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Biblioteca de memórias. Foto © Olena Bohovyk | Unsplash

[Nas margens da filosofia (LX)]

Todos os anos pelo mês de Janeiro…

Biblioteca de memórias. Foto © Olena Bohovyk | Unsplash

Construir uma biblioteca com os “Vastos Palácios da Memória” de Santo Agostinho. Foto © Olena Bohovyk | Unsplash

 

Desde 2016 que, anualmente pelo mês de Janeiro, tem lugar na Capela do Rato [em Lisboa] um Curso sobre Filosofia, Literatura e Espiritualidade. O interesse vai aumentando pois começámos com um público de duzentos e poucos inscritos e de ano para ano o número foi crescendo, tendo no ano passado atingido os seiscentos e vinte – um record, que muito se deve ao facto de se poder assistir online. E paulatinamente se foi construindo uma comunidade de amigos e amigas dos livros, pois ao fim deste tempo o(a)s assistentes presenciais já se conhecem, cumprimentam-se no início e no final das sessões, participam nos debates e dão sugestões e palpites para obras e temas a apresentar em futuros cursos. Há gente de todas as idades, com predomínio de seniores – estes constituem a maioria daqueles que sente prazer na leitura em suporte de papel. E há entre eles quem tenha mesmo saudades dos livros que se compravam com as folhas por abrir, o que levava ao facto de haver em todas as casas dos amigos dos livros uma faca especial para esse efeito, hoje transformada em objecto de colecção.

Mantendo a tradição deste curso dedicámo-lo este ano à memória, recorrendo a Santo Agostinho. Daí o título que lhe foi dado – Os Vastos Palácios da Memória, tal como o filósofo escreveu nas suas Confissões:

“Dirijo-me para as planícies e os vastos palácios da memória, onde estão tesouros de inumeráveis imagens veiculadas por toda a espécie de coisas que se sentiram.”[1]

Os tesouros que escolhemos foram as diferentes obras que propusemos a um conjunto de conferencistas que aceitou generosamente apresentá-las.[2] No programa domina a contemporaneidade, pois, exceptuando Platão, os autores escolhidos são do nosso tempo. Assim, no que respeita à filosofia, para além de três diálogos de Platão, serão apresentadas obras de Henri Bergson, Simone de Beauvoir e Paul Ricoeur. Na literatura temos Umberto Eco, Daphne du Maurier, Fernando Dacosta, Ilse Llosa e Teolinda Gersão. A espiritualidade é representada por Pascal, Etty Hillesum, Thomas Merton e Adélia Prado.

Esperamos que esta proposta seja acolhida com o mesmo entusiasmo com que foram aceites os programas dos anos anteriores. E que o público se mantenha activo e participativo para animar os debates que se seguem às apresentações. É sempre um momento importante para a Capela do Rato receber visitantes que habitualmente não a frequentam. E fazemos um apelo especial aos jovens para que apareçam e participem nas trocas de impressões que ocorrem no final de cada sessão. São momentos particularmente significativos em que opiniões diferentes se confrontam e nos levam a conhecer o modo não só como a apresentação foi recebida, mas sobretudo a abrir novas pistas para interpretações possíveis das obras apresentadas.

Daí o nosso apelo para que os “amigos dos livros da Capela do Rato” nos tragam novos amigos com quem possamos dialogar nos debates finais pois é nesses momentos que serevelam confrontos e seabrem novas perspectivas. E como da discussão nasce a luz, os diálogos que se estabelecem no fim de cada sessão têm concedido ao público a possibilidade de um inter-relacionamento. Por isso estas sessões que tiveram como primeiros auditores pessoas que entre si se desconheciam, vão-se a pouco e pouco transformando num grupo de gente que entre si reconhece a existência de afinidades e de interesses partilhados.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

[1] Santo Agostinho, Confissões, Livro X,VIII, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2000, p. 453.

[2] Veja-se programa completo no cartaz reproduzido acima.

 

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