
“O dia amanheceu em Mos repleto de nevoeiro. (…) Confesso que sempre gostei de nevoeiro. Tudo fica com um certo ar cinematográfico.” Foto © Cláudio Louro
O dia amanheceu em Mos repleto de nevoeiro. A roseira à entrada do albergue estava envolta dessa tonalidade um tanto ou quanto misteriosa. Confesso que sempre gostei de nevoeiro. Tudo fica com um certo ar cinematográfico.
Depois do pequeno almoço, abracei o caminho que, a cada quilómetro, é sempre surpreendente. Neste caso, até bastaram uns metros de subida, para afinal atravessar a névoa e descobrir um céu azul e radiante de sol.
Cruzei-me com uma peregrina. Copiei-lhe o gesto e contemplei as nuvens a dançarem com a luz do sol por entre as montanhas. Eis-me em busca. Em busca da Presença que está sempre no quilómetro mais fundo de nós mesmos. Escutei o “Passo a rezar”, contemplando a contínua aula que a natureza nos dá: tempo. Por vezes, descubro-me numa sensação de pressa eminente. A pressa do fazer, a pressa de sentir, a pressa até da própria conversão. Olhar para as flores descansa-me. “Não trabalham, nem fiam”… Deixam-se trabalhar e fiar. Sem pressa.
Vejo a placa: faltam cerca de 94 km para Santiago. Releio a mensagem bonita que a minha prima me enviou ontem. Sorrio. Sigo caminho, abraçando-me, e procurando mergulhar mais fundo. Surge um caminho de terra por entre as árvores, com um quê de mística. Subo-o ao som da Sara Tavares, saboreando esse “ponto de luz aceso na alma”.
Após atravessar um monumento bastante significativo, em honra das mulheres que sofreram violência, eis que os trilhos começam a variar no declive e no terreno. Também os meus pensamentos foram andando por montes e vales, deixando-me mais desgastado psicologicamente.

Um coração a caminho de Santiago. Foto © Cláudio Louro
Cheguei a Redondela e descansei. Almocei, e parei na Igreja de Santiago, onde estive em oração e reflexão. A clarividência surgiu e deixou-me mais leve e livre para o caminho. Identifiquei alguns padrões que Deus me tem ajudado a desmontar. Reconhecê-Lo nessas dores de crescimento é uma grande graça! Ele sonha-nos livres. Para tal, há que atravessar aquilo que é sombra em nós.
Talvez esses sejam quilómetros fundamentais que têm mesmo de ser percorridos, com tempo, ao ritmo de cada um. Sem pressa. Vamos a isso. Depois da subida e descida da montanha, cheguei à bela Ponte Sampaio. É hora de descansar. Amanhã é nova travessia.

Ponte Sampaio. Foto © Cláudio Louro
Cláudio Louro é animador pastoral e professor de Educação Moral e Religiosa Católica; nas horas livres volta ao universo da música e do teatro musical com os amigos e considera-se atualmente em estado de caminho.
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