dos primeiros chamamentos…
Vós, mulheres, que aqui estais: não sois como as primeiras,
mulheres que causam ‘sobressaltos’ aos discípulos de Jesus?
7. Outro detalhe, que privilegio, é o seguinte:
os discípulos, enquanto caminhavam, «conversavam entre si,
sobre tudo o que tinha sucedido» (Lc 24,14).
E mais, narra S. Lucas: «Enquanto falavam e discutiam,
Jesus aproximou-se deles e pôs-se com eles a caminho» (Lc 24,15).
Haverá temas tabus na Igreja, hoje em dia?
Se eles falavam sobre «tudo o que tinha acontecido»,
melhor, «falavam e discutiam»,
não haveremos nós, no caminho sinodal, de discutir, também?
Ou as nossas conversas só podem ser ‘amanteigadas’,
no algodão do contexto, como facas a cortar em manteiga derretida?

“Também nós andaremos de olhos vendados em relação a muitos sinais, até à presença de Jesus, que se aproxima de nós e connosco se põe a caminho.”
8. Também nós andaremos de olhos vendados em relação a muitos sinais,
até à presença de Jesus, que se aproxima de nós e connosco se põe a caminho.
Que havemos de fazer, então,
agora que «o dia está a terminar e vem caindo a noite» (Lc 24, 29)?
Vamos dizer-lhe, de coração incendiado:
«Ficai connosco Senhor»? (Lc 24,29).
Ficará Ele, e fará o que fez ao pão, naquela casa de Emaús?
Vamos ver se isto sucede na liturgia eucarística…
Estou, seguramente como vós, persuadido de que sim,
porque, em Jesus, podemos todos dizer a Deus:
«Sois verdadeiramente santo e digno de glória,
Deus, amigo dos humanos, que sempre os acompanhais no seu caminho» (OE V).
E depois, cada um segundo a sua vocação,
poderá dizer aos irmãos e às irmãs o que disse Pedro, repleto do Espírito Santo,
nos Atos (cf. At 2,14.22-33) e na sua Primeira Epístola (cf. 1 Pe 1,17-21).
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Triságia.










