
“Porque a formação, o bem-estar em todos os sentidos de todos os membros do povo de Deus, é tarefa de todos. Somos todos próximos de todos e “a formação para uma Igreja sinodal requer que seja realizada em chave sinodal” (RS 14, f).” Foto: Seminário conciliar de Braga, abertura ano letivo 2022. FB
Vivemos em Espanha o Dia do Seminário[1]. O dia em que as dioceses permitem que toda a gente se aproxime dos seminários. A questão é: para ver o quê?
Cada vez menos jovens – e não tão jovens – decidem entrar nos seminários. Claro que procuramos sempre causas exteriores para este baixo acesso: sociedade consumista, falta de compromisso por parte dos jovens, casamentos com menos filhos e, portanto, falta de possibilidades…
Durante estes dias ouviremos falar dos jovens que entram nos seminários, como se fossem heróis. São os que seguem “a vocação”, os que vão contra a corrente, os corajosos, os decididos. Fazer com que se sintam distintos desde que põem o pé no seminário é totalmente errado. Eles seguem a sua vocação batismal como muitas outras pessoas seguem outras vocações batismais. Simplesmente. Não são mais por terem essa vocação específica. Nem menos.
Os nossos seminários conciliares, que se chamam justamente assim pelo Concílio de Trento e não pelo Vaticano II, são chamados a uma profunda conversão à lógica do Reino (RS 14, b) e, com eles, os seus habitantes. Nessa transformação, não deveriam estar implicados somente os bispos e os responsáveis pela formação. Também no Relatório Síntese da última Assembleia do Sínodo do mês de outubro de 2023, convida-se a incluir nela “a sabedoria dos simples numa aliança educativa que é indispensável para a comunidade. Este é o primeiro sinal de uma formação entendida no sentido sinodal” (RS 14, c).
Porque a formação, o bem-estar em todos os sentidos de todos os membros do povo de Deus, é tarefa de todos. Somos todos próximos de todos e “a formação para uma Igreja sinodal requer que seja realizada em chave sinodal” (RS 14, f).
Diz o teólogo e filósofo Tomáš Halik, que tudo o que está vivo está em permanente mudança e que hoje podemos sentir o mau cheiro das formas mortas do cristianismo.
Talvez, entre essas formas mortas do cristianismo, esteja o facto de continuarmos a pensar que determinadas pessoas não podem ter vocação sacerdotal por diversas razões. Não será já hora de pensar se o Espírito não estará a suscitar vocações para este ou outros ministérios que não cabem na nossa estreita visão, devido ao tipo de pessoas que as recebem?
Sim. É claro que há vocações para muitas formas de vida na Igreja, evidentemente também para a sacerdotal. Digo-o porque o vejo, porque falo com muitas pessoas, porque ouço o seu sofrimento, a sua solidão, o não se sentirem pessoas porque não são iguais à maioria, mas diferentes. Nem melhores nem piores, apenas diferentes. Quem poderá acreditar que o Espírito, tão livre ao longo da história da Igreja, tenha preferência sobre algumas pessoas em relação a outras para lhes dar a vocação sacerdotal?
Deixemos de criar em cada dia o nosso salmo particular de lamentações vocacionais e abramos a nossa mente, o nosso coração e o nosso pobre espírito ao que o Espírito nos tem vindo a dizer há muito tempo. Deixemos a nossa miopia espiritual e aprendamos a olhar o que é diferente, o diverso como uma possibilidade e não como uma ameaça.
Pensar a partir dos escritórios, das sacristias e dos próprios aquários em como conseguir mais vocações é fechar-se à novidade do Espírito. Há que sair para o mar aberto onde o Espírito sopra, aonde, como e sobre quem quiser.
Porque se não vamos dando passos, a pergunta que deveremos começar a fazer-nos não será sobre a falta de vocações, porque há vocações, mas sim: não será que não há Igreja para algumas vocações?
[1] Em Espanha, celebrou-se o Dia do Seminário a 17 de março, domingo mais próximo da solenidade de São José (19 de Março), patrono dos seminários.
Cristina Inogés Sanz é teóloga e membro do Sínodo dos Bispos por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro “A sinfonia feminina (incompleta) de Thomas Merton”, Edições Paulinas. Este texto foi inicialmente publicado na revista Vida Nueva.









