AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Natal e Ano Novo como êxodo

| 11/01/2024

Êxodo

Desenho: Êxodo, Alberto Teixeira

 

Em sociedades complexas, como a portuguesa, a celebração do Natal é marcada pelo consumo e ligação às festas de Fim de Ano e Ano Novo. Existe um certo regresso ao paganismo, que a dogmatização da data do Divino Nascimento quis combater a partir do século terceiro.

A actual e generalizada prática social destas festas, não deixa de se ligar a um aspecto fundamental do judaísmo e do cristianismo que é a questão do Êxodo.

No Livro do Êxodo assistimos a diferentes episódios, como a Teofania (19:1-25 e 20:18-21), a Proclamação do Decálogo (20:1-17), o Código da Aliança (20:22-23, 19), a Partida e Entrada na Terra Prometida (23:20-33).

Desde a primeira parte daquele livro, que podemos perceber diversos rituais e negociações, entre o Povo Eleito e Deus, entre as personagens referidas e os povos que encontram, induzindo-nos numa viagem de libertação.

No Novo Testamento, a figura do Êxodo pode ser identificada em alguns acontecimentos da vida de Jesus: a fuga para o Egipto, o Baptismo, a Tentação no Deserto, a Páscoa e Última Ceia, ou afastamento para lugares solitários para orar, ou regiões seguras para ensinar.

No Novo Testamento encontramos a fuga à perseguição de Herodes, similar à libertação, a iniciação e consagração, as quarentenas purificadoras, o sacrifício do Cordeiro de Deus, a morte e ressurreição e o desprendimento material para um caminho espiritual.

Nas Epístolas, identificamos o Êxodo nas exortações à libertação da escravidão do pecado, para encontrar a Graça de Deus (Rm 6:17-18), o baptismo como passagem simbólica similar à travessia do Mar Vermelho (1Cor 10:1-2), ou o deserto como período de desafio espiritual contra o endurecimento do coração (Hb 3:7-19).

Os textos apócrifos também contêm bastantes abordagens sobre o assunto.

O deserto é um motivo recorrente e associado à vida de Jesus, quer como retiro de oração, para ensinar, ou retiro após curar.

Nos dias de hoje, as celebrações caracterizam-se por movimentos (deslocações) massivos para as compras nas grandes superfícies e festejos de rua e algumas reuniões familiares nos locais de origem.

A histórica deslocação de zonas rurais para locais de polarização industrial, comercial e serviços, tem nesta época um grande movimento de retorno, de um lugar para o outro, para reagrupamento familiar ou turismo.

Sob o ponto de vista individual, estes movimentos exploram a tensão e desejo de liberdade e fuga, que até podem consistir numa certa procura de abrigo afectivo.

As comunidades que acolhem os viajantes, por reagrupamento ou turismo, reconhecem o direito de aquelas pessoas perturbarem as suas rotinas diárias e até o desejam, como se de refugiados se tratassem.

Cada indivíduo participante nestes movimentos de deslocação tem oportunidade de redefinir identidades e o seu lugar no mundo a partir do momento em que inicia a sua viagem, independentemente da distância e objectivos, reais ou ficcionados por cada mente.

Nestes diferentes tipos de êxodo são engendradas uma variedade de respostas emocionais e cognitivas em cada participante, quer no que se desloca, quer no que acolhe. Servindo, tanto para o reagrupamento familiar, como para o comercial ou em turismo.

Nos diferentes “êxodos” podem ocorrer níveis elevados de stress em massa ou individual, ansiedade, traumatismos em razão do jogo de incertezas e até rotura e perdas emocionais que a separação pode causar na estabilidade individual ou de grupo, como encontramos nos relatos bíblicos.

Em todos os casos, há sempre a oportunidade para estratégias de adaptação e resiliência, que não deixam de contribuir para a saúde mental de todos.

Os festejos quase pagãos actuais do Natal e a sua ligação ao Fim de Ano e Ano Novo, não deixam de ser uma exploração simbólica de sentido para as coisas da vida e uma ocasião de procura interior e identidade, com as dimensões mais profundas do Ser, com ritmos e capacidades diferenciadas.

Assim, assistimos a uma associação ao sagrado e à atribuição de relevância à transformação espiritual, numa viagem simbólica no espaço e no tempo, onde a perseverança e a esperança inspiram um sentimento de resiliência, como o fez o Êxodo com o Povo Eleito.

A natureza divina, nesta viagem da alma, é um mistério da existência humana, mesmo que o caminho espiritual se revista de desejos e acontecimentos materiais, numa certa procura sem entraves e libertação da escravidão que cada um sente.

Talvez alguns de nós prefiram uma certa renúncia do mundo material, mas está ao alcance de todos, pelo exemplo de vida em Cristo e acolhimento dos outros, encontrar a sua Festividade.

 

Alberto Teixeira é cristão ortodoxo.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.