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Simples e profundo

| 10/08/2023

O Papa esteve sempre muito próximo dos jovens durante a JMJ. Foto Sebastião Rôxo / JMJ Lisboa 2023

O Papa esteve sempre muito próximo dos jovens durante a JMJ. Foto Sebastião Rôxo / JMJ Lisboa 2023

 

No momento em que escrevo este texto o avião onde segue o Papa Francisco [de regresso de Lisboa a Roma] encontra-se em território espanhol, a sobrevoar Madrid. Digo-o apenas para que fique datado ou, talvez melhor, enquadrado no tempo com alguma exatidão.

Não tenho a menor pretensão de fazer uma reflexão profunda, de redizer ou reescrever em redundância o que já foi dito e escrito. Outros muito mais competentes do que eu para isso já o fizeram.

Além de mais é preciso arrefecer, mas também é preciso deixar fluir, ainda a quente, o produto imediato do entusiasmo que se quer consequente.

O Papa Francisco faz como ninguém isso que é comunicar de forma aparentemente leve o que de mais profundo e fundamental é preciso propor ao mundo. Tem, de facto, esta coragem de ser simples e enorme a tocar o coração de todos, com exceção daqueles que, permito-me dizê-lo, falam de Deus sem amor e em rota de combate, de forma guerreira e belicista.

A sua comunicação não verbal é também algo tão verdadeiro, humano, franco e terno que corrobora as suas palavras e até a sua espontaneidade e coragem de improvisar para chegar melhor a todos e a cada um que tem por diante.

Alguma fragilidade física, própria da idade e do desgaste pela vida, em nada atenuaram a sua juventude, a que D. Manuel Clemente se referiu. As forças não lhe faltaram para um programa tão intenso e tão denso que me levou a pensar, confesso-o humildemente, que seria um imprudente exagero. Isso, graças a Deus, não se verificou.

Desvio agora um pouco este texto para comentar que, em 2007, fiz uma viagem longa, por paragens algo inóspitas, durante a qual, aos serões, algumas conversas surgiram entre os envolvidos. Éramos muito poucos os portugueses e falava-se de quase tudo, das vidas, das escolhas de cada um, das profissões, das perspetivas, de filosofia, de música, de religião… Nela percebi, de forma consciente, talvez pela primeira vez, que a alegria é um verdadeiro testemunho do amor de Deus, da Sua presença constante nas nossas vidas; percebi que pessoas boas (não católicas) julgavam que “os católicos eram uns tristes”; percebi que, quando esses mesmos encontram alguém que lhes mostra com naturalidade e autenticidade que se pode ser católico e ser alegre, ficam com vontade de descobrir Deus. Um desses, pouco tempo depois de terminar essa jornada, enviou uma mensagem que dizia: “O meu pai morreu. Já que eu ainda não sei rezar, conto com as suas orações.”

Seis anos depois disto, surgiu, pela mão do Papa Francisco, no início do seu pontificado, a exortação apostólica Evangelii Gaudium dirigida ao clero, consagrados, leigos, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. E que bom que foi lê-la. Que bom que foi reconhecer nela a validação de uma busca de ser, de um caminho percorrido.

Apetece realmente citar muitos e muitos pedaços daquela, como apetece transcrever períodos inteiros das suas encíclicas, mas a única hipótese é fazer um convite à leitura. Gostava mesmo que, sobretudo os jovens que estão sob o entusiasmo desta Jornada Mundial da Juventude, a perpetuassem com ações e com profundidade, nomeadamente através da leitura do que realmente importa. Não se enganem, pois estes textos são alguns dos que mais contam.

O ano passado comentei, na 44ª Semana Bíblica, que temos de assumir que o mundo ocidental desenvolvido se transformou, em parte, num terceiro mundo no que diz respeito ao modo como cuida da própria humanidade.

Agora que a JMJ Lisboa 2023 chegou ao fim, em cima do acontecimento, julgo poder afirmar, assim o sinto, que o Santo Padre nos incitou e deixou uma síntese de condimentos para podermos, em contracorrente, desfazer esta tendência – sonhar; não ter medo; abrir as portas para todos, todos, todos; ter cuidado com os egoísmos disfarçados de amor; não esquecer a alegria como missionária; sublinhar que o único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo é para a ajudar a levantar-se; …

Desde há pelo menos quatro anos que falo da necessidade de se ser autêntico, não apenas no sentido de que cada pessoa é única; mas de que deve ter a coragem da verdade, da discrição, da não promoção do seu ego, do não desejo de supremacia narcísica e da entrega do seu caminho de vida ao serviço do bem comum; da coragem de se ser em relação e não em intermediação pelas redes sociais que, usadas de forma abusiva, fabricam personagens inexistentes e promovem o desempenho de papeis de faz de conta de ser.

Se, depois de tanto esforço de tantos, não ficarmos com a determinação de nos tornarmos consequentes na vida concreta que se faz em cada dia que passa, então seremos irresponsáveis e imaturos no uso deste gigante legado que o Papa Francisco nos deixou, justamente em Lisboa, “casa da fraternidade e cidade dos sonhos”, como chamou a este lugar que ocupamos e nos é dado dignificar.

Termino este curto texto quando o avião do Santo Padre está a sobrevoar a Sardenha.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

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