
Krajewski foi a Ternopil entregar alguns presentes do Papa – uma ambulância equipada como centro móvel de reanimação e vários medicamentos essenciais. Foto © Vatican Media
Costuma dizer-se que não há duas sem três. Mas para o esmoleiro do Papa, não há seis sem sete. O cardeal Konrad Krajewski chegou na madrugada desta quarta-feira, 26, a Ternopil, no oeste da Ucrânia, naquela que é já a sétima vez que visita o país para levar ajuda aos mais necessitados desde o início da invasão pela Rússia. Se fosse a última, seria bom sinal, mas o cenário que encontrou deixa antever o contrário.
Krajewski foi entregar alguns presentes do Papa – uma ambulância equipada como centro móvel de reanimação e vários medicamentos essenciais fornecidos pela Farmácia do Vaticano e pela Farmácia do Hospital Gemelli – e ainda inaugurar um centro de reabilitação com o nome de João Paulo II. “Um sinal de amor e de esperança”, disse aos meios de comunicação do Vaticano.
Mas como chegou antes do previsto, por volta das quatro da manhã, o prefeito do Dicastério para o Serviço da Caridade incluiu mais uma etapa na sua agenda. “Cheguei a Ternopil bem cedo”, partilha, “e o pároco ainda estava a dormir. Para não o acordar, fui ao cemitério próximo e havia uma área para os soldados que tinham acabado de ser sepultados. Jovens, jovens… Sob a cruz, as suas fotos: 20-23-25 anos… Fiquei mal e até mesmo com raiva”, confessa. “Como é possível que em 2024 os jovens ainda morrem na guerra? Senhor, basta disto! Não é possível que o mundo produza armas, que todos ganhem dinheiro e que estes jovens percam as suas vidas”, rezou então.
A etapa não terminou aí, conta Krajeski. A sua tristeza aumentou ainda mais quando viu uma jovem mulher chegar: “Ela estava não muito longe de mim, em frente ao túmulo do marido, e estava grávida. No meu brasão [episcopal] tenho esta palavra: ‘misericórdia’. Mas hoje realmente tive dificuldade com a misericórdia. Porque é que continuam a disparar, porque matam? Eu sei que a misericórdia supera a justiça, que é o segundo nome de Deus, mas hoje tive dificuldade em aplicar essa palavra. Estava muito irritado no cemitério na Ucrânia… Então as palavras da ladainha do Sagrado Coração voltaram à minha mente, e pensei que não posso julgar de acordo com o mundo e acalmei-me”. “Nós, homens”, acrescentou o cardeal, “somos capazes de fazer coisas extraordinárias no mundo, mas também coisas terríveis, sem piedade, e isso está a acontecer há mais de dois anos na Ucrânia”, lamentou.
Entre essas “coisas extraordinárias”, incluem-se a ambulância e os medicamentos oferecidos pelo Papa, mas também os 240 camiões que, ao todo, já chegaram de Roma com roupas, alimentos, geradores elétricos e outros bens necessários às populações em sofrimento desde fevereiro de 2022. “A situação aqui ainda é terrível: disparam, ouvem-se alarmes de sirenes. Mas também se ouve a parte boa das pessoas que ajudam e ajudam há meses, sem esquecer de forma concreta aqueles que sofrem”, conclui o esmoleiro do Papa.









